Discordando de E.O. Wilson (pode?!)

Prometo que eu não fiquei maluco. Ainda. Primeiro: esse post não é para todo mundo. Se você não curte ciência a ponto de discutir a discussão, tchau e até o próximo.

Eu tive um professor de Matem√°tica no cursinho que antes de come√ßar os exerc√≠cios mais dif√≠ceis no final de cada aula, dizia: “Esse √© s√≥ para os coreanos. N√£o vai prestar Exatas, Medicina? Quer Letras, Biologia? Pode sair, vai jogar truco que voc√™ ganha mais. S√≥ quero o povo cabe√ßudo aqui!”.

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E.O. Wilson: biólogo, lenda e criador de discórdia entre divulgadores de ciência. Percebam seu sorriso maléfico enquanto observa os mortais se matando na discussão.

Voltando ao assunto: apesar de a experiência em geral ter sido ótima, algumas partes do livro Letters to a Young Scientist do biólogo-lenda-extraordinaire Edward O. Wilson me incomodaram muito. No calor da confusão, resolvi listar alguns pontos e fazer algo bem 2009: criar um debate com os amigos do SBBr e da rede de divulgação científica BR.

Tenho certeza que as opini√Ķes de v√°rios deles, mais especializados e estudados em teoria cient√≠fica e evolu√ß√£o do que eu, acrescentar√£o muito √† discuss√£o.

Vamos começar: em negrito e aspas, a citação do livro, em Inglês para vocês não questionarem a minha tradução. Meu comentário seguirá abaixo e fiz questão de não consultar nada antes de escrever, para fomentar a discussão. I want feedback, people!

1) Ap√≥s testar experimentalmente duas hip√≥teses sobre o comportamento de retirada dos mortos de col√īnias de formigas, Wilson comenta:

“I then came up with another idea: insects of all kinds that scavenge for a living, such as blowflies and scarab beetles, find their way to dead animals or dung by homing in on the scent. And they do so by using a very small number of the decomposition chemicals present. A generalization of this kind, widely applied, with at least a few facts here and there and some logical reasoning behind it, is a theory. Many more experiments, applied to other species, would be required to turn it into what can be confidently called a fact.”

Fiquei espantado com a afrouxada que Wilson deu no conceito de “teoria” em Ci√™ncia. Uma teoria cient√≠fica n√£o √© definida quando existe um amplo corpo experimental e de observa√ß√Ķes que, respeitando o m√©todo cient√≠fico, confirmam uma generaliza√ß√£o e possibilitam a teoria? Para mim, “alguns fatos aqui e ali” √© uma descri√ß√£o muito pobre dessa complexidade.

2) “… when research is still incomplete, the idea is a theory. If the theory is proved wrong, it was not necessarily also altogether a bad theory. At least it will have stimulated new research, which adds to knowledge.”

Novamente, o problema com a defini√ß√£o de teoria cient√≠fica. Mas nesse caso, √© importante comentar a segunda frase do trecho destacado. Ao contr√°rio do que foi escrito por Wilson, quando uma teoria cient√≠fica √© provada errada, incompleta ou qualquer outra coisa, o que acontece √© um grande, enorme movimento no meio cient√≠fico. Dizer que “enquanto a pesquisa est√° incompleta a ideia √© uma teoria” √© leviano, o que significa “pesquisa incompleta”? E uma teoria que √© uma ideia, na verdade √© uma hip√≥tese, ou n√£o cairia com base em uma √ļnica pesquisa. Ou estou errado?

3) “What remais a theory still is that evolution occurs universally by natural selection, the differential survival and successful reproduction of some combinations of hereditary traits over others in breeding populations. This proposition has been tested so many times and in so many ways, it also is now close to deserved recognition as an established fact.”

Vou acrescentar outro trecho, pois a discuss√£o converge:

“Does biology also have laws? I have been so bold in recent years as to suggest that, yes, biology is ruled by two laws… The second law of biology, more tentative than the first, is that all evolution, beyond minor random perturbations due to high mutations and random fluctuations in the number of competing genes, is due to natural selection.”

