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Planet of the Humans

Eis que despretensiosamente fui assistir o √ļltimo document√°rio produzido pelo Michael Moore. Pra quem j√° viu algum dos filmes dele esse Planet of the Humans segue o mesmo estilo, por√©m o narrador n√£o √© ele. Mas o estilo √© MUITO igual.

Fui ver o filme meio as cegas sem saber do que se tratava e fiquei contente em saber que era sobre meio ambiente, energia verde, sustentabilidade e afins.

Como todo document√°rio, ele conta um ponto de vista, uma vis√£o de mundo, entrevista pessoas que interessam para a narrativa e muitas vezes n√£o aprofunda no assunto que pode de alguma forma contradizer a tese. 

O problema do filme √© voc√™ assisti-lo querendo ver o mundo de forma simplista. E √© isso que me incomoda nele, num mundo complexo cheio de problemas cru√©is a serem resolvidos n√£o √© polarizando a quest√£o ambiental e tratando de forma superficial que vamos chegar num lugar melhor do que estamos hoje. (O detalhe √© que essa abordagem hoje em dia parece que tem sido regra para qualquer conflito, seja na pol√≠tica, na economia, na sa√ļde).

Dois pontos que abusam da superficialidade e simplismo

1) carros el√©tricos. Em 2009 escrevi um post sobre o document√°rio Quem matou o carro el√©trico? E qual foi a minha principal quest√£o naquele post? Qual √© a origem da energia produzida para abastecer os carros el√©tricos? 11 anos depois essa pergunta j√° foi respondida e superada. O desempenho e o custo por km rodado do carro el√©trico √© muito melhor que o carro a combust√£o, ou seja, ele faz mais com menos. Ent√£o mesmo emitindo mais CO2 o carro el√©trico faz mais. Acho pregui√ßoso o argumento: ‚Äúah se a energia do carro el√©trico n√£o tiver origem sustent√°vel, ent√£o o carro el√©trico n√£o serve‚ÄĚ. Voc√™ acha inteligente o pensamento de que se toda a produ√ß√£o de comida no Brasil n√£o for org√Ęnica, ent√£o nem quero saber de produ√ß√£o org√Ęnica e ela nem deve ser incentivada?

Lembrando aqui que o carro el√©trico n√£o √© a bala de prata pra problemas de transporte no mundo e tem v√°rias problemas tamb√©m, mas como a vida j√° deve ter te ensinado, n√£o h√° solu√ß√£o √ļnica e perfeita no mundo.

2) combust√≠veis f√≥sseis s√£o a pior op√ß√£o sempre. Longe de mim querer defender os combust√≠veis f√≥sseis, eles s√£o um problema sim mas √© importante ter claro que o uso deles n√£o vai parar na terra da noite para o dia. √Č ingenuidade achar que isso √© poss√≠vel e a menos que voc√™ seja um ind√≠gena isolado na floresta amaz√īnica ou integrante de alguma tribo isolada africana √© imposs√≠vel n√£o depender de combust√≠vel f√≥ssil de alguma forma. E o fato de aceitar que ele √© parte da vida n√£o significa que voc√™ n√£o pode defender que outras formas de energia e mat√©ria-prima sejam usadas e desenvolvidas.

A falsa dicotomia

Ter conhecimento dos problemas da energia dita verde renovável, do consumo de carne, da produção da soja, das viagens de avião, dos bilionários no mundo, do plástico de origem vegetal, da reciclagem como solução para o problema de resíduos no mundo não me fazem uma pessoa que incentiva e apoia tudo isso. Nem me fizeram defensora da energia fóssil, vegana, deixei de separar meu lixo, vão me impedir de viajar de avião ou deixar de acreditar que uma outra solução além da reciclagem é possível. Felizmente o mundo não é feito só de sim ou não, certo e errado, preto ou branco.

Talvez o filme ajude os desavisados a simplesmente passarem a odiar as solu√ß√Ķes alternativas de energia, provavelmente ambientalistas e defensores da energia verde se sintam ofendidos e/ou tra√≠dos e talvez o filme seja usado pela ind√ļstria do petr√≥leo como endosso aos seus produtos. Tudo isso √© poss√≠vel e nem posso dizer que est√° errado. Talvez se o filme tentasse ao menos seguir no meio do caminho, n√£o s√≥ criticando as energias alternativas, mas mostrando que ela tem vantagens e outros aspectos da origem dos problemas ambientais, seria uma maneira de ampliarmos nossas conversas e ajudaria a diminuir a polariza√ß√£o.

