Se a sua fé precisa de embasamento científico é porque está fazendo alguma coisa errada

tirinhas85

No post anterior, uma amiga me escreveu indignada com a falta de educação científica dos EUA, onde mais da metade das pessoas não acredita na evolução.

Uma vez, em uma palestra, fiz uma pergunta para o Marcelo Leite e Monica Teixeira, que são divulgadores de ciência famosos no Brasil: Como pode os EUA, que é o maior produtor de ciência no mundo, ter tantas pessoas que não acreditam em evolução?

O Marcelo Leite disse que o que acontece é que nos EUA têm muito espaço e recursos para todos os tipos de ideologias. E setores religiosos mais conservadores veem que a evolução não bate com o que eles acreditam. Não são todos os religiosos que pensam assim, mas principalmente os que acreditam exatamente no que está na bíblia, que acreditam na mulher vindo da costela de Adão, ou que Noé colocou TODOS os animais do mundo numa barca. Mas esses vão ter problemas sérios não só com a evolução mas com muito mais gente por aí. Por isso vamos deixar eles de lado.

Acontece que tem um pessoal que n√£o √© t√£o radical. E essas pessoas se dividem tamb√©m. Tem os que acreditam que deus √© uma entidade sobrenatural, ou seja, fora do mundo natural; e tem o pessoal que tenta ligar religi√£o e ci√™ncia fazendo uma gambiarra, e isso √© o tal do Design Inteligente. Os primeiros (deus √© sobrenatural e por isso n√£o vamos tentar explicar cientificamente) eu respeito, os outros (design inteligente: deus n√£o fez a mulher da costela de Ad√£o mas p√īs o dedo em todas as muta√ß√Ķes de DNA at√© o que viramos hoje) n√£o tem o meu respeito porque tentam afirmar a sua f√© com ci√™ncia, e quando fazem isso distorcem as duas: a f√© e a ci√™ncia.

Se a sua fé precisa de embasamento científico é porque está fazendo alguma coisa errada. As duas podem conviver, mas não podem basear-se uma na outra.

Eu n√£o vou indicar nenhum site sobre design inteligente, muito menos criacionistas, mas vou indicar um de um amigo de, quem eu sou f√£, e que est√° escrevendo um blog chamado Darwin e Deus.

Ele sabe muito de ciência, evolução, história, é católico, e é da turma que coloca Deus no sobrenatural e tenta entender como conviver com isso.

Entre l√°

 

E a Biologia Molecular manda mais um cruzado de direita nos criacionistas…

Depois de alguns textos abordando assuntos variados como experimenta√ß√£o animal, e-mails falsos atacando a Monsanto, “assombra√ß√Ķes” neurol√≥gicas, revistas cient√≠ficas, como conseguir mais sexo, gripe su√≠na e at√© ZUMBIS, resolvi come√ßar a semana voltando √† minha √°rea de trabalho e falar um pouco sobre Biologia Molecular.

ResearchBlogging.orgA “complexidade irredut√≠vel”, um dos argumentos preferidos dos criacionistas para explicar “a vida como ela √©” acaba de ter outro de seus exemplos desmantelado por um artigo publicado no peri√≥dico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Foi muito legal tamb√©m ver que o autor principal desse estudo √© Trevor Lithgow, que tive o prazer de conhecer numa confer√™ncia da Sociedade Brasileira de Bioqu√≠mica e Biologia Molecular (a famosa e inflada SBBq) de 2007.

Antes de mais nada, o que é Complexidade Irredutível?
Componentes celulares intrincados s√£o comumente citados como evid√™ncias do design inteligente. Os proponentes dessa id√©ia dizem que esses componentes complexos n√£o podem poderiam ser fruto do processo evolutivo, por n√£o poderem ser separados em partes menores e funcionais. O fato de serem complexos de modo irredut√≠vel √© a base para se propor que eles tenham sido “desenhados” intencionalmente por uma entidade inteligente. Ent√£o t√°, e eu sou o Batman.

O artigo da PNAS compara as mitoc√īndrias e suas parentes bacterianas, demonstrando que as partes necess√°rias para um maquin√°rio celular particular j√° estavam presentes antes de qualquer mitoc√īndria existir. Foi simplesmente uma quest√£o de tempo at√© que essas partes se combinassem de modo mais complexa.