Longe de mim querer discutir evolu√ß√£o por sele√ß√£o natural, o meu problema foi com o “universalmente” e com “toda evolu√ß√£o… √© produto da sele√ß√£o natural”. Vou deixar a minha falta de conhecimento espec√≠fico no tema dirigir a conversa: pensando tanto em macro quanto em microevolu√ß√£o, processos de deriva gen√©tica, epigen√©tica, radia√ß√£o adaptativa e evolu√ß√£o molecular s√£o considerados parte da sele√ß√£o natural?

Com a certeza de j√° ter colocado conte√ļdo demais para uma discuss√£o, termino por aqui. Conto com a participa√ß√£o de voc√™s e, mais importante: divirtam-se!

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Quer acessar artigos científicos sem assinatura ou melhorar sua leitura no computador? O NCBI pode ajudar!

O National Center for Biotechnology Information (Centro Nacional para “Biotecnologia da Informa√ß√£o”), ou NCBI, tem duas ferramentas excelentes para ajudar quem gosta de ler artigos cient√≠ficos e tamb√©m para quem n√£o aguenta mais ler esses arquivos em PDF no computador.

A primeira recomenda√ß√£o √© para quem n√£o tem acesso √†s assinaturas car√≠ssimas de peri√≥dicos cient√≠ficos. Chama-se PubMed Central http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/ e √© um bra√ßo da base dados PubMed que possui conte√ļdo 100% aberto, independentemente de qualquer tipo de assinatura, cadastro, afilia√ß√£o etc.

PubmedCentral

√Č s√≥ acessar o link e fazer uma busca pelo assunto de interesse. Encontrou os artigos? Pode baixar quantos quiser!

A outra ferramenta do NCBI que quero indicar é uma novidade que me agradou muito: o PubReader http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/about/pubreader/ foi desenvolvido para oferecer uma leitura otimizada dos artigos disponíveis na PubMed Central. Direto do browser, sem PDF.

Cliquem na imagem abaixo para uma explicação rápida de como ele funciona e no link de exemplo para ver como um artigo é apresentado no PubReader:

PubReader

Exemplo: Correlation analysis of the side-chains conformational distribution in bound and unbound proteins (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3479416/?report=reader).

Pessoalmente, adorei a nova apresentação e torço muito para que essa ferramente seja replicada para outras bases! Aposto que vai ser especialmente bom para leitura em tablets e smartphones.

E vocês, o que vocês acharam do novo visual?

 

P.S. 1: Tenho que mencionar que o Brasil também possui uma opção muito boa de acesso livre a periódicos chamada Portal Periódicos CAPES http://www.periodicos.capes.gov.br/, mas vou escrever um texto específico sobre ele que vale à pena.

P.S. 2: Sim, estou vivo e a maior novidade de todas é que estou morando nos EUA desde Setembro. Vim para cá pelo programa Ciência Sem Fronteiras fazer um ano de doutorado-sanduíche no MIT, em Cambridge. More on that later =)

Qualidades de pós-graduandos bem sucedidos.

*** Esse texto √© uma tradu√ß√£o autorizada de¬†“3 qualities of successful Ph.D students: Perseverance, tenacity and cogency”,¬†escrito pelo Prof. Matt Might da University of Utah ***

Todo outono uma nova safra de doutorandos chega √† universidade. Desde que tenho procurado por esses estudantes, ou√ßo a mesma pergunta uma d√ļzia de vezes todo ano: ‚ÄúQuanto tempo demora para se conseguir um Ph.D?‚ÄĚ.

Essa não é a pergunta correta.

‚ÄúUm doutorado pode levar tanto tempo quanto voc√™ quiser‚ÄĚ, respondo a eles. N√£o existe um limite para qu√£o r√°pido voc√™ consegue satisfazer todos os crit√©rios da institui√ß√£o. Uma quest√£o melhor para se fazer √©¬†‚ÄúO que faz um doutorando ser bem sucedido nesse processo?‚ÄĚ.

Tendo acompanhado esses alunos em trajetórias de sucesso e fracasso em quatro universidades, percebi que o sucesso nessa pós-graduação está ancorado em três qualidades: perseverança, tenacidade e poder de convencimento.

Se você está fazendo doutorado ou pensando em começar um, leia.

O QUE NÃO IMPORTA
Existe uma concepção errada de que um Ph.D precisa ser esperto. Isso não pode ser verdade.

Uma pessoa esperta saberia que fazer doutorado não é lá uma ideia muito inteligente.

