Os animais têm linguagem? Parte 02: Primatas Sinalizantes

Nim Project Flyer (cartaz do filme Projeto Nim). A imagem mostra Nim Chimpsky interagindo com a mão de um humano #ParaCegoVer

….no último capítulo de
“Os animais têm linguagem?”

  • A comunicação das espécies é diferente, e não seria diferente entre primatas;
  • Espécies de chimpanzés e de humanos se distanciaram há milhões de anos, não há razões para imaginar que a comunicação entre elas se manteria igual;
  • Linguagem: comunicação humana através das línguas;
  • Línguas: Conjunto de palavras e regras gramaticais;
  • Fala: Forma oral de realização das línguas;
  • Danos cerebrais que afetam linguagem em humanos não afetam expressões inatas como choro, gritos, e risos. Essas mesmas lesões não causam qualquer perda na comunicação em primatas não-humanos.

Caso não tenha lido o primeiro post desta série, clique aqui.

Mas como podemos saber que os nossos primos mais fortes e com mais pelos não conseguem adquirir uma língua humana?

O capítulo de hoje na nossa série biolinguística: “Os animais têm linguagem?” vem, hoje, fazer o papel de ‘advogado do diabo’.

1. Primatas não-humanos conseguem aprender uma língua?

Como comentado na primeira parte desta série, a maioria das discussões que acompanho sobre a ‘linguagem animal’ entre linguistas e cientistas de outras áreas é marcada pela falta de definição terminológica. Para os linguistas, a linguagem tem um sentido bem específico que delimita o seu objeto de estudo: a capacidade de comunicação humana. Ainda assim, a discussão não deve se encerrar nas questões terminológicas, mas elas ajudam a manter o rigor da discussão.

A pergunta do título desta série é sim relevante. O objetivo do primeiro post não foi fechar a discussão ou dizer que os não-linguistas estão errados. Meu objetivo era garantir que, nas discussões seguintes, os dois lados estejam realmente falando sobre a mesma coisa, evitando desentendimentos por não percebermos que um lado está falando da capacidade especificamente humana enquanto o outro tem em mente uma capacidade mais geral de comunicação.

Então, os primatas teriam capacidade para desenvolver a comunicação humana afinal? Ao longo do século passado, vários pesquisadores fizeram essa mesma pergunta. Afinal, se as diferenças genéticas entre humanos e chimpanzés são tão pequenas, será que a diferença de comunicação e cultural é resultado do ambiente em que vivem?

Abaixo vamos falar dos experimentos mais icônicos. Eu poderia seguir uma ordem cronológica, mas farei duas concessões para tornar o texto menos confuso.

1950: Chimpanzé Viki

A primeira tentativa foi feita com uma chimpanzé que ficou conhecida como Viki. Ela foi cuidada pelos pesquisadores Keith e Catherine Hayes como se fosse uma criança humana. Em um ambiente familiar, será que chimpanzés aprenderiam a língua como os humanos e aprenderiam um pouco de sua cultura? Enfim, não deu certo! Ela foi capaz de produzir apenas quatro palavras em inglês.

1969: Diferenças anatômicas entre primatas humanos e não-humanos

Em 1969, Phillip Lieberman realizou uma pesquisa publicada na Science que poderia explicar o fracasso desse experimento. Ele modela a boca de um macaco rhesus morto para verificar a possibilidade de movimentos. Os resultados indicam que macacos rhesus possuem diferenças anatômicas que dificultariam a pronúncia de palavras. A maior delas seria a posição mais alta das cordas vocais, dificultando especialmente a pronúncia das vogais. Os chimpanzés possuem essa mesma característica.

Com os resultados do experimento da Viki e o trabalho do Lieberman, ficou bastante difundida a ideia de que a Viki não conseguia falar por conta dessas diferenças anatômicas, mas que se não fosse esse impedimento, poderíamos bater papo com chimpanzés com a mesma riqueza com que conversamos com crianças de 5 anos.

* Aqui volto a indicar o vídeo do Canal do Pirula e o episódio de linguística do Alô Ciência pois essa interpretação da pesquisa de Lieberman corrobora a posição desses canais.

Por hora mantemos essa informação em mente, mas voltaremos a ela no próximo capítulo.

