Cuidado com o Rótulo “Células-Tronco”

“Após estudos pré-clínicos bem sucedidos, a terapia com células-tronco está surgindo como candidata ao tratamento de lesões da cartilagem articular. Como a terapia com células-tronco para reparo de cartilagem em humanos está em fase inicial, confusão e erros são encontrados na literatura com relação ao uso do termo terapia com células-tronco nesse campo.”

Esta frase foi retirada de um estudo publicado este mês, Agosto de 2018, na revista mais importante da Ortopedia e Traumatologia, o American Journal Sports Medicine, cujo fator de impacto é 6.057. Mostra como os problemas relacionados com a terminologia inadequada, usada para descrever técnicas de Terapia Celular para aumentar o reparo da Cartilagem Articular, contribuem para a dificuldade do avanço nesta área do conhecimento.

O estudo, intitulado Stem Cell Therapy for Articular Cartilage Repair: Review of the Entity of Cell Populations Used and the Result of the Clinical Application of Each Entity”, foi realizado por pesquisadores da Coreia do Sul. Os autores fizeram uma revisão sistemática nas principais bases de dados de periódicos.

Quarenta e seis estudos clínicos foram identificados alegando o uso de um tipo de células-tronco chamado MSCs (Mesenchymal Stem Cells, ou como prefere Arnold Caplan, que cunhou o termo no passado e agora quer modifica-lo, Medicinal Signaling Cells):

  • 20 estudos com MSCs derivados da medula óssea,
  • 21 estudos com MSCs derivadas do tecido adiposo,
  • 3 estudos com MSCs derivadas de sangue periférico,
  • 1 estudo com MSCs derivadas de sinóvia e
  • 1 estudo com MSCs derivadas de sangue do cordão umbilical.

Todos estes estudos clínicos relataram que a cartilagem tratada com MSCs mostrou desfechos clínicos favoráveis em termos de escores clínicos ou reparo de cartilagem avaliados pela Ressonância Magnética. No entanto, a maioria dos estudos foi limitada a relatos de casos e séries de casos. Ou seja, estudos cheios de vieses (erros sistemáticos que afetam as conclusões).

O problema é que entre esses 46 estudos clínicos, 18 estudos erroneamente se referiram às frações vasculares estromais derivadas do tecido adiposo como “MSCs derivadas de tecido adiposo”,2 estudos referiram-se a células progenitoras derivadas de sangue periférico como “MSCs derivadas de sangue periférico” e um estudo que usou o aspirado de medula óssea concentrado (BMAC) descreveu erradamente como “MSCs derivadas de medula óssea”.

Conclusão a que chegam os autores:

“Há evidências limitadas sobre o benefício clínico da terapia com células-tronco para o reparo da cartilagem articular. Como a literatura contém erros substanciais na descrição das células terapêuticas utilizadas, os pesquisadores precisam estar atentos aos termos apropriados, especialmente se as células utilizadas foram células-tronco ou populações de células contendo uma pequena porção de células-tronco, para evitar confusão na compreensão dos resultados de uma determinada terapia baseada em células-tronco.

Tenho recebido muitos relatos, através do blog, de pessoas que procuram clínicas no Brasil para receberem aplicações de “células-tronco”. Apesar da clara recomendação do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), para que a terapia celular esteja restrita ao ambiente de pesquisa acadêmica, sob supervisão de um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) credenciado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), muitas clínicas teimam em aplicar e cobrar por esses procedimentos, em condições sanitárias no mínimo duvidosas. O problema é que não estão aplicando células-tronco. Assim como os pesquisadores que desconhecem a terminologia adequada, essas clínicas vendem sob o rótulo de células-tronco, produtos pobres em MSCs e cheios de impurezas, tais como o BMAC e a Fração Vascular da Gordura. Em alguns casos até o PRP (Plasma Rico em Plaquetas), que não tem nada a ver com células-tronco.

Alessandro Zorzi

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

30 thoughts on “Cuidado com o Rótulo “Células-Tronco”

    • 21 de agosto de 2018 em 21:02
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      Agradecido!!!

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  • 3 de outubro de 2018 em 13:11
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    Preciso tanto desse tratamento!! Já está disponível?

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    • 9 de outubro de 2018 em 16:25
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      Olá Francine, está disponível para pesquisa, não para aplicação em consultórios privados. PUC do Paraná, HC de São Paulo, Hospital Albert Einstein, UNICAMP, são algumas instituições que realizam estudos com células tronco. Não perca a esperança. A ANVISA promete para breve a definição dos critérios para liberação do uso. Abraços.

