O que podemos dizer sobre Economia

Detroit Industry South Wall. Diego Rivera, 1933.

Quando nos declaramos economistas a alguém, duas reações são bastante comuns. A primeira é associar esta profissão à gestão do dinheiro ou de outras riquezas; a segunda é nos relacionar a complexos cálculos matemáticos e estatísticos. Quando se inicia um curso de economia, percebe-se que não se trata só disso. Entre os acadêmicos, há muitos daqueles que consideram que o verdadeiro objetivo do economista é o de tratar do problema da escassez de recursos, ou seja, estes não existiriam em quantidades suficientes para atender às necessidades e desejos humanos. A economia seria, portanto, uma ciência que trataria de um único problema: como alocar os recursos de forma eficiente de maneira a gerar a maior riqueza possível. O que se considera como solução para este problema seria a realização de trocas de diferentes bens e serviços entre os indivíduos (ou organização de indivíduos) e a produção daqueles mediante a divisão de trabalho – cada um faria uma parte das tarefas produtivas ou se especializaria naquilo que faz melhor. Felizmente, esta ciência não se resume a isso.

Como a Economia pertence ao campo das ciências sociais, os estudos econômicos também incluem a investigação sobre como a sociedade se organiza, e pode se organizar, para assegurar uma subsistência humana digna. A História e a Antropologia nos mostram, por exemplo, que as sociedades se ajustaram de variadas formas no sentido de produzir o que era fundamental para sua sobrevivência e tudo aquilo a mais que consideravam necessário. O grande problema da economia seria, portanto, o de entender como as relações sociais se imbricam em uma organização produtiva que gera, ao mesmo tempo, riqueza e efeitos deletérios aos seres humanos. Dessa maneira, isto não pressupõe que os recursos sejam sempre escassos, mas que pode haver, ao mesmo tempo, abundância e escassez. Temos hoje uma forma de organização social da produção na qual há a utilização de muitos recursos e gera-se muita riqueza, mas não se supera a miséria, a pobreza e a destruição progressiva do meio ambiente. Neste sentido, o estudo da economia não pode preocupar-se tão só com a geração de riquezas, mas também deve buscar entender  sua distribuição e o prejuízo que sua produção pode causar ao planeta.

Disto, podemos afirmar que o estudo da economia acaba penetrando em diversos aspectos da vida humana, influenciando quase todo tipo de decisão que venha a se referir aos elementos materiais da vida humana. Assim, a esfera política (o poder de decidir) seja talvez a que mais se vincula à economia. No mundo contemporâneo, dentro de um sistema de produção altamente complexo e interligado globalmente, como é o atual sistema capitalista, o estudo e o debate acerca das relações econômicas e políticas adquire grande relevância, já que o que acontece nesse plano conjunto tem impacto sobre a vida de praticamente todas as pessoas.

Neste blog, portanto, não discutiremos economia fechados na ideia de escassez. Também evitaremos abordar o assunto a partir de uma visão de curto prazo vinculada a indicadores econômicos do dia-a-dia. Não consideramos que este tipo de análise seja desnecessário ou errôneo. Apenas entendemos que já há uma ampla cobertura na grande mídia sobre as expectativas para cada mês com respeito a investimentos pessoais, oscilações no preço do dólar ou mudanças nas taxas de inflação. Buscaremos, de outra forma, tratar de aspectos relacionados a questões político-econômicas que se referem de uma maneira mais ampla ao nosso modo de vida atual e à maneira como poderíamos vislumbrar o futuro. Desta maneira, e em coerência com a concepção de economia aqui adotada, poderemos tratar de questões mais delimitadas como, por exemplo, sistemas de saúde pública e privada, previdência social, energia, produção industrial e de serviços, meio ambiente, gestão do espaço urbano sem perder de vista que estas estão inseridas em temas mais abrangentes como, por exemplo, desenvolvimento capitalista, estado de bem-estar social, crises sistêmicas, ideologias, comércio e finanças internacionais.

Portanto, a partir de um referencial econômico acessível e embasamento histórico consistente, como tem sido a tradição da Unicamp, ambicionamos divulgar a ciência econômica de uma forma acessível para que aqueles que se interessam por tais discussões possam ter mais uma fonte de informações para a explicação de fatos da vida contemporânea.

Victor Augusto Ferraz Young, economista, pesquisador do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI) do Instituto de Economia da UNICAMP, Mestre e Doutor em Desenvolvimento Econômico nesta mesma Universidade, é também professor do curso de Especialização em Relações Internacionais na disciplina de Competitividade Internacional.

Ulisses Rubio Urbano da Silva, Graduado em Ciências Econômicas pela UNESP. Mestre e Doutor em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da UNICAMP, enfatizando estudos em História Econômica. Pesquisas em Pensamento Econômico Brasileiro. Atualmente leciona Economia e disciplinas da área de gestão no IFSP campus São João da Boa Vista.

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