*se estiver curioso sobre este ponto, clique aqui para ler o próximo capítulo (se já tiver sido publicado) ou aqui para escutar um podcast de 15 minutos sobre o tema.

Por outro lado, se não podemos fazer chimpanzés falarem por conta das nossas diferenças anatômicas, podemos ensinar língua de sinais! E então se inicia uma nova geração desses experimentos.

Primatas Sinalizantes!

1965: Chimpanzé Washoe

A Chimpanzé Washoe foi cuidada por Beatrix e Allen Gardner na University of Nevada. Os pesquisadores cuidavam dela e tentaram ensinar a língua de sinais americana (ASL). No final do experimento, Washoe tinha aprendido cerca de 350 sinais. Mas mais interessante que os sinais, Washoe conseguia combinar sinais para, a princípio, criar novos conceitos. Segundo os pesquisadores, Washoe teria produzido sinais compostos para se referir a conceitos que ela não conhecia como, por exemplo, Water Bird (água pássaro / pássaro da água) para se referir a um cisne.

1973: Nim Chimpsky

Nim Chimpsky (em homenagem ao linguista Noam Chomsky) foi cuidado por Herbert Terrace da Universidade de Columbia. Ele foi tirado da mãe assim que nasceu e inserido em uma ambiente familiar onde cresceu sendo educado junto com um bebê da família.

Em termos numericos, Nim conseguiu aprender cerca de 120 sinais. Porém, segundo os pesquisadores, ele teria conseguido produzir cerca de 20 mil combinações entre estes sinais.

Uma característica marcante da linguagem (comunicação humana) é o que chamamos de infinitude discreta. Isso quer dizer que temos um número finito de peças, mas podemos criar infinitas combinações entre elas. Com os números apresentados, seria possível dizer que Nim teria alcançado algo semelhante.

O mais importante do Projeto Nim é que, ao contrário dos outros, ele possui (ou ao menos é o único que disponibiliza) um corpus, ou seja, o conjunto das produções em sinais do Nim, para pesquisadores que desejem analisar a fundo sua capacidade de comunicação.

*O Projeto Nim se tornou um documentário que você pode procurar “em um site de vídeos alvi-rubro”

1971: Gorila Koko

Curiosamente, o experimento tido como o mais bem sucedido de ensino de língua sinalizada para um primata não-humano não foi com chimpanzés, mas com uma gorila.

Koko nasceu no dia 04 de julho de 1971 no zoológico de São Francisco e, por isso, ganhou o nome de Hanabiko (Filha dos fogos de Artifício). Para abreviar, ficou conhecida como Koko.

Uma vantagem do experimento com Koko é que ao contrário daquele feito com chimpanzés, sua cuidadora Penny (Francine) Patterson não apenas ensinava a língua de sinais americana (ASL) como pronunciava em inglês tudo o que dizia em sinais. Assim, além de sinalizar, Koko parece compreender o inglês falado, facilitando a comunicação entre espécies.

Koko teria aprendido cerca de 1000 sinais e compreendia cerca de 2000 palavras do inglês. Apenas a título de comparação, um falante nativo de inglês conhece, aos 4 anos, cerca de 5 mil palavras, aos 8 já conhece cerca de 10mil palavras e, ao longo da vida, alcança cerca de 20 a 35 mil palavras.

Koko também fazia combinações como aquelas de Washoe e de Nim. Segundo a pesquisadora, Koko teria produzido expressões como cookie rock (biscoito pedra) para se referir a um biscoito muito duro, e eye hat (olho chapéu / chapéu de olho), para se referir a uma máscara.

É importante observar que Koko não conseguia articular todos os sinais da ASL e produzia uma variação que foi batizada de Gorilla Sign Language (GSL). Infelizmente Koko faleceu em 2018. Vocês conseguem acompanhar essas informações no site Koko Foundation e no canal youtube Koko Flix.

* Para saber mais, você pode escutar este podcast de 15 minutos.

Menção Honrosa: Bonobos lexicógrafos

Além dos experimentos com primatas e gorilas, também tivemos experimentos com bonobos. Estes experimentos, porém, se focaram em outro sistema de comunicação que são os lexigramas. Esse sistema consiste na representação pictográfica de ideias, de uma forma semelhante à escrita por kanjis japoneses, apresentados em um teclado. As bonobos Kanzi e Panbanisha foram treinadas por Suzan (Sue) Savage-Rumbaugh a se comunicar com humanos através desse sistema. Os lexigramas, ao contrário da comunicação sinalizada, exigem um meio externo para que a comunicação aconteça, tornando-o menos prático.