Qualidades de algu√©m ‚Äúesperto‚ÄĚ como brilhantismo e racioc√≠nio r√°pido s√£o irrelevantes numa p√≥s-gradua√ß√£o. Estudantes que chegaram at√© esse ponto confiando apenas em seu brilhantismo e capacidade de racioc√≠nio abandonam os programas de p√≥s com uma previsibilidade irritante. N√£o duvide: ser brilhante e raciocinar rapidamente s√£o caracter√≠sticas valiosas em outras empreitadas. Mas nenhuma √© suficiente ou necess√°ria na ci√™ncia.

√Č claro que ser esperto ajuda. Mas n√£o dar√° conta do trabalho.

Ainda, como qualquer pós-graduando pode lhe dizer: muitos idiotas conseguem cruzar a linha de chegada e se vão, diploma de doutor em mãos.

Como meu orientador costumava me dizer, ‚ÄúSempre que me sentia deprimido na p√≥s ‚Äď quando me preocupava em n√£o conseguir finalizar meu doutorado ‚Äď eu olhava para pessoas mais burras que eu terminando os seus, e pensava ‚Äėse aquele idiota consegue um doutorado, droga, eu tamb√©m posso‚Äė‚Äú.
(Desde que me tornei professor tenho me percebido repetindo esse pensamento, s√≥ que eu troco o ‚Äėconseguir um doutorado‚Äô por ‚Äėganhar aquele financiamento‚Äô.)

PERSEVERANÇA
Para escapar da universidade com um doutorado você precisa estender de modo significativo a fronteira do conhecimento humano. Mais precisamente, você precisa convencer um grupo de experts que guardam essa fronteira de que o fez.

Você pode cursar disciplinas e ler artigos científicos para descobrir onde está essa fronteira.

Essa é a parte fácil.

Mas quando chega o momento de realizar essa expansão, você precisa entrar em sua fortaleza e se preparar para a carnificina de derrotas.

Muitos doutorandos desanimam quando chegam a essa fronteira porque n√£o h√° mais um teste para realizar ou um procedimento a ser seguido. √Č nesse momento (entre 2 e 3 anos de doutorado) que os atritos chegam ao ponto m√°ximo.

Encontrar um problema a ser resolvido raramente é difícil. Todos os campos de pesquisa são ricos em problemas abertos. Se encontrar esse problema for complicado, você está no campo errado. A parte difícil de verdade, claro, é resolvê-lo. Afinal, se alguém pudesse lhe dizer como fazê-lo não seria uma questão aberta.

Para sobreviver a esse período você precisa estar disposto a falhar do momento em que acorda até a hora de dormir. Você precisa estar disposto a falhar por dias, meses, talvez anos a fio. A habilidade que você adquire durante esse trauma é estimar a probabilidade de uma nova abordagem funcionar.

Se voc√™ perseverar at√© o final dessa fase, sua mente intuir√° solu√ß√Ķes para problemas de maneiras que n√£o era capaz no passado. Voc√™ n√£o saber√° como ela faz isso (eu n√£o sei como a minha faz). Ela apenas far√°.

Enquanto adquire essa habilidade, você estará lançando artigos para revisão por pares para descobrir se os outros acham que o que você está fazendo se qualifica como pesquisa. Como a taxa de aceitação em bons periódicos varia entre 8% e 25% a maioria dos seus artigos será rejeitada. Você só pode esperar que, eventualmente, descobrirá como publicá-lo. Se você se dedicar e trabalhar duro o suficiente, conseguirá.

Para estudantes que se destacaram na graduação, a repentina e constante barragem de rejeição e falha é irritante. Se você tem um problema de ego, essa pós-graduação irá resolvê-lo. De modo vingativo. (Alguns egos parecem se recuperar após um tempo.)

Essa fase do doutorado exige perseveran√ßa ‚Äď face a incerteza, a rejei√ß√£o e a frustra√ß√£o.

TENACIDADE
Para aspirar a uma posição como professor titular após conseguir seu doutorado, você precisa de uma qualidade adicional: tenacidade. Como existem poucos desses cargos disponíveis, há uma competição feroz (porém civilizada) para consegui-los.

Na ci√™ncia da computa√ß√£o, um candidato competitivo ter√° aproximadamente 10 publica√ß√Ķes, sendo entre 3 e 5 em peri√≥dicos de primeira linha (√≠ndice de aceita√ß√£o de trabalhos inferior a 33%). Somente um t√≠tulo de doutor n√£o garante nem uma entrevista.

