Células-Tronco Poderão Salvar o Ligamento Cruzado Anterior?

Uma técnica cirúrgica para consertar o Ligamento Cruzado Anterior (LCA), utilizando células-tronco, vem sendo testada com sucesso na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Nos primórdios da cirurgia do joelho, o reparo do LCA, ou seja , dar pontos no ligamento para tentar consertá-lo, não deu muito certo. Dentro da articulação existe muito movimento e o líquido sinovial, o lubrificante natural das articulações, dificulta a formação de cicatrizes, o que faz muito sentido, porque cicatrizes dentro da articulação poderiam causar aderências entre os tecidos e impedir o movimento, um quadro chamado ARTROFIBROSE (joelho duro). Isso é bem difícil de resolver.

Então tentaram substituir o LCA amarrando tendões do lado de fora do joelho, as chamadas RECONSTRUÇÕES EXTRA-ARTICULARES. Muitas técnicas foram descritas, sendo as mais conhecidas as de Andrews e de Lemaire. Não funcionou, as pessoas ficavam com o joelho instável.

Para gravar: REPARO é dar ponto no ligamento lesado. RECONSTRUÇÃO é substituir por uma tendão de fora do joelho, sendo a cirurgia feita rotineiramente hoje em dia.

Depois, K. G. Jones (1), em 1970, descreveu uma técnica “game changer” de reconstrução intra-articular do LCA, na qual nos baseamos desde então, com inúmeras modificações, mas mantendo o conceito. O problema é que todas estas técnicas SUBSTITUEM o LCA por um tendão de fora do joelho, como se fosse um transplante. Só que os tendões são diferentes dos ligamentos. A coisa não fica 100%. Durante esses quase 50 anos, com todas as inovações e modificações, não se conseguiu melhor o índice de insucesso de 10%, que é alto. Um em cada dez pacientes não fica bom. Se imaginarmos que nos Estados Unidos são feitas  100.000 cirurgias de reconstrução do LCA por ano, 10.000  pacientes não ficam bons com a cirurgia todo ano (2). É muita gente frustrada! No Brasil nós não temos estatísticas confiáveis, para variar, mas imagino que deva ser pior.

Além da função mecânica, ou seja, restringir a translação anterior da tíbia em relação ao fêmur e a rotação exagerada, o LCA tem uma importante função proprioceptiva. Existem milhões de terminações nervosas, como se fossem pequenos sensores elétricos dentro do ligamento, que informam o cérebro sobre o equilíbrio. Graças a isso, podemos andar olhando a paisagem, sem ter que ficar olhando para o chão e para os pés. O cérebro recebe essas informações das articulações dos membros inferiores inconscientemente. Essa função proprioceptiva não é totalmente re-estabelecida com a reconstrução do LCA usando tendões. Eu aposto meu carro como essa é a principal causa do insucesso em 10% das reconstruções do LCA.

Para resolver esse problema, uma equipe liderada pela médica pesquisadora Martha M. Murray, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, propõe utilizar células-tronco para melhorar a capacidade de cicatrização do LCA dentro da articulação preservando assim o ligamento original, com seus milhões de terminações proprioceptivas (3). O procedimento foi batizado de BEAR, sigla em inglês para Bridge-Enhanced ACL Repair. Neste artigo científico publicado em 2017, o grupo descreve como é feita a técnica, os resultados nos animais de laboratório e os resultados dos testes iniciais de segurança feitos em seres humanos. Resta agora saber se funciona. A pesquisadora está buscando investimentos financeiros para patrocinar um estudo clínico maior, com mais pacientes, para comprovar a eficácia do método.

Basicamente, é feita a interposição de uma membrana artificial cheia de células-tronco, entre o ligamento lesado e o osso onde ele vai ser reinserido com pontos. Tendo uma sala limpa com padrão de Boas Práticas de Manufatura aprovada pela ANVISA, não é difícil fazer. Mas nem todas as lesões do LCA poderão ser tratadas pelo BEAR. Tem que ser um destacamento próximo do osso. E tem que ser operado logo depois da lesão, não anos após.

No Brasil ainda não há relato de nenhum hospital realizando esta cirurgia.

 

Referências

  1. K. G. Jones, “Reconstruction of the anterior cruciate ligament using the central one-third of the patellar ligament,” Journal of Bone and Joint Surgery. American, vol. 52, no. 4, pp. 838–839, 1970.
  2. Medscape
  3. Perrone GS, Proffen BL, Kiapour AM, Sieker JT, Fleming BC, Murray MM. Bench-to-bedside: Bridge-enhanced anterior cruciate ligament repair. J Orthop Res. 2017 Dec;35(12):2606–12.

 

Alessandro Zorzi

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

9 thoughts on “Células-Tronco Poderão Salvar o Ligamento Cruzado Anterior?

  • 18 de outubro de 2018 em 11:34
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    Oii
    Esse tratamento pode ser realizado com quanto tempo apos a lesao ?
    Obrigada
    Tenha um bom dia

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    • 24 de outubro de 2018 em 10:33
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      OI Jessica, este tratamento ainda não está disponível. É feito somente como pesquisa. Os melhores resultados, em teoria, são obtidos com a cirurgia precoce, dentro dos primeiros 3 meses após a lesão.

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  • 13 de abril de 2019 em 03:30
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    Gostaria de saber se após 6 meses de cirurgia do LCA com enxerto dos tendões da coxa ainda é normal sentir dor quando faz-se força ao esticar a perna. Obrigada

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  • 26 de maio de 2019 em 19:14
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    Olá bom dia!
    Dr. Eu já fiz 5 reconstrução de LCA, e estou indo para 6 cirurgia, meus ligamentos perdem a função ficando completamente instável. Eu gostaria muito de fazer parte desse estudo, quero voltar a correr, andar de bicicleta ter uma vida normal, desde os 26 anos, não consigo. Tenho um médico maravilhoso em campinas que cuida dos meus joelhos.

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  • 13 de janeiro de 2020 em 18:04
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    Boa tarde, Alessandro.

    Me chamo Antonio tenho 42 anos e praticava Triathon antes de me machucar.

    Em janeiro de 2019 fui diagnosticado com lesão de cartilagem e por um descuido acabei pisando em falso e
    torci o joelho ocasionando uma ruptura parcial de LCA.

    É possível eu me cadastrar para um tratamento experimental?

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  • 7 de julho de 2020 em 17:33
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    Olá Alessandro,

    Excelente post.

    Eu fiz meu mestrado da Unicamp, no IE. Sobre essa técnica, houve alguma atualização para introdução nela no Brasil?

    Um abs!

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    • 8 de julho de 2020 em 08:25
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      Oi Igor, parabéns pelo mestrado! Em Fevereiro tivemos a publicação da terceira e última resolução da ANVISA regulamentando e autorizando a terapia celular no Brasil. Parecia que as coisas iam andar muito rápido. Mas aí bumba!!!! Em Março o coronavírus deu “pause” no planeta. Estamos na expectativa da volta das atividades pós-COVID para recolher o cacos e ver como recomeçar. Mas acredito que em 2021 ou no máximo 2022 já será realidade no Brasil sim.

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