Quantos amigos você tem nas redes sociais?

Onde eu vejo o número de contatos nestas redes sociais?
Onde eu vejo o número de contatos no Facebook? Foto de Marsel van Oosten

Quantos amigos você possui nas redes sociais como o Facebook? 100?  300? 2478?

Se você não é entusiasta de redes sociais e as utiliza apenas para manter contato com família e amigos mais próximos, provavelmente terá cerca de 100 contatos. Se você as utiliza como forma de socializar com pessoas que possuem interesses em comum, provavelmente terá entre 200 e 400 contatos. Se for uma celebridade, seu perfil pessoal já alcançou o limite de contatos. Neste momento você já criou um perfil 2 ou uma página que, ao contrário das amizades, não possui limites numéricos.

Mas qual a razão de falar do número de contatos Facebook em um blog de Linguística?

É que, não fosse a nossa forma de comunicação, provavelmente você teria, no máximo, uns 70 ou 80 contatos. Vamos entender o porquê?

Viver em grupo e a história dos seres vivos

Na história dos seres vivos, viver em grupo sempre foi uma das melhores formas de lidar com as ameaças do ambiente. Considere que você viva numa era em que existam grandes animais carnívoros que adoram carne humana. Se você se isolar, provavelmente será presa fácil. Por outro lado, se você vive em grupo, provavelmente será mais fácil se defender. Com ajuda da comunicação, provavelmente seu grupo terá alguma divisão de funções. Alguém será o responsável por vigiar os arredores e avisar sobre a aproximação dos predadores, outros para cuidar das crianças, outros para criar armas para nos defendermos. Alguns indivíduos do grupo também podem ser responsáveis por coletar comida e cozinhar. E aqui mora o perigo de grupos muito numerosos. Como garantimos que sempre teremos comida para todos os indivíduos?

Situações semelhantes são observadas até mesmo para seres unicelulares. Trabalhos em Biologia observam que estes seres se agrupam em colônias para sobreviver melhor em um determinado ambiente. Por outro lado, se esta colônia cresce demais, elas não conseguem se sustentar. O número limite de células em uma colônia depende da quantidade de alimento e de predadores no ambiente.

Nos primatas

Se não tivermos um microscópio a disposição, podemos observar as espécies animais. Robin Dunbar é um dos principais responsáveis por pesquisar este tema em primatas. Seus trabalhos observam que os grandes primatas vivem em grupos de cerca de 70 ou 80 indivíduos. Grupos maiores tendem a se romper, formando outros grupos. Segundo Dunbar, um dos fatores responsáveis para a manutenção de um grupo tão grande é o nosso comportamento afetivo. Os primatas fazem carinho, brincam, ensinam e catam piolhos uns dos outros. Estes gestos de afeto e ajuda mútua nos faz ter mais empatia com outros indivíduos. Isso quer dizer também que, aqueles que apenas recebem favores mas nunca retribuem, serão excluídos do grupo em algum momento (alguma semelhança com os humanos?).

Os primatas humanos são mais receptivos neste ponto e podem chegar a cerca de 150 indivíduos (o chamado Número de Dunbar). Neste número, é possível separar os membros de nossa família, os amigos do peito, os ‘amigos comuns’. O restante são, geralmente, colegas com quem nos relacionamos com alguma frequência.

Mas a grande pergunta é: como conseguimos criar grupos tão maiores do que os outros primatas?

Segundo Dunbar, o responsável por este aumento no número de contatos é a linguagem. A linguagem é uma ferramenta que permite que (metaforicamente) “acariciemos” mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Mais do que isso, não precisamos de contato físico e pode ser feito a uma distância relativa. Conversas, elogios, suporte emocional, demonstrar que sentimos e nos preocupamos com a dor do outro, tudo isso conta para que seja possível manter relações estáveis com tantas pessoas. Mais do que isso, a linguagem também nos permite uma memória transativa (ou distribuída), em que os detalhes das informações são guardados fora de nossa mente. Estas memórias podem residir em outras pessoas, em textos ou mesmo na palma da sua mão ao acessar o Google.

