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Esqueça os banhos curtos

O √ļnico pecado do texto abaixo s√£o os exemplos americanos, que muitas vezes n√£o se encaixam na nossa realidade brasileira, mas de resto n√£o tem como n√£o concordar com que ele fala. Pode parecer radical demais em alguns pontos, at√© mesmo pessimista, mas √© a mais pura verdade, acreditar que s√≥ fazer a nossa parte √© o suficiente para revolucionar o mundo √© muito pouco.

Aqui no blog cito muito exemplos de empresas porque acho que são elas que tem que mudar independentemente da decisão de compra do consumidor, afinal, antes de mais nada antes de ser consumidor qualquer pessoa é um cidadão que quer ver as coisas certas sendo feitas no mundo em que vive. Claro que o governo pode e deve ajudar, mas como parece que eles não se preocupam muito com esse assunto (vide COP-15) a pressão tem que acontecer dos cidadão também.

Jogar toda a responsabilidade de salvar o mundo no colo das pessoas é muito fácil, mas a pergunta que não quer calar é: quem realmente quer mudar?

Segue o texto com tradução livre minha.

Esqueça os banhos curtos
Por que mudanças pessoais não são iguais a mudanças políticas.

 

banho

 

Por Derrick Jensen
Algu√©m em s√£ consci√™ncia acharia que um catador de lixo pararia Hitler, ou que compostagem acabaria com a escravid√£o ou traria a jornada de 8 horas de trabalho, ou que cortar lenha ou carregar √°gua tiraria as pessoas das pris√Ķes czaristas, ou que dan√ßando nuas em torno de um fogo teria ajudado a p√īr em pr√°tica o Ato de Direito ao Voto de 1957 ou o Ato de Direitos Civis de 1964? Ent√£o, por que agora, com todo o mundo em jogo, achamos que podemos salvar o mundo com solu√ß√Ķes pessoais?

Parte do problema √© que temos sido v√≠timas de uma campanha sistem√°tica de desorienta√ß√£o. A cultura do consumo e da mentalidade capitalista que nos ensinou a substituir os atos de consumo pessoal por resist√™ncia √† pol√≠tica organizada. O filme "Uma Verdade Inconveniente" ajudou a criar uma consci√™ncia sobre o aquecimento global. Mas voc√™ notou que todas as solu√ß√Ķes apresentadas s√£o relacionadas com consumo pessoal – trocando l√Ęmpadas, calibrando pneus, dirigindo menos – e n√£o tinha nada a ver com diminuir o poder das empresas, ou interromper o crescimento da economia que est√° destruindo o planeta? Mesmo que cada pessoa nos Estados Unidos fizesse tudo que o filme sugere, as emiss√Ķes de carbono nos EUA teriam uma redu√ß√£o de apenas 22%. O consenso cient√≠fico √© que as emiss√Ķes devem ser reduzidas, em todo o mundo, pelo menos em 75%.

Ou vamos falar da √°gua. N√≥s ouvimos tantas vezes que o mundo est√° ficando sem √°gua. Pessoas est√£o morrendo de falta de √°gua. Os rios est√£o acabando por falta de √°gua. Devido a isso, precisamos tomar banhos mais curtos. V√™ a desconex√£o? Por tomar banho sou respons√°vel por secar aqu√≠feros? Bem, na verdade n√£o. Mais de 90% da √°gua usada pelos seres humanos √© utilizada pela agricultura e ind√ļstria. Os restantes 10% s√£o divididos entre os munic√≠pios e a vida dos seres humanos individuais. Coletivamente, os campos de golfe usam tanta √°gua quanto os munic√≠pios. Pessoas (tanto as pessoas humanas e os peixes) n√£o est√£o morrendo porque o mundo est√° ficando sem √°gua. Eles est√£o morrendo porque a √°gua √© que est√° sendo roubada.

Ou vamos falar de energia. Kirkpatrick Sale resumiu bem: "Nos √ļltimos 15 anos a hist√≥ria foi a mesma a cada ano: o consumo individual residencial, carro particular, e assim por diante, nada mais √© do que cerca de um quarto de todo o consumo, a grande maioria √© comercial, industrial, empresarial, agroneg√≥cio e governo [ele esqueceu militares]. Por isso, mesmo se todos n√≥s and√°ssemos de bicicleta e tiv√©ssemos fog√Ķes √† lenha o impacto seria pouco significativo sobre o consumo de energia, aquecimento global e polui√ß√£o atmosf√©rica."