√Č meio estranho o que vou dizer aqui, mas o ponto alto de Planet of the Humans para mim foi a frase da Rachel Carson nos cr√©ditos finais

Mais opini√Ķes sobre The Planet of Humans

Achei que esse texto reforça a ideia de dicotomia do filme (em inglês), provavelmente faz parte do grupo ambientalista que se sentiu traído/ofendido com a abordagem.

J√° esse outro texto (em portugu√™s) sugere que o filme deveria ter focado mais na base do problema: consumo, ideia de crescimento infinito poss√≠vel e modelos econ√īmicos alternativos. V√°lido, mas ai acho que seria um outro filme.

EXTRA: No site do filme planetofthehumans.com tem um guia de discussão para professores (em inglês). Gente, queria tanto que no meu tempo de escola tivesse tido esse tipo de discussão sobre os filmes que assisti… Um dos exercícios que mais me empolgaram foi: se esse filme fosse o primeiro de uma mini-série o que você gostaria que fossem os próximos episódios?

O que aprendi hoje

Hoje teve evento: “Implica√ß√Ķes e oportunidades para o meio empresarial diante da nova INDC brasileira”

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Ai alguns dos meus tweets durante o evento:

 

A coisa foi toda meio esquizofrênica, comecei ouvindo que somos uma potência ambiental e somos respeitados por isso no mundo todo. Mas pra isso ser verdade acho que a gente não deveria ter sujado a nossa matriz energética, né não? Ouvi lá que a Alemanha aproveita mais a energia solar do que nós e o melhor potencial de incidencia solar deles não chega nem perto do nosso pior índice de incidência solar. E mesmo assim somos considerados uma potência ambiental mundial? Mas o mundo vai mal mesmo, hein?

Mas os aprendizados do dia foram:

Para as empresas mudan√ßas clim√°ticas resumem-se a energia e pelo visto essa √© a √ļnica e maior contribui√ß√£o que eles podem fazer por que o evento S√ď falou disso. Pra voc√™ ter uma no√ß√£o de como o assunto do evento foi energia s√≥ o Ministro de Minas e Energia estava presente apesar da Ministra de Meio Ambiente e o Ministro da Fazenda tamb√©m terem sido convidados.

E para o governo mudanças climáticas não é um problema ambiental e sim de desenvolvimento. Isso explica muita coisa do que temos vistos diante dos nossos problemas ambientais, né não?

E Boa COP-21 para todos!

A casa

Fui conhecer uma casa com v√°rios conceitos sustent√°veis em sua constru√ß√£o. Na verdade acho que todos esses conceitos poderiam ser pensados para todas as casas hoje em dia. Coisas como aquecimento solar, reaproveitamento de √°gua de chuva, telhado verde, aproveitamento de energia solar, ventila√ß√£o cruzada e ilumina√ß√£o natural n√£o s√£o coisas imposs√≠veis de ser parte de uma rotina na hora de pensar uma nova constru√ß√£o, assim como banheiro, cozinha e a churrasqueira. Por que coisas como closets, ofur√īs e cozinha gourmet que at√© bem pouco tempo n√£o existia nas casas, hoje em dia √© super comum? Por que conceitos est√©ticos viram ‚Äúmoda‚ÄĚ e ecoefici√™ncia n√£o? Quando eu percebo esse tipo de coisa eu vejo que eu devo mesmo ser a minoria da minoria das pessoas preocupadas em ter um apoveitamento mais inteligente dos recursos naturais do planeta.

O pr√≥prio engenheiro e dono da casa diz que n√£o tem nada de dif√≠cil e muito novo no que ele fez, s√£o tecnologias perfeitamente acess√≠veis, basta querer implementar. Ah, mas √© caro por isso que as pessoas n√£o fazem. Bom, fazer um ofur√ī, uma piscina, um closet tamb√©m n√£o √© barato, ent√£o, como sempre, tudo √© uma quest√£o de escolha e prioridade.

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Fachada da casa

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Fundos da casa

Saiba mais sobre essa casa que fica aqui em São José dos Campos: http://goo.gl/iBAxxd e http://goo.gl/GjqHbJ.

Sim, essa √© uma casa num condom√≠nio de luxo e precisamos fazer esses conceitos de efici√™ncia nas moradias e nas constru√ß√Ķes chegarem tamb√©m em casas mais simples e populares, mas enquanto o pov√£o acreditar que copiar os ricos que √© legal e os ricos n√£o resolverem mudar o conceito, vai ficar dificil…

G√°s x √Āgua

Como ge√≥loga, tenho verdadeira admira√ß√£o pelo Aqu√≠fero Guarani. Essa esponja rochosa subterr√Ęnea garante n√£o apenas que v√°rias cidades sejam abastecidas da melhor √°gua do Brasil, como tamb√©m — e, talvez, principalmente — assegura a qualidade do chope fabricado em Ribeir√£o Preto e provavelmente a famosa cerveja Brahma de Agudos (mas os mestres cervejeiros dizem que isso n√£o √© verdade). Mas pelo menos os ge√≥logos meus amigos que frequentam o famoso bar Pinguim em busca daquela maravilha gelada, cremosa e bem tirada deveriam sempre fazer seu primeiro brinde ao arenito Botucatu, que estoca toda aquela √°gua para eles. Se bem que os hidroge√≥logos do interior de S√£o Paulo devem fazer isso j√° que esse aqu√≠fero garante o emprego da maioria deles!