Existem algumas boas raz√Ķes para se conseguir um doutorado. ‚ÄúPorque voc√™ quer ser professor‚ÄĚ pode ser a √ļnica realmente boa. Ironicamente, existe uma boa chance de voc√™ n√£o perceber que tem essa vontade at√© o final da p√≥s. Ent√£o, se voc√™ vai para a p√≥s fa√ßa-a direito para o seu pr√≥prio bem.

Para se tornar professor voc√™ n√£o pode ter uma √ļnica descoberta ou ter resolvido um √ļnico problema. Voc√™ precisa resolver v√°rios e publicar cada solu√ß√£o. Ao terminar a p√≥s, um arco conectando seus resultados deve emergir, provando aos avaliadores que sua pesquisa possui um caminho produtivo para o futuro.

Você também precisa criar relacionamentos com os acadêmicos do seu campo de modo ativo, agressivo até. Eles precisam saber quem você é e o que está fazendo. Também precisam estar interessados no que você está fazendo.

PODER DE CONVENCIMENTO
Finalmente, um bom aluno de doutorado precisa ser capaz de articular suas ideias de modo claro ‚Äď pessoalmente e ao escrever.

A ciência é tanto um ato de persuasão como de descoberta.

Uma vez que tenha feito uma descoberta, voc√™ precisa persuadir os experts de que voc√™ fez uma contribui√ß√£o leg√≠tima e significativa. Isso √© mais dif√≠cil do que parece. Apenas mostrar ‚Äúos dados‚ÄĚ n√£o funcionar√°. (Sim, em um mundo perfeito isso seria o suficiente.)

Ao inv√©s disso, voc√™ precisa ‚Äúaliment√°-los de colherinha‚ÄĚ. Enquanto escreve, precisa conscientemente minimizar a quantidade de tempo e gasto cognitivo que eles precisar√£o para entender que voc√™ fez uma descoberta.

Voc√™ pode precisar ‚Äúsair em turn√™‚ÄĚ e dar palestras inspiradas para deixar seus pares animados com a sua pesquisa. Quando participar de confer√™ncias, voc√™ os quer esperando o pr√≥ximo epis√≥dio ansiosamente.

Voc√™ precisar√° escrever resumos atraentes e introdu√ß√Ķes que fisguem o leitor e fa√ßam ele sentir vontade de investir tempo na leitura do seu trabalho.

Você aprenderá a balancear clareza e precisão, para que suas ideias se componham sem ambiguidade ou formalidade em excesso.

Geralmente, os alunos de pós não chegam com boas habilidades comunicativas. Isso é uma capacidade que eles forjam na pós. Quanto mais cedo isso acontecer, melhor.

Infelizmente o √ļnico modo de melhorar a escrita √© faz√™-lo repetidamente. 10000 horas √© o n√ļmero m√°gico que dizem ser necess√°rio para se tornar um expert em algo. Voc√™ nunca chegar√° nem perto desse n√ļmero escrevendo somente seus artigos cient√≠ficos.

Assumindo a pouca pr√°tica em escrever para um p√ļblico antes de se chegar √† p√≥s-gradua√ß√£o, se voc√™ ficar na p√≥s seis anos at√© obter seu doutorado, √© poss√≠vel alcan√ßar essas 10000 horas escrevendo 5 horas por dia. (Pr√≥ximo do final de um doutorado n√£o √© incomum ultrapassar 12 horas de escrita di√°ria.)

√Č por esse motivo que eu recomendo que novos estudantes comecem um blog. Mesmo que ningu√©m o leia, fa√ßa isso. Voc√™ n√£o precisa nem escrever sobre o que pesquisa/estuda.

A prática do ato de escrever é tudo o que importa.

*** Esse texto √© uma tradu√ß√£o autorizada de¬†“3 qualities of successful Ph.D students: Perseverance, tenacity and cogency”,¬†escrito pelo Prof. Matt Might da University of Utah ***

Doutorado, explicado.

*** Esse texto √© uma tradu√ß√£o autorizada de¬†‚ÄúThe illustrated guide to a Ph.D‚ÄĚ, escrito pelo Prof. Matt Might da University of Utah ***

Toda primavera eu explico para um grupo de novos estudantes de doutorado o que um doutorado significa.

