Sócrates, Pokémon e simbolismo sonoro

Você já pensou por que as coisas receberam os nomes que têm? Como o primeiro ser humano a criar palavras, muito antes de o português existir, decidiu que sons ele usaria para nomear as coisas do mundo? No Laboratório de Estudos Experimentais em Linguagem da UFRN nós fizemos uma série de experimentos com nomes de Pokémons que tem relação com essas perguntas.

Antes de falar dos Pokémons, é bom explicar como os linguistas e filósofos respondem a primeira questão: por que as coisas têm os nomes que têm? A primeira discussão registrada sobre o assunto no ocidente está no Crátilo, um diálogo de Platão sobre a natureza dos nomes. Nele, Sócrates argumenta que certos sons parecem evocar algumas características do mundo. O som representado pela nossa letra ‘a’, por exemplo, seria apropriado para nomear objetos grandes, enquanto os sons /s/ e /z/  seriam apropriados para expressar ideias que envolvam sopro, respiração.

Platão treinando em seu ginásio

Essas ideias foram retomada em outros momentos por poetas, linguistas ou filósofos, mas, no início do século XX, um linguista chamado Ferdinand de Saussure ficou famoso ao afirmar que a relação entre os sons de uma palavra e seu significado é arbitrária. Isso significa que um objeto ou uma ideia podem receber qualquer nome: não tem nada em uma mesa, por exemplo, que nos obrigue a usar os sons /m/, /e/, /z/, ou /a/ para nomeá-la. Tanto é assim que dizemos table em inglês, bord em dinamarquês e ithebula em zulu.

A proposta de Saussure foi tão bem aceita na comunidade acadêmica que apenas recentemente alguns linguistas retornaram às ideias de Sócrates para verificar se elas estariam corretas. A partir de alguns experimentos, descobriu-se que falantes de diferentes línguas têm preferências parecidas por associar sons da língua a categorias que percebemos no mundo, como luminosidade, forma, velocidade e tamanho, mais ou menos como suspeitava Sócrates. Essa associação entre som e sentido é chamada pelos linguistas de simbolismo sonoro, e há algumas hipóteses sobre o porquê de fazermos tais relações.

SIMBOLISMO SONORO E A NOÇÃO DE TAMANHO

Alguns dos resultados que conhecemos sobre simbolismo sonoro dizem respeito aos sons que são associados à noção de tamanho. Inúmeros estudos descobriram que as pessoas associam a vogal /i/ a objetos pequenos e /a/ a objetos grandes (o próprio Sócrates já tinha essa impressão!). Além disso, há também evidência de que associamos um tipo de consoante chamada obstruinte vozeada (sons como /g/, /b/ ou /d/) a objetos maiores.  Mas por que isso aconteceria? Por que, exatamente, essas associações?

Há várias hipóteses sobre o assunto. Uma delas, chamada Frequency Code Hypothesis, afirma que nosso sistema linguístico “imitaria” inferências que fazemos sobre os ruídos que escutamos no mundo. Pense em um objeto grande e um pequeno. Eles fazem um barulho diferente ao cair no chão, certo? E pense em um cachorro grande e um pequeno. O latido deles também será diferente. Em ambos os casos, você é capaz de inferir o tamanho do que está produzindo os ruídos mesmo se estiver de olhos vendados, porque nós, humanos, aprendemos a associar características dos sons aos seus emissores.

Todo ruído que ouvimos tem certas propriedades acústicas, e uma das propriedades que usamos para identificar esses sons (e tentar adivinhar de onde eles vêm) é sua frequência. Fontes de tamanho maior (como um cachorro grande) tendem a produzir barulho com uma frequência mais baixa que fontes menores. Curiosamente, é possível caracterizar as obstruintes vozeadas como sons que também têm baixa frequência. A ideia, então, é que propriedades como frequência são percebidas pelos humanos como indicador do tamanho daquilo que está produzindo o barulho, e de certa forma nós “importamos” essa capacidade de associar frequência e tamanho para nosso sistema linguístico.

Quanto ao /a/ e /i/, uma possível explicação relaciona-se não com suas propriedades acústicas, mas com o modo de articulação dessas vogais. Se você pronunciar um /i/ e depois um /a/, perceberá duas coisas: em primeiro lugar, sua mandíbula abre um pouco mais para pronunciar o /a/, além disso, sua língua fica mais baixa (tente!!). Isso causa uma diferença de tamanho da cavidade oral enquanto você articula esses sons (você pode usar esse site aqui para ver a articulação das vogais, basta clicar no som que deseja produzir). De acordo com alguns pesquisadores, o fato de a cavidade ser maior na articulação do /a/ faz com que nós associemos o som dessa consoante a objetos grandes, enquanto a pequena cavidade necessária para articular um /i/ nos faz associar essa vogal a objetos menores.