As pessoas que vivem em boa parte do interior de S√£o Paulo, e outras no Centro-Sul do Brasil, talvez marchassem furiosas com tulipas quebradas na m√£o sobre a Ag√™ncia Nacional do Petr√≥leo se soubessem o que o futuro pr√≥ximo pode reservar √†s rochas do Aqu√≠fero Guarani. Sem muito debate p√ļblico e sem muita cobertura da imprensa, a ANP quer permitir a explora√ß√£o de g√°s natural em dep√≥sitos n√£o convencionais na bacia sedimentar do Paran√° no oeste do Estado hom√īnimo, que abriga parte do aqu√≠fero. A t√©cnica a ser usada √© o fraturamento hidr√°ulico, ou “fracking”. Isso pode significar contamina√ß√£o das √°guas do Guarani.

Uma audi√™ncia p√ļblica foi realizada sobre o tema na semana passada, j√° √†s portas da 12a Rodada de Licita√ß√Ķes, que acontece nos dias 28 e 29 deste m√™s e que conceder√° 240 blocos de g√°s em 12 Estados. A audi√™ncia discutiu uma minuta de resolu√ß√£o da ANP estabelecendo regras para o uso do fracking para salvaguardar os recursos h√≠dricos na explora√ß√£o desses reservat√≥rios n√£o convencionais. ONGs como o Instituto Socioambiental manifestaram sua oposi√ß√£o ao movimento, pedindo morat√≥ria ao fracking no Brasil.

Como tudo mais que envolve energia neste pa√≠s, a 12a Rodada acontece sem que as decis√Ķes importantes tenham sido amadurecidas ou debatidas com a sociedade pela energocracia estatal, e sem que ningu√©m al√©m de meia-d√ļzia de engenheiros do governo e o pessoal da ind√ļstria tenha muita informa√ß√£o sobre riscos e benef√≠cios. Como resultado, a discuss√£o vira um fla-flu no qual os ambientalistas s√£o acusados de ignor√Ęncia, luddismo ou sectarismo s√≥ por quererem um aprofundamento nas informa√ß√Ķes que √© incompat√≠vel com os calend√°rios de licenciamento fixados por esses mesmos engenheiros do governo. Os ambientalistas e o Minist√©rio P√ļblico, por sua vez, podem de fato exagerar na rea√ß√£o. Todos perdem.

Para entender o que está em jogo, é preciso entender primeiro what the frack são esses depósitos não convencionais. Vamos lá:

O g√°s natural (CH4) normalmente ocorre em bols√Ķes em carbonatos, um tipo de rocha sedimentar. Como o petr√≥leo, ele √© formado por coisas mortas cozidas durante milh√Ķes de anos em condi√ß√Ķes ideiais de press√£o e temperatura no fundo da terra. Ai, o g√°s migra para os carbonatos que s√£o rochas bastante porosas, at√© que algu√©m d√™ a sorte de fur√°-los. Algumas dessas rochas s√£o t√£o grandes e porosas que produzem g√°s por d√©cadas. √Č assim no Qatar, na R√ļssia, no Mar do Norte e na nossa vizinha Bol√≠via.

Acontece que existem outros tipos de rocha sedimentar nos quais a decomposi√ß√£o de coisas mortas produziu g√°s e petr√≥leo. Um deles √© o folhelho, que os anglo-sax√Ķes chamam de “shale” ou “mudstone”, exatamente pelo fato de ser formado por lama rica em mat√©ria org√Ęnica depositada continuamente em fundos de rios ou lagos. Desde o s√©culo 19 os ge√≥logos sabem que muitos folhelhos cont√™m hidrocarbonetos. Como o folhelho tamb√©m √© um dos tipos mais comuns de rocha sedimentar, v√°rios pa√≠ses do mundo est√£o montados em v√°rias Ar√°bias Sauditas em √≥leo e g√°s de folhelho (assim como a bacia sedimentar do Paran√°). Isso se algu√©m pelo menos conseguisse extra√≠-los: em vez de acumular-se em bols√Ķes gigantes, os preciosos hidrocarbonetos do folhelho, o “shale oil” e o “shale gas”, ficam presos em fendinhas min√ļsculas na rocha. Sempre foram, por isso, economicamente invi√°veis. Alguns deles at√© tem cheiro de √≥leo, folhelhos s√£o na verdade petr√≥leo que passou do ponto.

