Coerção

Uma coerção acontece quando forçamos uma interpretação independente do material linguístico ao qual fomos expostos.

Considere que, ao compreendermos uma sentença, operamos uma combinação entre as palavras e morfemas existentes como em (1) abaixo:

(1) João comeu o bolo

Muitas sentenças, porém, não podem ser completamente deduzidas a partir desta combinação e necessitam uma interpretação “forçada”, ao adicionar informações que não estão presentes nas palavras e morfemas utilizados como nos exemplos abaixo:

Coerção de Tipo:

Ocorre quando combinamos um verbo com um objeto que, neste contexto, denota uma segunda ação não explícita realizada sobre o objeto. Considere os exemplos abaixo:

(2) João terminou o livro
(3) O escritor terminou o livro
(4) O leitor terminou o livro
(5) A editora terminou o livro

Ao combinarmos [terminou o livro], sabemos que alguma segunda ação acontece sobre o livro. Esta segunda ação precisa ser inferida através do contexto. As interpretações de (3-5) são claras devido às características dos sujeitos envolvidos (terminou de escrever, de ler e de editar, respectivamente). Por outro lado, qual seria a interpretação de (2)?

Coerção Aspectual:

Considere aspecto como um termo correspondente a diversas características ligadas ao contorno temporal dos eventos. Estas características podem ser relacionadas a existência ou não de um ponto final inerente (telicidade) como pode ser observado ao comparar os verbos [correr] e [desenhar]. Outra característica aspectual é possibilidade de os verbos estarem em formas contínuas ou não contínuas (perfectividade), que pode ser observado ao compararmos as formas verbais [pular] e [pulando]. No nosso caso, a característica mais importante será relacionada à duração de um evento, ou seja, se o evento descrito por uma oração é [pontual] ou [durativo]. Considere os exemplos abaixo:

(6) João correu por 10 minutos
(7) João pulou por 10 minutos
(8) João pulou de susto
(9) João quebrou o copo por 10 minutos

Repare que a estrutura de (6) é idêntica à de (7). Ainda assim, em (6) entendemos que apenas uma corrida foi realizada enquanto, em (7), entendemos inevitavelmente que vários pulos aconteceram. Para parte da teoria linguística e da psicolinguística, isso ocorre devido ao fato de [pular] ser um verbo pontual inserido em um contexto durativo [por 10 minutos]. Neste caso, a incompatibilidade gera uma nova classe aspectual e dizemos que o evento é iterativo (se repete).

Em contextos pontuais, o verbo pular mantém sua interpretação original de evento pontual e único, como em (8). Repare também que existe uma limitação para a iterativização dos verbos pontuais. Em (9) percebemos que verbos pontuais que geram um resultado como [quebrar] não podem sofrer coerção. Isso acontece pelo fato de que uma vez que o evento acontece (quebrar um copo), ele gera seu resultado e não poderá ser repetido (quebrar um mesmo copo por 10 minutos).