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“Prazer, Mitoc√īndria”

Mitoc√īndrias s√£o organelas celulares descendentes de bact√©rias que milh√Ķes de anos atr√°s foram “incorporadas” por c√©lulas mais complexas. Isso foi proposto por Lynn Margulis, criadora da Teoria da Endossimbiose. Em pouco tempo essas bact√©rias incorporadas se tornaram personagens centrais para as fun√ß√Ķes celulares.

joces11616cvf.gifS√≥ existe um por√©m: essas pr√©-mitoc√īndrias n√£o poderiam ter sobrevivido em seu novo “lar” sem um maquin√°rio prot√©ico chamado TIM23 (um complexo enzim√°tico da membrana interna da mitoc√īndria que pode ser visualizado em amarelo, na imagem ao lado) que realiza o transporte de prote√≠nas para dentro das mitoc√īndrias. As bact√©rias ancestrais n√£o possuem o complexo TIM23, o que sugere que tenham sido desenvolvidas j√° nas mitoc√īndrias, tempos depois.

Isso traz √† tona uma pergunta do tipo “Quem veio primeiro, ovo ou galinha?”: como poderia o transporte de prote√≠nas ter evolu√≠do quando as prote√≠nas eram necess√°rias para a sobreviv√™ncia, no primeiro caso?!

De acordo com a teoria evolucionista, no entanto, a complexidade celular √Č SIM redut√≠vel. √Č necess√°rio somente que os componentes existentes sejam recondicionados, com muta√ß√Ķes inevit√°veis promovendo ingredientes extras √† medida em que s√£o necess√°rios. Os flagelos, propulsores similares a cabelos usados por bact√©rias para locomo√ß√£o, s√£o outro exemplo. Seus componentes s√£o encontrados por toda a c√©lula realizando outras tarefas.

O design inteligente j√° utilizou flagelos como evid√™ncia de sua teoria, assumindo que o mesmo seria uma estrutura irredut√≠vel, o que foi posto por terra de acordo com fatos cient√≠ficos, como pode ser lido nesse artigo da revista New Scientist. Esse estudo utilizando mitoc√īndrias faz o mesmo em rela√ß√£o ao transporte de prote√≠nas.

“Essa an√°lise de transporte de prote√≠nas nos fornece uma marca para a evolu√ß√£o de maquin√°rios celulares em geral,” escreve a equipe liderada por Trevor Lithgow. “A complexidade dessas m√°quinas n√£o √© irredut√≠vel.”

Quando analisaram os genomas de proteobact√©rias, a fam√≠lia que deu origem aos ancestrais das mitoc√īndrias, a equipe de Lithgow encontrou duas das partes prot√©icas utilizadas pelas mitoc√īndrias para fazer o complexo TIM23.

As partes estão na membrana celular bacteriana, localizadas de modo ideal para o eventual papel de transporte protéico feito pelo complexo TIM23. Apenas outra parte, uma molécula chamada LivH, poderia fazer um maquinário de transporte protéico rudimentar Рe (surpresa!) essa molécula é comumente encontrada em proteobactérias.

O processo pelo qual partes s√£o acumuladas at√© que estejam preparas para se juntarem num complexo √© chamado pr√©-adapta√ß√£o. √Č uma forma de “evolu√ß√£o neutra”, na qual a constru√ß√£o das partes n√£o fornece nenhuma vantagem ou desvantagem imediata. A evolu√ß√£o neutra encontra-se fora das descri√ß√Ķes de Darwin. Mas quando as partes s√£o juntas, muta√ß√Ķes e a sele√ß√£o natural podem se encarregar do restante do processo, resultando, em √ļltimo caso, no agora complexo TIM23.

“N√£o era poss√≠vel, at√© hoje, tra√ßar qualquer uma dessas prote√≠nas at√© seu ancestral bacteriano,” diz o biologista celular Michael Gray, um dos pesquisadores que originalmente descreveu as origens das mitoc√īndrias. “Essas tr√™s prote√≠nas n√£o possu√≠am exatamente a mesma fun√ß√£o nas proteobact√©rias, mas com uma simples muta√ß√£o puderam se transformar numa m√°quina de transporte de prote√≠nas simples, que pode dar in√≠cio a tudo.”

“Voc√™ olha para maquin√°rios celulares e diz, porque a Biologia faria algo assim?! √Č muito bizarro,” ele diz. “Mas quando voc√™ pensa sobre o assunto √† luz dos processos de evolu√ß√£o neutra, em que essas m√°quinas emergem antes que sejam necess√°rias, elas fazem sentido.”

√Č, minha gente, tem coisa mais bonita que a Biologia?

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Pr√° finalizar, minha opini√£o sobre design inteligente…

Texto adaptado de “More ‘Evidence’ of Intelligent Design Shot Down by Science”, escrito por Brandon Klein e publicado na Wired Science.

Imagens: Journal of Cell Science, Blog The atheist, polyamorous, geek

Clements, A., Bursac, D., Gatsos, X., Perry, A., Civciristov, S., Celik, N., Likic, V., Poggio, S., Jacobs-Wagner, C., Strugnell, R., & Lithgow, T. (2009). The reducible complexity of a mitochondrial molecular machine Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.0908264106