Em 1999, um persistente ge√≥logo americano chamado George Mitchell descobriu o segredo do folhelho e fez os dep√≥sitos dessa rocha falarem. Ele uniu duas t√©cnicas, o fraturamento hidr√°ulico de alto volume (o tal “fracking”) e a perfura√ß√£o de longos po√ßos horizontais, para arrancar o g√°s na porrada. A receita √© mais ou menos simples: primeiro, perfura-se o po√ßo vertical at√© atingir a camada de folhelho com g√°s. Depois, perfura-se horizontalmente, ao longo da rocha, t√ļneis que chegam a quil√īmetros de comprimento. A√≠ vem a m√°gica: injeta-se no po√ßo, a alt√≠ssima press√£o, uma mistura de 1 milh√£o de litros d’√°gua, areia e um coquetel de qu√≠micos surfactantes. Essa sopa quebra toda a rocha ao longo do po√ßo, permitindo que o g√°s aprisionado nas fendas vaze no sentido da menor press√£o – para dentro do po√ßo e para fora.

O “fracking” come√ßou a ser usado em larga escala nos folhelhos da forma√ß√£o Marcellus, no nordeste dos Estados Unidos, em 2004. A t√©cnica fez tanto sucesso que o pre√ßo do g√°s caiu nos EUA de US$ 14 o milh√£o de BTUs em 2005 para US$ 1,90 em 2011. A Pensilv√Ęnia tornou-se um dos maiores produtores de g√°s do planeta. Hoje os americanos preparam-se para exportar g√°s natural. E n√£o √© s√≥ isso: o fracking vem sendo aplicado com sucesso a folhelhos que cont√™m √≥leo tamb√©m. No ano passado, a Ag√™ncia Internacional de Energia afirmou que o shale oil transformar√° os EUA no maior produtor de petr√≥leo do mundo em 2035. De quebra, os EUA reduziram sua depend√™ncia de carv√£o e suas emiss√Ķes de CO2 ca√≠ram em 2011 pela primeira vez desde os anos 1990. O panorama energ√©tico global foi transformado pela teimosia de George Mitchell.

Mas √© claro que n√£o existe almo√ßo gr√°tis. A maior por√ß√£o do folhelho Marcellus fica no interior do Estado de Nova York, cont√≠guo √† Pensilv√Ęnia. Tamb√©m ali ficam as montanhas Catskills, que abrigam os mananciais que abastecem a cidade de Nova York. O governo de Nova York imp√īs, em nome da sua √°gua, uma morat√≥ria √† explora√ß√£o de shale gas no Estado.

Mas as coisas n√£o param por a√≠: no fim da d√©cada passada, um caso de contamina√ß√£o grave aconteceu no distrito de Dimock, na Pensilv√Ęnia, onde po√ßos artesianos explodiram, torneiras abertas pegaram fogo e alguns residentes perderam suas casas, j√° que sua √°gua ficou imprest√°vel. Isso porque, no meio do caminho entre o folhelho e a cabe√ßa dos po√ßos, havia um len√ßol fre√°tico. Um trabalho nas coxas de perfura√ß√£o fez com que o mix de qu√≠micos, √°gua e g√°s metano vazasse para dentro do aqu√≠fero. A hist√≥ria √© contada no belo livro Under the Surface, do jornalista americano Tom Wilber, e no document√°rio Gasland.

Um conhecido esteve em Dimock no ano passado e conversou com alguns moradores. A maioria não foi afetada pelo vazamento, ganha royalties pelos poços em sua propriedade e o impacto visual é francamente pequeno. O pessoal está bastante satisfeito. Claro, há vários estudos mostrando que o impacto do shale gas sobre o clima no curto prazo pode ser mais grave que o do carvão, mas hoje em dia ninguém está nem aí para esses detalhes, certo? O que o Brasil está esperando, então? Provavelmente foi esse o raciocínio da ANP.

A figura abaixo mostra qual é o problema. Ela é meio arcana, mas acho que dá para entender: trata-se de uma estratigrafia da bacia sedimentar do Paraná.