Ou vamos falar de resíduos. Em 2005, a produção de resíduos per capita municipal (basicamente tudo o que é posto para fora na calçada), nos EUA, foi de cerca de 753 kg. Vamos dizer que você é um ativista radical de vida simples e reduz seu resíduo a zero. Recicla tudo. Você usa sacolas de pano. Você conserta a torradeira. Seus dedos saem pra fora do seu tênis velho. Isso não é o suficiente, apesar de tudo. Uma vez que os resíduos urbanos não incluem apenas os resíduos residenciais, mas também resíduos de escritórios do governo e das empresas. Aí você marcha para os escritórios, panfleta redução de resíduos e convencê-os a reduzir seus resíduos o suficiente para eliminar a sua parte dela. Então, eu tenho uma má notícia. Os resíduos municipais são apenas 3% da produção total de resíduos nos Estados Unidos.

Eu quero ser claro. Não estou dizendo que não devemos viver de uma maneira mais simples. Eu vivo razoavelmente simples, mas eu não finjo que não comprar muito (ou não dirigir muito, ou não ter filhos) é um ato político poderoso, ou que é profundamente revolucionário. Não é. Mudança pessoal não é igual a uma mudança social.

Ent√£o como, com o mundo em jogo, viemos a aceitar estas respostas absolutamente insuficientes? Acho que parte disso √© que estamos em uma encruzilhada. Uma encruzilhada √© o lugar onde voc√™ tem v√°rias op√ß√Ķes, mas n√£o importa qual op√ß√£o voc√™ escolha, voc√™ perde e bater em retirada n√£o √© uma op√ß√£o. Neste ponto deve ser muito f√°cil reconhecer que cada a√ß√£o que envolve a economia industrial √© destrutiva (e n√£o devemos fingir que a energia solar fotovoltaica, por exemplo, nos isenta disso: eles ainda necessitam de minera√ß√£o e infra-estruturas de transporte em todos os pontos e processos de produ√ß√£o, o mesmo se pode dizer de todas as outras chamadas tecnologias verdes). Ent√£o, se n√≥s escolhermos a op√ß√£o um -  participar avidamente da economia industrial – acho que poderemos, no curto prazo, ganhar, porque podemos acumular riqueza, o marco de "sucesso" nesta cultura. Mas perderemos, porque ao faz√™-lo desistimos de nossa empatia, nossa humanidade. E n√≥s realmente perderemos, porque a civiliza√ß√£o industrial est√° matando o planeta, o que significa que todos perdem. Se n√≥s escolhermos a op√ß√£o "alternativa de vida mais simples", causando menos danos, mas ainda n√£o evitando a economia industrial de matar o planeta, podemos, a curto prazo ganharmos, porque n√≥s come√ßamos a nos sentir puros, e n√£o teremos que desistir de toda a nossa empatia (apenas o suficiente para justificar n√£o interromper os horrores), mas mais uma vez n√≥s realmente perderemos, porque a civiliza√ß√£o industrial ainda est√° matando o planeta, o que significa que todos perdem. A terceira op√ß√£o, atuando de forma decisiva para impedir a economia industrial, √© muito assustadora por uma s√©rie de raz√Ķes, incluindo, mas n√£o se restringindo ao fato de que perder√≠amos alguns luxos (como a eletricidade), ao qual estamos acostumados, e o fato de que quem est√° no poder pode tentar nos matar se impedirmos seriamente a sua capacidade de explorar o mundo – nenhuma das raz√Ķes altera o fato de que essa op√ß√£o √© melhor do que um planeta morto. Qualquer op√ß√£o √© uma op√ß√£o melhor do que um planeta morto.

Al√©m de ser ineficaz para causar os tipos de mudan√ßas necess√°rias para p√īr fim a esta cultura de morte no planeta, h√° pelo menos quatro outros problemas com a percep√ß√£o de &quot
;viver simplesmente"* como um ato pol√≠tico (ao contr√°rio de vida mais simples, porque isso √© o que voc√™ quer fazer). O primeiro √© baseado na no√ß√£o err√īnea de que os seres humanos inevitavelmente prejudicam seu ambiente. Vida mais simples como um ato pol√≠tico consiste unicamente na redu√ß√£o de danos, ignorando o fato de que os humanos podem ajudar a Terra, bem como prejudic√°-la. Podemos recuperar c√≥rregos, podemos nos livrar de invasores nocivos, podemos remover as barragens, interromper um sistema pol√≠tico inclinado na dire√ß√£o dos ricos, assim como o sistema econ√īmico, podemos destruir a economia industrial que est√° destruindo o mundo real, f√≠sico.