√Č algo dif√≠cil de se descrever com palavras. Por isso, uso figuras.¬†Veja abaixo o guia ilustrado para um doutorado.

Imagine um círculo que contém todo o conhecimento humano:

Ao terminar o ensino fundamental, você sabe um pouco:

No final do ensino médio, você sabe um pouco mais:

Com um diploma de bacharel você ganha uma especialidade:

Um mestrado aprofunda essa especialidade:

A leitura de artigos de pesquisa em periódicos acadêmicos o leva ao limite do conhecimento humano:

Quando você chega à fronteira, você foca:

Você força essa fronteira por alguns anos:

Até que, um dia, a fronteira cede:

E, a expans√£o que voc√™ criou √© chamada “t√≠tulo de doutor”, o Ph.D.

Claro, o mundo parece diferente para você agora:

Portanto, não se esqueça do cenário completo:

Continue forçando.

 

*** Esse texto √© uma tradu√ß√£o autorizada de¬†‚ÄúThe illustrated guide to a Ph.D‚ÄĚ, escrito pelo Prof. Matt Might da University of Utah ***

P.S: Já fiz outra tradução do Prof. Might, confira aqui http://www.ciensinando.com.br/2012/05/dicas-blogueiros/

Reality check.

Uma das habilidades mais desenvolvidas pelos alunos de pós-graduação Рincluindo este que vos escreve Рé reclamar.

Achamos a vida de p√≥s-graduando dif√≠cil, reclamamos dos hor√°rios muitas vezes malucos, da falta de reconhecimento, do pagamento injusto, da carreira concorrida na academia e da falta de desenvolvimento em P&D no Brasil para absorver os mestres e doutores formados. E apesar de muitas dessas reclama√ß√Ķes serem v√°lidas,¬†gostaria de deixar um aviso: hoje (09/05/2012) √†s 14h¬†Ana Am√°lia Tavares Bastos Barbosa defende sua tese de doutorado “Al√©m do corpo: uma experi√™ncia em arte/educa√ß√£o”.

“E da√≠?”, alguns podem perguntar. Come√ßo a resposta pela imagem abaixo:

Ana Am√°lia com seus alunos (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

Ana Amália sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e está paralisada faz 10 anos. Dependendo apenas de movimentos de seu queixo interpretados por computador, ela ensina arte para crianças com paralisia cerebral, pinta e, não satisfeita, desenvolveu um doutorado na Escola de Comunicação e Artes da USP.

Portanto, fa√ßa como eu farei de hoje em diante. Quando come√ßar a entrar na espiral “p√≥s-graduando desgra√ßado”, lembre-se dela, OK?

Fontes:

Mulher paralisada h√° dez anos por derrame defende tese de doutorado (Folha.com)

Escola de Comunicação e Artes (USP)

 

A valorização do pós-graduando importa?

*** Esse texto faz parte da blogagem coletiva ‚ÄúQual √© o valor do aluno de¬†p√≥s-gradua√ß√£o¬†stricto sensu?‚ÄĚ lan√ßada pelo site P√≥s-Graduando ***

Quando recebi o convite dessa ação, comecei me informando sobre seus objetivos e aproveitei para conhecer a opinião dos autores que já haviam contribuído. E não é que foi exatamente da leitura desses textos que nasceu o meu? Explico.

Constante nos textos foi uma frase que todo estudante de mestrado e doutorado, ap√≥s alguns momentos de quase surto, se acostuma a ouvir quase com indiferen√ßa: ‚Äúmas voc√™ s√≥ estuda?‚ÄĚ.

Essa indiferen√ßa pode ser adquirida de maneiras bem diferentes. Tem gente que desenvolve surdez seletiva, que aprende como um mestre a evitar essa discuss√£o… No meu caso, entendi que quase ningu√©m que faz essa pergunta tem ideia do que s√£o, como funcionam e quais s√£o os prop√≥sitos de um mestrado ou doutorado na √°rea de ci√™ncias.

S√≥ que isso vai ser assunto para outro texto e vou aproveitar a oportunidade para escrever n√£o sobre o p√≥s-graduando, mas sobre o Brasil. E para isso vou adicionar √† discuss√£o outro ser incompreendido desse pa√≠s: o professor. E ele tem que se acostumar √†s suas pr√≥prias frases cru√©is, como ‚Äúprofessor, voc√™ s√≥ d√° aula?‚ÄĚ e a campe√£ ‚Äúquem n√£o sabe fazer, ensina!‚ÄĚ.