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H√° quase 300 milh√Ķes de anos, grande parte da regi√£o que hoje vai da Argentina e Uruguai ao Mato Grosso e Goi√°s estava tomada por mares rasos cheios de lama. O fundo desses mares viraram o folhelho Irati, a camadinha fininha de rocha que voc√™ v√™ na segunda coluna de “litoestratigrafia”. Segundo Alexandre Szklo, da Coppe-URFJ, os folhelhos da bacia do Paran√° podem conter 60 vezes mais g√°s do que todas as reservas brasileiras conhecidas hoje. Ali√°s, meus primeiros reconhecimentos geol√≥gicos aconteceram nessa forma√ß√£o, a primeira vez que eu vi um folhelho na vida foi o Irati!

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Formação Irati. As partes escuras são o famoso folhelho. Foto: Alexandre Perinotto.

No Jur√°ssico, h√° 160 milh√Ķes de anos, toda aquela regi√£o virou um grande deserto. Isso explica por que n√£o temos quase nenhum f√≥ssil de dinossauro daquela √©poca no Brasil. E explica tamb√©m o aqu√≠fero Guarani, formado pelas rochas porosas do arenito Botucatu, remanescentes daquele deserto. Na maioria dos locais, para chegar aos 70 metros do Irati √© preciso furar atrav√©s dos 450 metros do Botucatu. √Č f√°cil imaginar problemas no caminho.

Um amigo ge√≥logo especialista na bacia do Paran√° me diz que n√£o h√° problemas ambientais, necessariamente. Ele lembra, por exemplo, que a Petrobras explora h√° anos no sul do Paran√° o petr√≥leo do folhelho Irati, o tal “oil shale” (n√£o confundir com “shale oil”), no qual a rocha √© mo√≠da e cozida at√© separar o hidrocarboneto. Naquela regi√£o, por√©m, o folhelho est√° mais pr√≥ximo da superf√≠cie e o que acontece l√° nada tem a ver com o fracking e sim uma minera√ß√£o desses folhelhos. √Č assim nos blocos concedidos no oeste paranaense? Provavelmente n√£o.

√Č um caso complexo de decis√£o, que faz invocar o princ√≠pio da precau√ß√£o, sempre desprezado pela ind√ļstria e algumas vezes abusado pelo ambientalismo e pelos minist√©rios p√ļblicos da vida. A probabilidade de dano pode ser m√≠nima, mas o impacto seria t√£o grave que √© caso de parar para discutir. Para o Brasil, o pior cen√°rio seria ter Dimock em propor√ß√Ķes continentais sem gozar da bonan√ßa econ√īmica do g√°s. No Brasil, o pior cen√°rio √© o que costuma acontecer. N√£o acho que o pa√≠s possa ou deva dizer n√£o ao fracking, mas um pouco mais de estudos, precau√ß√£o e canja de galinha n√£o faz mal a ningu√©m. E de verdade, entre g√°s e √°gua eu sempre vou ficar com a √°gua por uma quest√£o de sobreviv√™ncia. Pra mim n√£o faz sentido vender g√°s para comprar √°gua limpa importada.

Amaz√īnia P√ļblica ‚Äď Tapaj√≥s

Acabei de ler um livro chamado Como mudar o mundo, e vou precisar muito da ajuda dele para n√£o me sentir a pessoa mais impotente do universo depois de ler a √ļltima s√©rie de reportagens da Ag√™ncia P√ļblica sobre a Amaz√īnia.

A √ļnica regi√£o da Amaz√īnia que eu conheci √© o oeste do Par√°, √†s margens do Rio Tapaj√≥s, numa visita patrocinada pela Vivo e a Ericsson para acompanhar a inaugura√ß√£o da primeira torre de dados da regi√£o. E pensar que toda a beleza daquele local pode estar comprometida me deixa bem triste. Nada mais, nada menos que um complexo hidrel√©trico com 7 represas est√£o programadas para o local, esse √© um dos aspectos levantados nessa terceira semana de reportagens, essa semana sobre o Rio Tapaj√≥s.

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Rio Tapajós. Foto: Fernanda Ligabue.

Tudo que essas reportagens contaram s√≥ mostra o jeito capitalista de desenvolvimento, o jeito capitalista de crescer e o jeito capitalista de ser dos governos. √Č errado? Bom, n√£o tenho achado que seja o melhor caminho, mas parece que √© o melhor que a humanidade tem conseguido. E como faz para mudar isso? Como faz para fazer realmente diferente em que todos saiam perdendo o menos poss√≠vel? E r√°pido por que n√£o adianta nada pensar que poderia ter sido diferente depois do estrago feito.

Eu sei que lendo essas reportagens me senti muito impotente‚Ķ Chega a ser desanimador, o que ser√° que se pode fazer e n√£o deixar a Amaz√īnia virar um canteiro de obras?