O segundo problema Рe esse é um bem grande Рé que ele incorretamente atribui a culpa ao indivíduo (e mais especialmente para o indivíduo, que são particularmente impotentes) em vez de culpar realmente aqueles que detêm o poder neste sistema. Kirkpatrick Sale mais uma vez diz: "Todo sentimento de culpa individualista o-que-posso-fazer-para-salvar-a-terra é um mito. Nós, como indivíduos, não estamos criando a crise e não podemos resolvê-la. "
O terceiro problema é que ele aceita a redefinição do capitalismo de cidadãos para consumidores. Ao aceitar essa redefinição, reduzimos nossas formas potenciais de resistência a consumir e não consumir. Os cidadãos têm uma gama muito maior de táticas de resistência disponíveis, incluindo o voto ou não votar, correndo para o escritório, panfletando, boicote, organização de lobby, protestando e quando um governo se torna destrutivo a vida, a liberdade e a busca da felicidade, têm o direito de alterá-lo ou aboli-lo.

O quarto problema √© que o desfecho da l√≥gica por tr√°s de uma vida simples como um ato pol√≠tico √© o suic√≠dio. Se cada ato dentro da economia industrial √© destrutivo, se quisermos parar com esta destrui√ß√£o e se estamos relutantes (ou incapazes) de questionar (muito menos destruir) as infra-estruturas intelectuais, morais, econ√īmicas e f√≠sicas que fazem com que todo ato na economia industrial seja destrutivo, ent√£o podemos facilmente passar a acreditar que vamos causar o m√≠nimo poss√≠vel de destrui√ß√£o se morrermos.

A boa not√≠cia √© que existem outras op√ß√Ķes. Podemos seguir os exemplos de militantes corajosos que viveram os tempos dif√≠ceis que eu mencionei, Alemanha Nazi, a R√ļssia czarista, que fizeram muito mais do que manifestar uma forma de pureza moral, que se opuseram ativamente contra as injusti√ßas que os cercavam. Podemos seguir o exemplo daqueles que lembraram que o papel de um ativista n√£o √© continuar no sistema de poder opressor mantendo a integridade tanto quanto poss√≠vel, mas sim confrontar e derrubar esses sistemas.

*viver simplesmente refere-se ao movimento Simple Living que é um estilo de vida caracterizado por consumir apenas o suficiente para se manter vivo.

Texto original em inglês: http://www.orionmagazine.org/index.php/articles/article/4801/

Imagem: http://www.flickr.com/photos/demenciano/280171857/

Brasil querendo ficar bem na fita, te convence?

Hoje quando abri o portal Globo.com apareceu um pop-up do Governo Brasileiro que levava para um site falando da participação do Brasil na COP-15.

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Numa das p√°ginas do site chamada Panorama que fala de matriz energ√©tica limpa eles afirmam (no texto) que 45,9% da produ√ß√£o de energia brasileira vem de fontes renov√°veis. Ai mostram 2 gr√°ficos, um mostrando a matriz energ√©tica brasileira separada em renov√°vel (46,4%, afinal qual o n√ļmero correto?) e n√£o renov√°vel (53,6%) e outro gr√°fico as fontes de gera√ß√£o de eletricidade. Mais de 75% √© de origem em hidrel√©tricas.

Ai o Brasil resolve falar em investimentos, √© essa parte que mais me irrita. ‚ÄúA estimativa do Minist√©rio de Minas e Energia para o per√≠odo 2008-2017 indica aportes p√ļblicos e privados da ordem de R$ 352 bilh√Ķes para a amplia√ß√£o do parque energ√©tico nacional.‚ÄĚ ‚ÄúPara a √°rea hidrel√©trica est√£o previstos cerca de R$ 83 bilh√Ķes.‚ÄĚ ‚ÄúOutros R$ 23 bilh√Ķes devem ser aplicados na expans√£o da produ√ß√£o e oferta de biocombust√≠veis como etanol e biodiesel.‚ÄĚ

√ďtimo, s√£o R$106 bilh√Ķes que ser√£o investidos hidrel√©tricas e biocombust√≠veis, ou seja, 30,12% do total dos investimentos. T√° e os outros R$ 246 bilh√Ķes? V√£o investir em que? Vento? Nuclear? G√°s Natural? Petr√≥leo e derivados? Vejam bem s√£o praticamente 70% de todo o dinheiro e eles n√£o falam onde v√£o investi-lo, por que ser√°? N√£o pega bem num site que fala de desenvolvimento sustent√°vel e matriz energ√©tica limpa dizer que 70% dos investimentos em matriz energ√©tica n√£o ter√£o nada a ver com fontes alternativas de energia. Espero realmente estar errada e que o texto foi feito as pressas e esqueceram de mencionar o quanto v√£o investir em outras fontes renov√°veis.

A ideia do site de mostrar o que o Brasil tem feito pelo seu ‚Äúdesenvolvimento sustent√°vel‚ÄĚ √© louv√°vel, mas n√£o precisava entrar na maquiagem verde, n√©? T√° querendo enganar quem, Brasil, ainda mais depois do pr√©-sal?