[abre parênteses] Imagina quando eu estava ao mesmo tempo na pós e dando aula? [fecha parênteses]

Essas frases, para mim, refletem um √ļnico problema: educa√ß√£o. Mais precisamente a import√Ęncia (ou falta de) dada √† Educa√ß√£o, o que tem impacto direto na import√Ęncia dada √† Ci√™ncia, Tecnologia e Inova√ß√£o (CTI). E essas concep√ß√Ķes sobre p√≥s-graduandos e professores s√£o, em grande parte, subproduto da vis√£o do estado brasileiro sobre o tema.

Tenham certeza: a falta de seriedade com que professores e p√≥s-graduandos s√£o encarados em nosso pa√≠s resulta do descaso brasileiro ‚Äď governo e cidad√£o ‚Äď para com educa√ß√£o.

Não tá fácil prá ninguém... mas tem jeito.

Verdade seja dita, parte desse problema n√£o √© exclusividade nossa. Mesmo um pa√≠s superdesenvolvido cient√≠fica e tecnologicamente como os EUA t√™m problemas com a valoriza√ß√£o de professores, e os alunos de p√≥s s√£o muitas vezes considerados subempregados. Duvida? Acesse os quadrinhos de Jorge Cham no PHD Comics e veja o cotidiano acad√™mico retratado por l√°. O conte√ļdo das tirinhas √© humor√≠stico, mas baseado na pr√≥pria experi√™ncia acad√™mica do autor. Tamb√©m √© muito comum ele elaborar seus desenhos de sugest√Ķes de undergrads e grad students norte-americanos.

Assim, o que esperar de um pa√≠s que, verdade seja dita, ainda engatinha em dire√ß√£o ao time de ‚Äúprimeiro mundo‚ÄĚ da Educa√ß√£o e CTI?

Felizmente isso n√£o √© um problema mundial. Na Holanda, por exemplo, grande parte de quem se disp√Ķe a fazer um doutorado assina contrato de emprego e √© um trabalhador como outro qualquer. Mesmo nos EUA, que t√™m problemas parecidos com os nossos, quem se disp√Ķe a tocar um p√≥s-doutorado faz isso como empregado (ao contr√°rio do que acontece no Brasil, onde novamente o sustento √© proveniente de bolsas).

Por essas e outras continuo, como um zumbi, recitando o ‚Äúmantra da resolu√ß√£o dos problemas no Brasil‚ÄĚ: educa√ß√£o, educa√ß√£o, educa√ß√£o. Investir com seriedade, paci√™ncia e compet√™ncia em Educa√ß√£o Fundamental e M√©dia formar√° cidad√£os melhores e conscientes da necessidade de se investir em CTI.

Isso é um processo, não adianta investir um quadrilhão de dólares em CTI se a tal mão de obra qualificada for analfabeta funcional ou incapaz de pensar criticamente. Esse é o motivo de o investimento na formação de cidadãos ser mais importante do que gastar tubos de dinheiro com alta tecnologia. Como diz uma expressão em Inglês, quando entendermos isso e passarmos à ação, the rest follows.

E da√≠ n√£o ser√° necess√°rio realizar mobiliza√ß√Ķes sobre a import√Ęncia do p√≥s-graduando ou sobre o reajuste de bolsas… e sinceramente? Se voc√™ est√° passando por todo o estresse de um mestrado e/ou doutorado, da rotina (falta de rotina?) dif√≠cil, muitas vezes extenuante e comprometedora, e ainda fica chateadinho quando algu√©m tenta desqualificar sua escolha acad√™mica, siga o conselho abaixo:

"Fique tranquilo, trabalhe muito e pare de mimimi". Sério.

Quer ver o início desse movimento e ler os textos dos outros participantes? Acesse o link do Pós-Graduando em http://www.posgraduando.com/pos-graduacao/qual-e-o-valor-do-aluno-de-pos-graduacao-stricto-sensu.

Ajuda ao clube de Biologia Sintética da USP!

