Rio Negro acumula poluentes persistentes nos sedimentos

Região portuária de Manaus (AM) concentra poluentes no sedimento do rio Negro. Crédito: Hilton Souza
Região portuária de Manaus (AM) concentra poluentes no sedimento do rio Negro. Crédito: Hilton Souza

Na maior bacia fluvial e que detêm uma das maiores biodiversidades do mundo, a Amazônica, estudos de impactos ambientais causados pela destruição da floresta são até frequentes, mas pouco ainda se sabe sobre a poluição dos rios, principais vias de transporte na região.

Artigo publicado na última edição da revista Journal of the Brazilian Chemical Society (Vol.26, no. 7, 2015) traz o resultado de análises de compostos químicos oriundos de combustíveis fósseis encontrados em amostras de sedimentos do rio Negro, sobretudo em regiões próximas a região portuária de Manaus. O objetivo era conhecer a presença e origem dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). Trata-se de substâncias tóxicas persistentes, que “mesmo em baixa concentração podem ameaçar a saúde humana e do meio ambiente”, explicam Hilton Souza, da Universidade do Estado do Amazonas, e pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Existem cerca de 100 tipos de HPAs que são fruto da decomposição de moléculas orgânicas presentes em dejetos de esgotos ou plantas, na queima de combustíveis fósseis de barcos, por exemplo, resíduos da indústria, entre outros. Eles se acumulam no meio ambiente, podem ser transferidos para a cadeia alimentar (sobretudo em peixes) e até causar câncer.

Os autores do artigo avaliaram 18 sítios ao longo do rio Negro e constataram que as maiores concentrações de HPAs estão em áreas portuárias e próximas a centros urbanos, corroborando com pesquisas realizadas pelo mundo e em alguns locais no país.

Para a caracterização dos contaminantes foram considerados as concentrações de 16 HPAs prioritários usados em estudos ambientais pela Agência Americana de Proteção Ambiental (Usepa). Os resultados indicam que das amostras de sedimentos superficiais coletados de três regiões navegáveis do rio Negro, ao longo de 3 meses de 2012 e um mês de 2013, 4 apresentaram alta concentração (acima de 500 g -1) de HPAs e 2 contaminação moderada (entre 250 e 500ng g-1), todas coletadas na região portuária de Manaus, onde há intensa atividade náutica e esgoto urbano. Outras 7 foram considerados pouco contaminadas (abaixo de 250 g-1), e 2 não foram consideradas contaminadas, todas localizadas em áreas de baixa influência humana.

A análise química revelou ainda que a maior fonte de contaminação era formada por HPAs de alto peso molecular, que estão ligados ao processo de queima de combustíveis fósseis, mas também ao escoamento de água com resíduos de asfalto e de pneus (como as ruas em geral), representando 70% de ocorrência nas amostras. Outra fonte bastante presente foram os HPAs alquilados, presentes no óleo diesel e que indicam derrames, ou outras ações que podem revelar descuido das embarcações.

“Estudos sobre a presença e acúmulo desses compostos no sedimento são importantes para mitigar os impactos ambientais e reduzir o dano à saúde humana”, afirmam os autores do estudo.

A análise química de HPAs presentes no rio Negro se mostra estratégica para traçar as principais fontes de compostos que estão sendo gerados ao longo do leito do rio e identificar, assim, os principais poluidores para se traçar políticas de preservação ambiental. “Se organismos aquáticos, tais como peixes, estão tendo contato com estes tipos de contaminantes, isso pode vir a tornar-se uma preocupação de saúde pública”, alerta Hilton Souza.

A próxima fase da pesquisa, informa Souza, será avaliação sobre a capacidade de fungos isolados a partir destes ambientes contaminados degradarem os HPAs. “Assim poderemos pensar em propostas de biorremediação com microrganismos da própria região”, conclui.

Contato:

Hilton Souza, Rede Bionorte da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Escola Superior de Ciências da Saúde. Email: hilton_marcelo@hotmail.com. Fone: (92) 98273-9413.

Artigo Completo:

Souza, Hilton; Taniguchi, Satie; Bícego, Marcia; Oliveira, Luiz; Oliveira, Teresa; Barroso, Hiléia & Zanotto, Sandra. “Polycyclic Aromatic Hydrocarbons in superficial sediments of the Negro river in the Amazon region of Brazil”. J.Braz. Chem. Soc., Vol.26, No. 7, 2015.

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