Amaz√īnia P√ļblica – Rio Madeira

Semana passada a Ag√™ncia de Reportagem e Jornalismo Investigativo iniciou uma s√©rie sobre a Amaz√īnia, Caraj√°s e a explora√ß√£o do ferro foi o primeiro tema. Essa semana o tema s√£o as usinas hidrel√©trica que est√£o em constru√ß√£o ao longo do rio Madeira, Jirau e Santo Ant√īnio.

Ano passado conheci um colega geólogo que esteve a trabalho nas 2 obras e as histórias contadas por ele eram verdadeiros shows de horrores, praticamente tudo que as reportagens dessa semana contam de alguma forma esse meu colega também citou. E assim como em Carajás o problema social causado é, na minha opinião, o pior e o mais difícil de resolver.

2012 / Marcelo Min / Fotogarrafa / UHE JIrau
Usina hidrelétrica de Jirau. Foto Marcelo Min.

Segundo esse meu colega n√£o eram todas as empresas que tratavam mal seus funcion√°rios ou n√£o davam condi√ß√Ķes adequadas de trabalho, algumas empreiteiras da obra tinham lista de espera de funcion√°rios pois nelas as pessoas sabiam que seria bem tratadas. Mas provavelmente essas empresas devem ser excess√Ķes.

Só eu fico assustada quando ouço ou leio as histórias dessas obras? E não falo apenas dos maus tratos dos trabalhadores, da destruição de vilarejos e vidas de pessoas, mas será que as se tem ideia do impacto que é uma espécie de peixe sumir de um ecossistema? Como podemos deixar isso acontecer em pleno 2012? Bom, se o mundo acabar tá tudo resolvido, mas e se não acabar?

As perguntas que ficam (afinal, eu nunca tenho respostas só mais perguntas) hidrelétricas geram mesmo energia limpa? A gente ignora todo o impacto causado na construção e tudo bem? Ok, ok, precisamos de energia, mas será que não dá pra fazer de um jeito melhor? Quero acreditar que essas obras também teve gente da região impactada positivamente e não apenas financeiramente…

Ah, Belo Monte…

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Eu não quero discutir Belo Monte, aliás já disse uma vez o que eu realmente defendo em relação a essa obra, principalmente depois de ler essa entrevista. Pra mim Belo Monte nada mais é do que o bode na sala, fica todo mundo falando disso e esquece de discutir o que realmente é importante para o futuro, o país, as pessoas. Brigar contra ou a favor de Belo Monte é apagar incêndio, é pensar em curto prazo, bem típico de brasileiro que não faz planejamento direito. E isso eu deixo para os ecochatos, os políticos que querem viabilizar essa obra e quem mais quiser, eu me abstenho, vou ficar em cima do muro mesmo, pois eu acho que pra essa questão nunca vamos encontrar o certo ou o errado, sempre vão existir ótimos argumentos para fazer e não fazer essa obra.

O que eu quero debater é: qual o nosso modelo de desenvolvimento? O dia que tivermos isso claro e de forma consensual a discussão de Belo Monte não existirá. Simplesmente por que se decidirmos que o nosso modelo é de explorar todos e quaisquer recurso até o fim sem pensar se haverá amanhã fazer essa obra é tudo de coerente, mas se o nosso modelo é de preservação, eficiência e tecnologia provavelmente Belo Monte não é parte dessa discussão. Simples assim. Ok, discutir esse modelo e chegar a esse consenso pode não ser tão simples, mas pra mim é a discussão que realmente interessa, o resto é só confirmação de que ainda não estamos maduros o suficiente pra sabermos de fato o que queremos como nação.

Belo Monte mais uma vez

Depois de alguns coment√°rios no post Belo Monte, um ponto de vista, tive a impress√£o que talvez a capacidade de me expressar pela escrita estivesse falhando absurdamente. Mas achar isso foi um exagero meu, afinal eu n√£o escrevo t√£o mal assim, ent√£o resolvi escrever outro post a respeito e tentar ser mais clara agora, pra quem sabe n√£o restar d√ļvidas sobre meu ponto de vista em rela√ß√£o √† obra.

Outro dia zapeando pela TV vi o final do programa que est√° aqui em cima¬†(infelizmente os conte√ļdos das globo tem tempo de vida na internet)¬†e hoje buscando mais informa√ß√Ķes sobre Belo Monte pude assist√≠-lo e compartilh√°-lo. Achei sensacional colocarem 2 pessoas para debater sobre o assunto, uma a favor e outra contra. Conhe√ßo o Roberto Smeraldi pessoalmente, inclusive sigo-o no twitter.

Hoje na Folha de S. Paulo, coincidentemente ou n√£o, saiu na se√ß√£o debate um ponto de vista a favor e outro contra sobre a usina (infelizmente exclusivo para assinantes). Mudou apenas a pessoa a contra , dessa vez o Marcelo Furtado, do Greenpeace. Seria Luiz Pinguelli Rosa o maior e √ļnico defensor da Usina?