Uma √°rea de pesquisa que tem ganhado bastante aten√ß√£o √© a Biologia Sint√©tica, que combina diferentes disciplinas (Biologia Molecular, F√≠sica, Engenharia etc.) com o objetivo de “construir” organismos que possam servir como ferramentas tecnol√≥gicas.

iGEMDentro da √°rea de Biologia Sint√©tica existe um evento anual que tem grande import√Ęncia e repercuss√£o: o iGEM (International Genetically Engineered Machine), uma competi√ß√£o em que estudantes da √°rea apresentam seus projetos numa disputa que concentra algumas das maiores novidades da ci√™ncia atual.

Escrevo sobre esse assunto após receber um pedido de ajuda de alunos de graduação e pós-graduação do Clube de Biologia Sintética da USP que estão prontinhos para participar da iGEM, mas não conseguiram fundos para a viagem. Aproveitando a crescente interatividade das redes sociais, o grupo está tentando viabilizar sua participação na competição por uma ação bem comentada atualmente: o crowdfunding.

A ideia √© resolver o problema de financiamento para a viagem por meio de doa√ß√Ķes. Para isso eles criaram uma p√°gina no site RocketHub, onde voc√™ pode fazer a sua doa√ß√£o e contribuir com eles!

Infelizmente eu só recebi a mensagem hoje, faltando 3 (três) dias para o encerramento da campanha. A arrecadação até o momento atingiu 65% da meta de USD$2750,00 e toda ajuda é bem vinda.

Acessem a página, conheçam o projeto e vejam como contribuir em http://www.rockethub.com/projects/6131-brazil-s-igem-team-registration.

O Prof. Carlos Hotta, do blog Brontossauros em Meu Jardim, foi o respons√°vel por encaminhar o pedido e tamb√©m escreveu a respeito, confiram no link “Ajudem estudantes a ir a uma competi√ß√£o de Biologia Sint√©tica“!

Filosofia de laboratório.

Modelo tridimensional da estrutura do DNA.

Dia normal no laborat√≥rio. Vi que alguns alunos estavam preparando um gel para SDS-PAGE e perguntei se estava tudo OK. Responderam que “sim”, s√≥ estavam esperando o gel polimerizar por causa de uma receita que levava bem menos TEMED do que estamos habituados a fazer. Dito isso, comentei:

“Se voc√™s estiverem com pressa podem por um pouco mais. S√≥ tomem cuidado para o gel n√£o polimerizar antes de voc√™s o colocarem na forma. Outro dia mesmo fiquei pensando no sentido da vida ou sei l√° o que e quando percebi, o gel tinha polimerizado e precisei refazer tudo…”

Eu mal terminei de falar isso e a resposta veio na lata:

“Ah, na d√ļvida √© sempre 5¬ī -> 3¬ī !”

Isso que d√° ficar muito tempo num laborat√≥rio de biologia molecular…

 

PS: não entendeu? Que tal lembrar da estrutura do DNA e de sua replicação na figura abaixo?

Sentido das fitas de DNA (esquerda) e um modelo de sua forquilha de replicação (direita).

PPS: “o sentido da vida” j√° foi descoberto faz muito tempo!

Imagens:

Getty Images (royalty-free) / WikiCiências / Wikipedia

Sobre o falecimento de César Ades.

Ontem, 14 de Março de 2012, foi confirmada a morte de César Ades em decorrência de traumatismos ocasionados por um atropelamento sofrido na região da Avenida Paulista (São Paulo, SP) na semana anterior.

Esse texto √© destinado a criar um pouco mais de conte√ļdo a respeito dessa personalidade t√£o importante para a ci√™ncia brasileira, mas desconhecida do grande p√ļblico. Algo que, j√° comentei com os colegas do SBBr, considero uma das obriga√ß√Ķes dos divulgadores de ci√™ncia no Brasil.

Prof. César Ades (1943-2012)

César Ades era professor titular do Departamento de Psicologia Experimental da USP desde 1994 e foi um dos grande responsáveis pelo início e desenvolvimento dos estudos na área e comportamento animal no Brasil.

Participou da área acadêmica desde a metade da década de 1960, quando se formou psicólogo. Em sua longa e produtiva carreira, orientou e formou 34 mestres, 22 doutores. Além de ter publicado centenas de artigos científicos ou de divulgação científica e livros, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Etologia.