Caso você, leitor, se enquadre nas pessoas que utilizam as redes sociais para manter contato com família e amigos mais próximos, provavelmente este post explica o seu caso. Mas se você se enquadra entre os perfis que possuem 2478 contatos, te deixo uma pergunta. Com quantas destas pessoas você realmente se relaciona com alguma frequência?

Referências

Se quiser saber um pouco mais sobre o Número de Dunbar, recomendo este excelente artigo de Maria Konnikova no New Yorker ou esta entrevista para Aleks Krotoski no The Guardian.

Caso queira saber mais sobre Memória Transativa e o Efeito Google, recomendo este artigo de Betsi Sparrow, da Universidade de Columbia.

 

CC BY-NC 4.0 Quantos amigos você tem nas redes sociais? by Thiago Oliveira da Motta Sampaio is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Sobre Thiago Oliveira da Motta Sampaio 9 Artigos
Professor de Psicolinguística e Processos Cognitivos na UNICAMP; Divulgador da Ciência, Scicaster e "Spiner" (Spin de Notícias) no Portal Deviante (www.deviante.com.br); e Embaixador da Olimpíada Brasileira de Linguística (www.obling.org).

7 Comentários

  1. Oi, Thiago! Gostei muito do artigo que você escreveu sobre as redes sociais. Esse é um tema que eu tenho bastante interesse, você conhece outros autores que discutem essa questão? =)

  2. Texto muito interessante Thiago, mas você deixou de fora aqueles que não usam redes sociais e, nem por isso, deixam de interagir com seus círculos sociais (25%, em geral de acordo com o PewResearchCenter). Esse fenômeno da comunicação só seria possivel por causa desta tecnologia ou também acontecia antes mesmo disso? Pelo que entendi, independe das redes sociais. Zygmunt Bauman discute bastante a questão de que essas tecnologias deixaram mais fluida as conexões e desconexões, mas não mudaram o fato de que nosso núcleo significativo de relacionamentos ainda continua pequeno (ou até mesmo diminuiu), mesmo com a expansão das mídias sociais. Abraços!

    • Oi André.
      1) Eu acabei focando demais na ideia de redes sociais quando a ideia era falar do Número de Dunbar. Acho que preciso trabalhar um pouco isso. Tema alguns trabalhos que investigam a validade do Número de Dunbar em redes sociais como este no Plos One sobre o twitter [http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371%2Fjournal.pone.0022656] e, no fim, acabei nem falando dele [vou atualizar o post em breve].
      Mesmo nestes trabalhos, eles sempre identificam um grupo muito, mas muuuito menor do que os 150 [uns 5 ou 10] que realmente são as pessoas mais próximas. Depois vem mais algumas dezenas que são amigos ou parentes pouco mais distantes. O restante são contatos que mantemos algum contato mas não são, de fato, próximos. Então você está certo quando fala da discussão do Bauman. E é bem possível mesmo que as redes sociais, embora nos façam manter o contato de algumas pessoas, acabe, por outro lado, nos afastando daquelas com quem não nos relacionamos com maior frequência. Isso dá bastante pano pra manga.

      2) De fato, esqueci de falar das pessoas que não usam redes sociais, desculpe rs.

      Abraços

      • Tranquilo Thiago! Entendo que o foco nem era discutir a questão das redes sociais, mas sim a questão da linguagem e como ela possibilitou o homem extrapolar o limite “natural” das associações. Minha reação foi mais no sentido da normalização (no sentido de que quem não segue a norma é visto negativamente) que estamos dando para o uso das redes sociais e isso aparece em nossos textos e reflexões (sem que percebamos). Interessante seria estudar os efeitos de viver diferentes personas, uma digital, onde o número de dunbar não aparece claramente (já que você pode ter milhares de contatos) e o real, onde a dura regra se aplica e os círculos são bem menores, ou as vezes muito frágeis. Talvez essa ilusão explique a popularização das redes sociais.

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