Argumentar na rede

A argumentação é um fato de linguagem tão presente no nosso dia a dia que nem sempre percebemos sua força. Está nas mais diversas relações cotidianas: em conversas entre amigos, familiares, desconhecidos. Nas reclamações de quem se encontra em uma fila de espera e demanda atendimento. Nas estratégias para conseguir agendar uma consulta médica. Na discussão sobre uma nota com um professor ou de um preço com um vendedor. Ou mesmo em situações mais enquadradas por procedimentos institucionais, como um julgamento no tribunal do Júri.

Argumentar é uma prática de linguagem que envolve uma relação entre os interlocutores e com a situação do dizer. Argumentamos a partir do já-dito. Ou seja, dos sentidos já produzidos socialmente na história e presentes como  memória discursiva. E ao argumentar estabelecemos uma relação particular com o não-dito e com o silêncio.  A língua (mas precisamente as línguas, nas suas diversas formas de organização da relação entre sons e sentidos) fornece a base material para essa prática.

Argumentamos por meio de palavras (casebre, mansão, pouco, um pouco, muito e muitas outras presentes no léxico da língua). Sufixos e prefixos também participam na argumentação (contradiscurso, antibelicista, pseudo-intelectual), assim como diminutivos e aumentativos (carrão, favorzinho, mulherzinha, garotão). Temos ainda locuções adverbiais (mesmo que, só que, apesar de, tanto quanto, por exemplo) e frases idiomáticas (descascar um abacaxi, enfiar o pé na jaca). E ainda há interjecções com valor argumentativo (vixe!, credo!).   Argumentamos também por meio da forma de construção dos enunciados (a ordem das palavras na frase, construções passivas ou ativas,  elipses, etc). As diversas formas de encadeamento dos enunciados no texto têm valor argumentativo. Algumas palavras, como as conjunções (portanto, porém, entre outras) explicitam o tipo de relação argumentativa presente no encadeamento.

Assim, a forma específica como os enunciados estão formulados afetam a interpretação, orientando o sentido produzido em uma determinada direção. Mas toda prática de linguagem é produzida por falantes constituídos enquanto tais em um tempo e um espaço específicos. Todo dizer é assim determinado pelos processos históricos e pelos  espaços de enunciação  nos quais é produzido. E isso afeta constitutivamente a argumentação.

Nas novas tecnologias de linguagem, a argumentação ganha contornos diferenciados, por meio de funcionamentos próprios do digital, como hashtags, memes, gifs, vídeos. Algumas expressões surgidas na rede atravessam suas fronteiras e são incorporadas na oralidade pelos falantes em suas trocas linguageiras.

A Linguística estuda essas questões e reflete sobre os diversos modos de argumentar ao longo do tempo e em diversos espaços de enunciação. Questões semânticas e discursivas devem ser abordadas para compreender melhor o funcionamento da argumentação nos dias atuais e para ponderar seus efeitos nas práticas de linguagem na sociedade.

Recentemente, o jornal digital NEXO publicou uma matéria sobre os modos de argumentar nas redes digitais e os recursos usados pelos internautas para orientar a interpretação de enunciados irônicos. O jornal divulga com essa reportagem os resultados de uma pesquisa realizada por docentes do Departamento de Linguística da Unicamp. O artigo científico, que desenvolve uma reflexão sobre a emergência e a estabilização de locuções com valor argumentativo no formato de hashtags e memes, pode ser lido aqui.

Confira a matéria:

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Linguista. Fez graduação em Letras na Universidad de Buenos Aires (Argentina) e Doutorado em Linguística na Universidade Estadual de Campinas. É professora Livre-Docente e Coordenadora do Curso de Linguística da Unicamp. Pesquisa o funcionamento da significação na linguagem e as formas históricas de produção e circulação dos discursos na sociedade.

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