Mas esses não são os únicos simbolismos associados à noção de tamanho. Alguns linguistas indicam que as pessoas tendem a usar a língua para “imitar” como elas veem o mundo. Pense em como você descreveria dois amigos que comeram muito, mas um comeu rápido e outro comeu devagar. Sobre o amigo rápido, você provavelmente diria algo como “aí ele comeu, comeu, comeu!”, pronunciando os verbos rapidamente. Sobre o amigo que come devagar, você provavelmente diria “aí ele comeeeeeeu, comeeeeeu, comeeeeeeu”, alongando as vogais, pronunciando devagar. Da mesma maneira, há certa evidência de que associamos nomes longos a objetos maiores, e nomes curtos a objetos menores: afinal, o nome “imitaria” o mundo de alguma maneira.

POKÉMON E SIMBOLISMO SONORO

Se você já jogou ou assistiu Pokémon, deve saber que essas criaturas, ao evoluírem, ficam mais fortes, ágeis, rápidas e, muitas vezes, maiores. Logo, considerando tudo o que sabemos sobre simbolismo sonoro, a pergunta que fizemos na nossa pesquisa foi a seguinte: se pedirmos para as pessoas darem nomes a Pokémons pré e pós-evolução que têm tamanhos diferentes, será que elas vão usar os simbolismos sonoros associados à noção de tamanho que os linguistas identificaram?

Essa pergunta já havia sido feita pelo linguista Shigeto Kawahara, que é colaborador no nosso estudo. Shigeto identificou que japoneses, mesmo os que não jogam ou assistem Pokémon, dão nomes às criaturas seguindo os simbolismos sonoros relacionados a tamanho de palavra, tipo de vogal e presença de obstruintes sonoras. A decisão de fazermos o estudo com falantes de português brasileiro se deu por não haver ainda um estudo experimental sobre simbolismo sonoro e noção de tamanho em português, e portanto não sabíamos se os brasileiros fariam essas mesmas associações. Além disso, os estudos sobre simbolismo sonoro geralmente usam formas geométricas grandes e pequenas e pedem para as pessoas nomeá-las, o que é uma tarefa bem chata e sem propósito. Afinal, não é muito comum a gente ter que criar nomes para formas abstratas, e diferentes culturas podem interpretar essas formas abstratas de diferentes modos.

Ao usarmos Pokémons para testarmos simbolismo sonoro em japonês e português, nós criamos uma tarefa mais interessante para os participantes, muitos deles jogadores de Pokémon. Além disso, nós garantimos que falantes de línguas e culturas muito diferentes manteriam mais ou menos a mesma relação com o objeto que estão nomeando. Isso permitiria investigar até que ponto as associações entre som e sentido seriam as mesmas para falantes de línguas diferentes.

Fizemos três experimentos em que pedíamos para as pessoas criarem ou escolherem nomes já prontos para Pokémons pré e pós-evolução parecidos com o que mostramos na figura abaixo. Usamos Pokémons novos, desenhados como fan art pela artista toto-mame (que gentilmente nos deu autorização para usá-los).

Um exemplo de par de Pokémon usado em nosso estudo

Ao todo, mais de 300 pessoas (às quais somos muito gratos!) participaram dos experimentos. Os resultados foram muito parecidos com o encontrado em japonês e com o que prevíamos: Pokémons pré-evolução receberam mais nomes com a vogal /i/, e seus nomes eram mais curtos, enquanto Pokémons pós-evolução eram mais longos e receberam mais nomes com a vogal /a/. Além disso, houve um efeito cumulativo das obstruintes vozeadas: quanto mais desses sons havia em um nome, maior a chance de associar esse nome a um Pokémon pós-evolução.

De modo geral, o que os nomes de Pokémon nos dizem é que, de fato, Sócrates tinha um pouco de razão: ao nomear novos objetos, pessoas que falam línguas muito diferentes tendem a usar os mesmos sons ou estruturas que parecem mais apropriados para expressar características desses objetos. Pense nisso ao nomear os próximos Pokémons que capturar!

 

PARA SABER MAIS

Se você quiser saber mais sobre simbolismo sonoro, pode ler este texto publicado na Roseta, a revista de divulgação científica da Associação Brasileira de Linguística. Para saber mais sobre o experimento dos Pokémons, ouça o podcast Dragões de Garagem #145, sobre simbolismo sonoro. Se tiver dúvidas sobre como fizemos o experimento ou analisamos os dados, você também pode mandar perguntas no twitter para @mahagodoy. Por fim, se tiver fôlego para ler um texto acadêmico sobre simbolismo sonoro, sugerimos o artigo Iconicity in the lab, de Gwilym Lockwood e Mark Dingemanse.

Doutora em Linguística pela Unicamp e professora do Departamento de Letras da UFRN, onde coordena do Laboratório de Estudos Experimentais em Linguagem. Tenta entender como somos capazes de criar e manipular linguagem na nossa mente.

CC BY-NC 4.0 Sócrates, Pokémon e simbolismo sonoro by Mahayana Godoy is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

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