Como parte da homenagem, indico uma entrevista para a revista Scientiae Studia em 2011. Para acessá-la é só clicar no link da referência abaixo:

KINOUCHI, Renato Rodrigues  and  RAMOS, Maurício de Carvalho. Psicologia e biologia: entrevista com César Ades. Sci. stud. [online]. 2011, vol.9, n.1, pp. 189-203. ISSN 1678-3166.

Nela, o professor César conta um pouco de sua história científica e dos momentos que o fizeram se decidir sobre sua área de pesquisa e carreira acadêmica. Achei interessante reproduzir aqui o motivo de ter feito psicologia:

“A filosofia era obviamente uma das alternativas, mas, embora me seduzisse o seu aspecto de reflex√£o e de an√°lise essencial, parecia-me, na √©poca, abstrata demais, lidava com as coisas, por assim dizer, num segundo n√≠vel de intencionalidade, a partir do pensamento de outros pensadores ou da atividade cient√≠fica. Sentia-me mais atra√≠do pela observa√ß√£o e manipula√ß√£o diretas de fen√īmenos naturais. A biologia, de outro lado, parecia emp√≠rica demais e sem propostas a respeito de mecanismos mentais. Fui para o justo meio, a psicologia.”

Menciona tamb√©m o in√≠cio de seus estudos experimentais e sobre a publica√ß√£o de seu primeiro artigo, que teve como objeto de estudo o comportamento explorat√≥rio espont√Ęneo de ratos brancos. Tamb√©m lista, com a humildade que lhe era not√≥ria, algumas de suas principais refer√™ncias:

“S√£o tantas as influ√™ncias, serei muito incompleto.”

Sobre a √°rea mais “administrativa” da academia, √© interessante seu relato sobre os problemas e resist√™ncia dos colegas em sua luta para instalar uma comiss√£o de √©tica em pesquisa com seres humanos quando foi diretor do Instituto de Psicologia. Ele tamb√©m foi respons√°vel pela cria√ß√£o, no mesmo instituto, da Comiss√£o de √Čtica em Pesquisa com Animais (CEPA).

O final da conversa aborda a carreira de pesquisador, responsabilidades como cientista e sobre a satisfação proporcionada por uma vida dedicada à descoberta científica.

Resumindo, considero a entrevista uma aula para quem se interessa por ciência e pelas pessoas envolvidas nesse meio. César era um dos mestres que extrapolavam títulos e conquistas, sendo querido por todos que o conheciam.

Aproveitem para conhecer um pouco mais dessa grande personalidade da ciência brasileira e preencher um pouco do vácuo que existe sobre o nosso conhecimento de pesquisadores brasileiros importantes, mas exteriores à grande mídia.

Outras homenagens e links sobre o professor:

Currículo Lattes

César Ades na Wiki-PT (atualizada)

César Ades, psicólogo (In memorian)

Um memorial ao Cesar Ades (Ciência à Bessa)

 

Carnaval acadêmico 2012 e a Unidos da Pós-graduação!

Não resisti e fotografei o resultado de 5 pessoas Рcontanto este que vos fala, claro Рtrabalhando direto no laboratório durante o carnaval. As fotos foram tiradas no final da tarde da 4ª-feira de cinzas.

Bancada? Onde?
Alguém aí viu o NaCl? Não encontrei no armário!
Difícil deixar arrumado precisando correr vários SDS-PAGE em sequência...
Quando acabam as ponteiras começa o "momento zen": encher caixinhas!
"Ei, como é que tá a apuração das escolas de samba?" "Sei lá, meu, perdi minha calculadora, ajuda aqui!"

Esses são só alguns flashes que mostram o resultado final de ficar no laboratório tantos dias seguidos. Cansa, mas compensa pela rapidez em se conseguir resolver experimentos pendentes.

Claro que depois limpamos e arrumamos tudo, sen√£o a chefe mata a¬†gente. Ela √© compreensiva com a zona, mas tudo tem limite… De qualquer modo,¬†√© muito bom quando o laborat√≥rio entra no modo “produ√ß√£o agressiva como se n√£o houvesse amanh√£”.

Ah, e prá constar, o clima não esfriou depois que acabaram os feriados. Preparei esse post rapidinho no sábado enquanto esterilizava a sala de cultura de células.

Acho que vou trocar a placa de “Biologia Molecular” do meu laborat√≥rio por um p√īster de “Onde os fracos n√£o t√™m vez”. Combina.