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  • 5 de outubro de 2018 em 03:21
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    Descobri o site agora há pouco, adorei os conteúdos. Por favor, continue falando sobre os estudos que poderão ajudar quem tem condromalácia patelar. Tenho 25 anos e essa bendita me causa estragos desde os 14. É uma frustração conviver com algo que não tem cura.

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    • 9 de outubro de 2018 em 16:28
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      Olá Celiane, obrigado pelo elogio, fico muito feliz. Em breve prometo novas postagens sobre condromalacea. Abraços

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  • 14 de outubro de 2018 em 08:26
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    Olá! Gostei muito do artigo e soube que esta pesquisa já foi até premiada. Parabéns! Tenho artorse no quadril faz quase 30 anos. Será que é possível eu me candidatar para ser cobaia nas pesquisas do HC de Campinas ?

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    • 18 de outubro de 2018 em 09:34
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      Olá Fabiana, obrigado pelo elogio. Não, não dá para ser cobaia, pelo amor de Deus!!! Pesquisas clínicas são uma coisa muito séria e muito ética. Ninguém é feito de cobaia. Quem decide participar de uma pesquisa clínica é chamado de PARTICIPANTE e recebe um tratamento VIP de dar inveja. Existe toda uma fiscalização para garantir a segurança do participante. Temos muito carinho e respeito com nossos participantes e sim, você pode ser uma participante de estudos na UNICAMP.

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  • 18 de outubro de 2018 em 11:30
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    Esse tratamento vai poder ser usado so para lesoes recentes (caso sim recente de quanto tempo?) Ou tmbm para lesoes tardias (que ocorreram a anos)
    Obrigada
    Tenha um bom dia

    Resposta
  • 18 de outubro de 2018 em 11:30
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    Ola
    Esse tratamento vai poder ser usado so para lesoes recentes (caso sim recente de quanto tempo?) Ou tmbm para lesoes tardias (que ocorreram a anos)
    Obrigada.
    Tenha um bom dia

    Resposta
    • 24 de outubro de 2018 em 10:34
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      Oi Jessica, preferencialmente recentes, até 3 meses. Mas ainda é estudo, sabemos pouco sobre os benefícios e riscos do procedimento.

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    • 19 de maio de 2019 em 16:52
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      Olá Dr. Alessandro. Gostaria de participar das pesquisas de tratanentos com células tronco para reabilitaçāo de artroses no joelho e quadril. Fui indicado para colocaçāo de prótese no quadril e não me senti confortável com este tipo de tratanentos tāo evasivo. Acredito no avanço das novas tecnologias da medicina moderna e se eu puder colaborar como participante destas pesquisas aqui na cidade de São Paulo tenho tempo, interesse e disposição para esta finalidade. Antecipadamente agradeço a atenção.

      Resposta
    • 19 de maio de 2019 em 16:52
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      Olá Dr. Alessandro. Gostaria de participar das pesquisas de tratanentos com células tronco para reabilitaçāo de artroses no joelho e quadril. Fui indicado para colocaçāo de prótese no quadril e não me senti confortável com este tipo de tratanentos tāo evasivo. Acredito no avanço das novas tecnologias da medicina moderna e se eu puder colaborar como participante destas pesquisas aqui na cidade de São Paulo tenho tempo, interesse e disposição para esta finalidade. Antecipadamente agradeço a atenção.

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    • 19 de maio de 2019 em 16:52
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      Olá Dr. Alessandro. Gostaria de participar das pesquisas de tratanentos com células tronco para reabilitaçāo de artroses no joelho e quadril. Fui indicado para colocaçāo de prótese no quadril e não me senti confortável com este tipo de tratanentos tāo evasivo. Acredito no avanço das novas tecnologias da medicina moderna e se eu puder colaborar como participante destas pesquisas aqui na cidade de São Paulo tenho tempo, interesse e disposição para esta finalidade. Antecipadamente agradeço a atenção.

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  • 23 de outubro de 2018 em 11:38
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    Olá! Sofro de condromalacia nos dois joelhos e gostaria de ser participante de alguma pesquisa clinica, você sabe de algum estudo em São Paulo?
    Obrigada!

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    • 24 de outubro de 2018 em 10:19
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      OI Ana, tenho conhecimento de estudos com terapia celular para a cartilagem no HC da USP (SUS), outro no Hospital Albert Einstein (privado) e outro na PUC de Curitiba (SUS). Um projeto aguarda aprovação ética e financiamento na UNICAMP. Abraços

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  • 17 de novembro de 2018 em 11:41
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    Como devo fazer para ser participante?