De verdade, em ambos debates achei que o Luiz se saiu melhor, tanto no discurso do Roberto Smeraldi como no do Marcelo Furtado encontrei falhas em seus argumentos, achei suas argumenta√ß√Ķes fracas e insuficientes para me convencer que fazer aquela hidrel√©trica √© pior coisa que pode acontecer. Mas nem por isso acho que a usina tem que ser feita, s√≥ constatei que os argumentos de quem a defende s√£o melhores e mais consistentes.

Quais argumentos do Roberto Smeraldi e do Marcelo Furtado s√£o fracos? Estamos falando de uma mega obra de engenharia que por si s√≥ gera um impacto enorme independente de onde for feita, falar que o local n√£o est√° preparado para receber uma obra dessas √© chover no molhado, existe algum lugar no mundo que estaria? Ela causaria impactos de todos tipos onde quer que fosse instalada, imagine fazer uma obra desse porte no Estado de S√£o Paulo (lugar mais impactado e desmatado do Brasil, achismo meu), ela causaria tantos impactos, diferentes dos que ser√£o causados na Amaz√īnia, mas causariam tamb√©m. Marcelo cita um estudo do Greenpeace chamado de (R )evolu√ß√£o energ√©tica, ainda n√£o li, mas¬† a maneira como ele fala parece que para termos energia e√≥lica e solar √© a m√°gica que ningu√©m descobriu ainda, s√≥ Greenpeace! Por favor, energia causa impacto n√£o importa de onde venha, ou voc√™ acha que os pain√©is solares s√£o feitos de que? E as h√©lices das usinas e√≥licas? E que fazendas de capta√ß√£o de energia e√≥lica n√£o causa impacto nenhum? N√£o existe m√°gica nem mundo perfeito e duvido que as energias alternativas sejam t√£o cor-de-rosa assim.

Roberto Smeraldi também cita argumentos dos quais eu concordo como a inacessibilidade à energia gerada por essas grandes hidrelétricas para as pessoas da região norte, a falta de subsídio de igual tamanho para energia eólica ou a falta de efeciência na geração, tramissão e consumo da energia. Mas esses argumentos não são especificamente relacionados à Belo Monte, são argumentos para serem usados para criticar a política energética do país, entao ao meu ver não cabem necessariamente nessa discussão.

A grande maioria das pessoas que entraram no post anterior para defender o fim de Belo Monte apontam fatores sociais para a n√£o constru√ß√£o da Usina. Ok, entendo que √© um dos fatores mais delicados da obra e de verdade a √ļnica solu√ß√£o que eu vejo pra esse caso ao inv√©s de se sair bradando contra a usina (ou talvez essa seja uma boa alternativa, depende do ponto de vista), eu defendo que a Amaz√īnia como um todo tem de ser defendida, defendida com um desenvolvimento tecnol√≥gico e cient√≠fico agressivo para toda a floresta, s√≥ assim todos envolvidos poder√£o se defender de projetos impactantes como esse de forma coerente e inteligente, n√£o como j√° foi feito 2 vezes pelos √≠ndios com agress√Ķes e amea√ßas f√≠sicas. De verdade, antes de ser contra ou a favor de Belo Monte eu defendo tecnologia, ci√™ncia e educa√ß√£o da mais alta qualidade para todaa as pessoas da regi√£o norte do pa√≠s, sem isso tudo me parece atrasado e incoerente.

Belo Monte, um ponto de vista

USINA DE BELO MONTE NO XINGU Rio Xingu

Sobre a obra de Belo Monte, de verdade, a √ļnica certeza que eu tenho √© que temos d√ļvidas demais. Pelo menos tudo que tenho lido a respeito me leva a crer nisso. Mas com todo o bafaf√° da licen√ßa que foi liberada para a constru√ß√£o do canteiro de obras resolvi dar uma olhada em alguns dados.

Essa licen√ßa parcial pol√™mica que saiu autoriza a supress√£o de 238 hectares de vegeta√ß√£o, entre outras a√ß√Ķes. E ser√° que isso √© muito? Talvez a quest√£o nem seja discutir isso, mas vou me ater a esse dado. 238 hectares equivale a 2,38 km2, isso √© uma √°rea de aproximadamente 1,5km x 1,5km.

Considerando que s√≥ nos meses de novembro e dezembro de 2010 foram desmatadas na Amaz√īnia 135 mil km2 (13,500ha), desmatar 238ha para uma obra do tamanho que √© Belo Monte √© quase rid√≠culo.

