História da Língua Latina: Brevíssimo Comentário

O latim entre as línguas indo-europeias

Se tivéssemos de resumir a história do povo que se serviu do latim como veículo de comunicação habitual, poderíamos talvez dizer que, de uma comunidade de pastores e agricultores estabelecidas no antigo Lácio, no centro-sul do território itálico, passou-se, progressivamente (dos sécs. VIII a I a.C.), a um grupo social mais e mais complexo que, dadas as condições reinantes e o contato com outros povos (quase sempre hostil de ambas as partes), evoluiu para uma sociedade dividida em classes (patrícios e plebeus, mas também escravos), na qual parte de seus membros criou, como é comum em diversas sociedades, sobretudo por influência grega e etrusca, uma cultura letrada que passou mais e mais a ter importância até constituir o que conhecemos da literatura latina e, com as “deformações” cabíveis, se vista em retrospecto, a imagem que formamos do que era o romano. Falaremos, aqui, de sua língua.

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Classificar é, usualmente, uma das formas de que nos valemos para entender nosso objeto de estudo nas mais diversas áreas do saber. Assim, começamos por dizer que o latim está incluído, como outras tantas línguas, mais e menos conhecidas, do mundo antigo (grego, sânscrito etc), num grupo denominado indo-europeu (designativo que se deve ao fato de serem essas línguas faladas num vasto território que vai, aproximadamente, da Índia à Europa Ocidental, excluindo-se, p.ex., o húngaro, o finlandês e o basco). Não está em questão, aqui, discutir a propriedade do “rótulo” indo-europeu, consagrado há bem mais de um século (ainda que, na verdade, o nome dado a essa protolíngua, construto que tinha por meta, falando sumariamente, explicar tantas semelhanças entre as línguas aí agrupadas, fosse, por razões mais ou menos óbvias, Indogermanisch), nem de saber se de fato existiu um povo que se possa denominar indo-europeu; o fato é que a expressão é por demais produtiva e deu ensejo à publicação de muitas obras, uma das quais, talvez a mais conhecida entre nós, falantes de português, é o Vocabulário das instituições indo-europeias, do linguista francês Émile Benveniste, que viveu no séc. XX, traduzida e publicada pela editora da Unicamp.

Variedades de latim

Se está fora de questão, igualmente, discutir o parentesco do latim com outras línguas antigas (e modernas, às quais “deu origem”, como se costuma dizer), precisamos chegar a um acordo sobre o que estamos denominando latim, já que a língua, pelo que se sabe, foi usada por um longo período de tempo (haveria vestígios de uma língua próxima ao que chamamos de latim, em sua variedade escrita, desde o séc. VI a.C., e ele foi utilizado como veículo de comunicação, sobretudo escrita, digamos, até por volta do séc. XVIII). Como sabemos, as línguas se alteram de muitas maneiras e por muitas razões com o passar do tempo. Se compararmos o português utilizado na imprensa brasileira atualmente com, digamos, o que Camões empregou ao escrever Os Lusíadas (no séc. XVI) e ao que os trovadores usaram em suas cantigas (no séc. XIII), notaremos diferenças “gritantes”, tanto maiores quanto mais “voltamos ao passado”, examinando o enorme conjunto de textos produzidos em português desde que este ganhou, justamente, o estatuto de língua. No entanto, estamos falando da língua escrita e, como sabemos, a escrita não apenas é diferente da oralidade como costuma demorar muito para incorporar, por assim dizer, traços e formas da língua falada. Não fosse, de fato, a uniformidade garantida (ou produzida?) pela escrita, talvez alguém que tentasse ler o que está escrito aqui e registra pontos importantes para os quais se deve chamar a atenção nessa história nem conseguisse decifrar o que está escrito… Mas essa é outra história… O fundamental é lembrar que, se no português escrito encontramos tantas diferenças ao comparar um texto do séc. XIII com outro do séc. XVI ou XXI, que pensar de uma língua que, a princípio usada como veículo de expressão oral e depois ganhou forma escrita, foi usada para que os homens que a conheciam nela se expressassem (oralmente ou por escrito) por bem mais de mil anos? Em outras palavras, o que estamos tentando dizer é que, assim como o português dos trovadores não é mais o nosso, o latim da época dos lendários Rômulo e Remo (séc. VIII a.C.?) não devia ser muito semelhante ao utilizado, p.ex., nas cortes e, mais tarde, nas universidades europeias por volta do séc. VII de nossa era (momento a partir do qual passam a ser documentados os vernáculos europeus, bem depois da tradução da Vulgata, a mais conhecida edição da Bíblia latina). Ou seja, há mais de uma forma de latim, assim como há mais de uma forma de português. Se lembrarmos que os romanos colonizaram um território extenso que, considerado apenas o europeu, vai, aproximadamente, da atual Romênia (antiga Dacia, conquistada no séc. II d.C.) ao atual Portugal (antiga Lusitania, conquistada no séc. II a.C.), e que fizeram isso em momentos diferentes e distantes no tempo (cerca de 400 anos!), período no qual há grande quantidade de textos escritos em sua língua, teremos não só uma ideia de como o latim falado foi se modificando com o passar do tempo, mas como acabou por se “transformar” nas atuais línguas ditas românicas ou neolatinas. Para ficar apenas com as nacionais, i.e. de países que as têm por línguas oficiais, temos aí o português, o espanhol, o francês, o italiano e o romeno (falando genericamente e sem pensar na dialetação, da qual aquela devida à distância geográfica entre grupos que falam a mesma língua é apenas uma forma do fenômeno em questão), sem esquecer o galego, o provençal, o catalão, o rético e o sardo, entre outras ainda faladas ou não.

A língua, enfim, de que nos ocupamos, também marcada pelo fenômeno da dialetação já em solo itálico, levada depois a diferentes lugares pelos colonizadores romanos (sobretudo soldados, em sua maioria iletrados), tendo passado por profundas mudanças (de ordem fonética, gramatical, sintática e mesmo semântica) e dado origem a outras tantas línguas (que, do ponto de vista histórico, são por alguns consideradas formas de latim com as devidas alterações por ele sofridas), costuma ser, no entanto, mais comumente dividida em latim arcaico, latim clássico e latim medieval, sem esquecer a forma dita vulgar, o latim falado e também multifacetado que daria origem ao português, espanhol etc, para ficarmos com as denominações mais conhecidas (critério perigoso, é verdade, em que se mesclam a língua oral e sua representação gráfica). Dessas, interessam-nos todas, dependendo de nosso propósito ao estudá-las, mas falaremos aqui sobretudo daquela denominada clássica, i.e. a que foi utilizada (nos sécs. I a.C. e I d.C.) para produzir aquelas obras de arte que caem sob a rubrica genérica de “literatura”, mas também, p.ex., a história, a filosofia e a oratória, e que é em geral mais estudada nas universidades.

 

Professor de Latim do DL/IEL/UNICAMP.

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