2. Para finalizar esse capítulo (mas não a série)

Até aqui, o que pudemos ver é que embora não seja possível ensinar uma língua falada a chimpanzés e gorilas, parece possível ensinar uma língua sinalizada, mesmo que o número de palavras conhecidas seja menor e que algumas variações sejam observadas, como no caso da Koko.

Tudo isso nos leva a crer então que, sim, os primatas não-humanos possuem uma capacidade linguística semelhante a dos humanos, ao ponto de conseguirmos nos comunicar basicamente na mesma língua, desde que sinalizada. O fato de não conseguirmos nos comunicar através das línguas humanas seria resultado de nossas diferenças anatômicas. Assim, ao menos os chimpanzés e gorilas (considerando que os bonobos foram ensinados a usar lexigramas) poderiam bater um papo com humanos se tivessem suas cordas vocais em posição mais baixa. Além disso, Koko compreendia a língua inglesa.

Temos bastante evidência de que existe uma semelhança na capacidade dos primatas humanos e não-humanos em se comunicar através de línguas, mas precisamos analisar essas evidências com um pouco mais de cuidado, como veremos no próximo capítulo

Caso a parte #03 já esteja publicada, clique aqui para continuar a leitura.

Para saber mais:

Parte #01 desta série

MESQUITA, Fábio (2017) A evolução da linguagem de uma perspectiva internalista. Tese de doutorado em Linguística na UFPR.

Spin de Notícias #253: Comunicação Primata (Homenagem a Koko)

Lieberman, P.H.; KLATT, D.H.; WILSON, W.H. Vocal tract limitations on the vowel repertoires of rhesus monkey and other nonhuman primates, Science, v. 164, p.1185-1187

Nim Project (2011) IMDB

+ posts

Professor de Psicolinguística e Processos Cognitivos na UNICAMP; Divulgador da Ciência, Scicaster e "Spiner" (Spin de Notícias) no Portal Deviante (www.deviante.com.br); e Embaixador da Olimpíada Brasileira de Linguística (www.obling.org).

CC BY-NC 4.0 Os animais têm linguagem? Parte 02: Primatas Sinalizantes by Thiago Oliveira da Motta Sampaio is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

2 Comentários

  1. Muito interessante. Como seria a comunicação com animais mais comuns, como cachorros, gatos, cavalos, etc. ou eles tem mais dificuldade de se comunicar conosco comparado com macacos? Vejo tantas pessoas conversando o tempo todo com este tipo de animal, e elas garantem que se entendem….

    • Oi Hannes,
      Acho que a questão de facilidade de se comunicar é relativa. As espécies vão sofrendo seleção natural e, hoje, as espécies que ainda sobrevivem são as que melhor se adaptaram ao ambiente em que vivem. Acredito que a comunicação é semelhante. Acredito que as espécies têm o melhor sistema de comunicação para as necessidades que o ambiente lhes impõe. Independente da forma, o que importa é que é eficiente para as suas necessidades.

      Comunicação entre espécies também é possível. Nós nos comunicamos com a Koko (gorila). Também conseguimos ter algum nível de comunicação com cachorros, golfinhos e outros animais com os quais temos contato. E os gatos fazem o que querem e nos fazem fazer o que eles querem rs. Então ela é possível a depender de vários fatores. Mas obviamente ficamos limitados às características dos dois lados. Por exemplo, o cachorro vê um espectro de luz diferente do nosso. Então é possível que nós compreendamos coisas do mundo (distinções de cores por exemplo) que são impossíveis para os cachorros, bem como eles podem compreender coisas que nós não compreendemos. O mesmo para cheiros e para a audição. Nesse sentido, existem conceitos que nós talvez possamos compreender por meio da ciência, mas que os animais compreendem naturalmente.

      Então não sei se “comunicação de maior/menor facilidade” é uma distinção válida, naturalmente falando. Embora possam ter limitações na comunicação entre espécies.

      Abraços

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