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    • 3 de dezembro de 2018 em 10:31
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      olá Anderson. Para se tornar um participante de pesquisa, primeiro é necessário encontrar um estudo que esteja recrutando participantes. Infelizmente no Brasil, isso é uma tarefa de detetive. Não existe uma plataforma única que faça a divulgação dos estudos. cada pesquisador escolhe como quer divulgar. Nos estados Unidos, existe um site especializado, chamado Clinical Trials, feito pelo próprio governo, que divulga todas as pesquisas. Venho pensando muito nesta questão e tenho intenção de propor algo do tipo no Brasil, mas acho que isso vai demorar um pouco para entrar em ação.

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  • 21 de novembro de 2018 em 16:14
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    Boa tarde
    Meu pai tem 80 anos, artrose bilateral de joelho, com o esquerdo bem piorado. Existe chance de aplicação de CT antes de se pensar em artroplastia? Ou ainda está em fase de pesquisa?
    Obrigada!

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    • 3 de dezembro de 2018 em 10:27
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      Olá Mara, acho muito difícil. A terapia celular ainda está em fase de pesquisa e a maioria dos protocolos, por questão de segurança, limitam a participação de pessoas muito idosas. Não é impossível.

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  • 21 de janeiro de 2019 em 10:56
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    Olá Dr, gostaria de saber se os partocipantes precisam residir na cidade onde eh feita a pesquisa e quanto tempo dura o processo de aplicacao das celulas tronco. Sou professora da UFRN e moro no Rio Grande do Norte e tenho muito interesse em particopar da pesquisa. Tenho 40 anos e sofro com a condromalacia.

    Resposta
  • 19 de maio de 2019 em 16:53
    Permalink

    Olá Dr. Alessandro. Gostaria de participar das pesquisas de tratanentos com células tronco para reabilitaçāo de artroses no joelho e quadril. Fui indicado para colocaçāo de prótese no quadril e não me senti confortável com este tipo de tratanentos tāo evasivo. Acredito no avanço das novas tecnologias da medicina moderna e se eu puder colaborar como participante destas pesquisas aqui na cidade de São Paulo tenho tempo, interesse e disposição para esta finalidade. Antecipadamente agradeço a atenção.

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  • 13 de junho de 2019 em 15:53
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    Olá tenho condromalacia e gostaria de ser participante, sabes de algum lugar no Rio Grande do Sul ou Santa Catarina….? outra pergunta o participante precisa morar na cidade onde é feito a pesquisa?

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    • 14 de junho de 2019 em 08:31
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      Olá Cibele. Sei de um estudo em Curitiba, no Hospital Cajuru, com o Dr Fabiano Kupzic. Você pode procurar também na Plataforma ReBEC. Lá são registrados os estudos clínicos em andamento no Brasil. É só digitar eese nome no Google que aparece logo nos primeiros resultados. Em relação a outra pergunta, não é necessário morar na mesma cidade não. A maioria dos estudos aceita participantes de fora.

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  • 21 de outubro de 2019 em 10:56
    Permalink

    Gostaria de receber informações sobre medicina regenerativa de cartilagem

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  • 10 de abril de 2020 em 19:08
    Permalink

    tenho um problema de menisco nas duas pernas preciso de uma cura urgente, quero ter uma vida normal, estou lutando mas esta epoca do coronavirus, nao tenho medico, e esta cada vez pior.

    Resposta
  • 10 de abril de 2020 em 19:08
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    tenho um problema de menisco nas duas pernas preciso de uma cura urgente, quero ter uma vida normal, estou lutando mas esta epoca do coronavirus, nao tenho medico, e esta cada vez pior.

    Resposta
  • 1 de novembro de 2021 em 14:50
    Permalink

    Boa tarde .dr tenho um irmão de 55 anos ele foi diagnosticado com necrose da cabeça do fêmur há 2 meses .primeira alternativa prótese, porém surgiu um ortopedista Dr Felipe ,que deu um alternativa de usar células troco do paciente. Esse procedimento já tem comprovação científica ,ou ainda está em fase de pesquisa .pois vai ser pago.

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    • 11 de novembro de 2021 em 11:32
      Permalink

      Margarida, 2 meses é pouco tempo de evolução. Pode sim ser realizado o procedimento de descompressão, associado ou não com algum tipo de estímulo biológico. Pode ser um enxerto ósseo, ou pode ser o BMA (Bone Marrow Aspirate), que muitos ortopedistas chamam erradamente de “células-tronco”. Na verdade apenas 0,01% das células do BMA são células-tronco de verdade. Mas é autorizado o uso pelo CFM.

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