Ok, ok, essa √© s√≥ a licen√ßa de instala√ß√£o e a √°rea total da obra s√£o 51,600 ha, ou seja, mais desmatamento por conta da obra vem por ai. Mas vamos combinar que pra quem j√° desmatou em um √ļnico mes, s√≥ na Amaz√īnia, 48,500ha, desmatar por conta de uma obra um pouco mais que isso em aproximadamente 4 anos n√£o me parece t√£o absurdo assim. A gente desmata, queima e destr√≥i provavelmente ilegamente um n√ļmero absurdo de floresta e agora para construir uma hidrel√©trica fica todo mundo fazendo drama? Energia tem que vir de algum lugar e infelizmente tem seus custos e algu√©m tem que pagar.

Calma! Antes que comecem a me apedrejar aqui √© o seguinte, eu nao to dizendo que a obra de Belo Monte t√° tudo certo e vamos que vamos construir mais uma hidrel√©trica, n√£o √© isso! O que eu to querendo demonstrar aqui √© que a gente destr√≥i de floresta sem construir nada em troca e muitas vezes ilegalmente muito mais floresta do que v√£o desmatar com  Belo Monte, percebe a l√≥gica? Belo Monte tem v√°rios outros problemas al√©m do desmatamento? Sim, com toda a certeaza, s√≥ pra come√ßar uma licen√ßa parcial que inexiste na legisla√ß√£o ambiental brasileira para caso de hidrel√©tricas, mas tamb√©m n√£o podemos esquecer de outros argumentos para esse discuss√£o, todo mundo quer falar de crescimento, desenvolvimento, mas tudo isso tem um custo e algu√©m tem que pagar por ele. Tor√ßo e espero de verdade que os t√©cnicos do IBAMA e do Minist√©rio do Meio Ambiente estejam fazendo o melhor para que essa obra n√£o se torne um arrependimento ambiental no futuro. Eu s√≥ tenho percebido que o debate tem ficado somente de um lado e n√£o podemos esquecer que tudo pode ter v√°rios lados.

Leia um artigo muito bem ponderado sobre a usina: Pela imparcialidade em Belo Monte.

Brasil querendo ficar bem na fita, te convence?

Hoje quando abri o portal Globo.com apareceu um pop-up do Governo Brasileiro que levava para um site falando da participação do Brasil na COP-15.

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Numa das p√°ginas do site chamada Panorama que fala de matriz energ√©tica limpa eles afirmam (no texto) que 45,9% da produ√ß√£o de energia brasileira vem de fontes renov√°veis. Ai mostram 2 gr√°ficos, um mostrando a matriz energ√©tica brasileira separada em renov√°vel (46,4%, afinal qual o n√ļmero correto?) e n√£o renov√°vel (53,6%) e outro gr√°fico as fontes de gera√ß√£o de eletricidade. Mais de 75% √© de origem em hidrel√©tricas.

Ai o Brasil resolve falar em investimentos, √© essa parte que mais me irrita. ‚ÄúA estimativa do Minist√©rio de Minas e Energia para o per√≠odo 2008-2017 indica aportes p√ļblicos e privados da ordem de R$ 352 bilh√Ķes para a amplia√ß√£o do parque energ√©tico nacional.‚ÄĚ ‚ÄúPara a √°rea hidrel√©trica est√£o previstos cerca de R$ 83 bilh√Ķes.‚ÄĚ ‚ÄúOutros R$ 23 bilh√Ķes devem ser aplicados na expans√£o da produ√ß√£o e oferta de biocombust√≠veis como etanol e biodiesel.‚ÄĚ

√ďtimo, s√£o R$106 bilh√Ķes que ser√£o investidos hidrel√©tricas e biocombust√≠veis, ou seja, 30,12% do total dos investimentos. T√° e os outros R$ 246 bilh√Ķes? V√£o investir em que? Vento? Nuclear? G√°s Natural? Petr√≥leo e derivados? Vejam bem s√£o praticamente 70% de todo o dinheiro e eles n√£o falam onde v√£o investi-lo, por que ser√°? N√£o pega bem num site que fala de desenvolvimento sustent√°vel e matriz energ√©tica limpa dizer que 70% dos investimentos em matriz energ√©tica n√£o ter√£o nada a ver com fontes alternativas de energia. Espero realmente estar errada e que o texto foi feito as pressas e esqueceram de mencionar o quanto v√£o investir em outras fontes renov√°veis.

A ideia do site de mostrar o que o Brasil tem feito pelo seu ‚Äúdesenvolvimento sustent√°vel‚ÄĚ √© louv√°vel, mas n√£o precisava entrar na maquiagem verde, n√©? T√° querendo enganar quem, Brasil, ainda mais depois do pr√©-sal?