Neoliberalismo, Indústria e o Governo de Ronald Reagan

Presidente dos EUA, Ronald Reagan, e Primeira Ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, 1988. Fonte: National Archives and Records Administration.

Por Victor Augusto Ferraz Young

O governo do presidente estadunidense Ronald Reagan (1981-1989) foi o mais icônico e influente dos governos do mundo na difusão das ideias neoliberais. Apesar de sua robusta retórica de não intervenção estatal, talvez as políticas que defendia para que todos os países a adotassem não fossem as ideais para os Estados Unidos. Durante a administração do presidente Reagan, foram concebidas políticas e agências que, por meio de atuação direta do Estado, incentivaram e fortaleceram diretamente indústrias em setores vinculados principalmente a alta tecnologia. Em agosto de 1985, Robert Reich, numa coluna do The New York Times, entitulada “U.S. Reagan’s hidden ‘industrial policy‘” (A ‘política industrial’ disfarçada de Ronald Reagan, tradução nossa), salientava que uma política industrial disfarçada já estava em curso desde o início daquela gestão. De acordo com o autor, o governo vinha, por um lado, desestimulando setores de indústria básica (aços, automóveis, têxteis, commodities químicos e outros produtos concebidos em larga escala) e incentivando, por outro, o desenvolvimento de ramos de tecnologia de ponta como informática, lasers, fibras óticas, novos materiais, produtos de biotecnologia e, acima de tudo, novas armas para uso militar. O objetivo seria o de substituir a antiga indústria de menor valor adicionado por uma mais rentável, inovadora e, portanto, mais competitiva. O governo federal forneceu diversos subsídios fiscais a estes setores, ampliou a aquisição de material militar e, além disso, realizou gastos diretos vinculados às esferas estaduais com metas de crescimento para tais indústrias (CRUZ, op. cit.: 34).

Dado o tamanho da indústria e do mercado americanos e sem considerar outros fatores que determinaram o dinamismo de cada ramo de negócios, o que pudemos observar em relação ao desenvolvimento manufatureiro no período Reagan, até início dos anos 1990, por meio da análise de alguns agregados industriais (Gráfico 1), é que entre os setores de alta tecnologia, o de ‘Computadores e produtos eletrônicos’, cresceu 97% entre 1980 e 1988, passando da oitava para a quarta posição entre os setores de maior faturamento anual. O ramo industrial químico (‘Produtos Químicos’), que inclui produtos farmacêuticos e para diagnóstico, novos materiais sintéticos, produtos de biotecnologia, entre outros de alta tecnologia, saiu da terceira para a segunda posição com uma elevação de 67% no faturamento. A produção mais diretamente vinculada ao gasto militar (‘Outros Equipamentos de Transporte’ como veículos, aeronaves e embarcações de guerra) apresentou, por sua vez, um crescimento de 51% de elevação, saindo da nona para a sétima posição.

Devemos observar aqui que a soma do produto (em valores da época) neste setor em específico contabilizou quase US$ 139 bilhões em 1988, enquanto o gasto observado nas despesas da União em ‘Defesa Nacional’ registrou aproximadamente US$ 379 bilhões. Deste último valor, 274 bilhões de dólares corresponderam somente às despesas de consumo, enquanto os outros US$ 105 bilhões se referiram ao investimento bruto do governo no setor (infraestrutura, equipamentos e propriedade intelectual de softwares e novos inventos).  Ou seja, o novo e elevado dispêndio militar não ficou concentrado tão  só  em material militar, mas também espalhou-se para outros setores produtivos da economia norte-americana (Gráfico 2). Talvez seja esta a razão para que setores como o de bens de consumo não duráveis pudessem manter sua expansão, como foi o caso do ramo de ‘Alimentos, bebidas e tabaco’, o maior em termos de valor anual. O setor de bens duráveis, mais especificamente a Indústria automobilística (‘veículos a motor, carroçarias, reboques e peças’), – depois de uma queda durante o período de recessão (1979-1982) – também se recuperou, retomando a posição entre os três primeiros em faturamento anual. Excetuando-se ramos como os de ‘Derivados de Petróleo e Carvão’ e de ‘Metais primários’, mais vinculados às oscilações de seus respectivos preços internacionais, todos os outros apresentaram crescimento, principalmente, a partir de 1986.

Verificamos, dessa forma, que o crescimento estadunidense durante o período de Ronald Reagan, não dependia tão só do empreendedorismo e do investimento privado de risco como prega o ideal neoliberal, mas contou com apoio do Estado como emprestador de dinheiro público e como consumidor do que seria produzido. Os efeitos dessa política, além de influirem diretamente sobre os setores beneficiados, levaram consigo outros que também cresceram no mesmo período. Se foi bom para eles, por que não seria bom para outros?

Gráfico 1

Gráfico 2

Referências bibliográficas

CRUZ, Sebastião C. Velasco e. ORDEM (E DESORDEM) ECONÔMICA INTERNACIONAL E NOVA ESTRATÉGIA COMERCIAL DOS ESTADOS UNIDOS. Cadernos Cedec nº 82 (Edição Especial Cedec/INCT-INEU), Agosto de 2009.

REICH, Robert. Reagan’s hidden ‘industrial policy’. Disponível em: https://www.nytimes.com/1985/08/04/business/reagan-s-hidden-industrial-policy.html. Acessado em: 01/11/2022.

1 Comentário

  1. Um dos melhores estadista que o mundo já conheceu juntamente com Margarete Thatcher e joão paulo II conseguiu livrar o mundo da desgraça do comunismo, É triste ver como o nível dos lideres mundiais despencou.

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