Letras de música mal compreendidas: por que fazemos embromation?

Quem nunca cantou uma música por muito tempo e, por acaso, quando checou a letra descobriu que não era exatamente aquilo que você tinha entendido? Em casos de músicas em outro idioma, já aconteceu de você não saber falar aquela língua e seguir cantando no clássico embromation em português mesmo? Por que existem músicas que sempre cantamos errado?
O embromation é quando não sabemos a letra da música e inventamos algo foneticamente similar ao que ouvimos ou mesmo cantamos o que esperamos ouvir. Quem nunca cantou “ um love, love, love com você” ao invés de “um lobby, hobby, love com você”?

Processamento Ascendente e Descendente

Isso tudo tem a ver com o que a Psicologia Cognitiva chama de processamento ascendente (bottom-up) e descendente (top-down). Esses nomes se referem as formas de compreender os estímulos que chegam aos nossos sentidos (visão, audição, tato etc).

Bem grosso modo, o processamento ascendente (de baixo pra cima) é responsável por juntar todas as informações disponíveis e, com isso, chegar à compreensão do que está acontecendo. Assim, podemos pensar que a compreensão seria o resultado da operação mental de união entre todas as partes.

Já o processamento descendente (de cima para baixo) é baseado no nosso conhecimento prévio que gera expectativas sobre o que está acontecendo a nossa volta. Assim, temos uma atenção direcionada ao estímulo e preenchemos as lacunas de informações mais fracas ou perdidas. Um exemplo de processamento descendente é o estranhamento causado pelo seguinte vídeo, do canal Castro Brothers:

Sobre o Slip of the Ear (erros de compreensão)

O embromation pode ser considerado a contraparte falada de um fenômeno de processamento fonológico, chamado Slip of the ear, teorizado pela linguista norte-americana, Zinny Bond. Esses desvios de escuta são uma espécie de ilusão auditiva e, a principal causa desse efeito é uma confusão ocorrida ao confundimos onde começa e onde termina cada palavra (os word boundaries ou, literalmente, “limites das palavras”).

Esse fenômeno é bastante comum em conversas espontâneas. Os “erros” de compreensão são facilitados pela diferença de línguas, de sotaques ou até mesmo de dialetos. Os desvios também são influenciados por qualquer tipo de ruído que possa atrapalhar a comunicação como ambiente barulhentos ou conexão ruim no caso de ligações telefônicas os video conferências. Ao não ouvir uma palavra ser pronunciada de forma plenamente compreensível, nossa mente busca encaixá-la em algo que faça mais sentido com o contexto de nossa conversa.

Mishearded Lyrics (letras mal compreendidas)

Além da fala espontânea, é esse tipo de fenômeno que nos faz ter a impressão de escutar “in New York, concrete jungle wet dreams tomato” ao invés de “in New York, concrete jungle where dreams are made of” na música Empire State of Mind da cantora Alicia Keys e do rapper Jay-Z. Ou até mesmo “you can dance, you can die having the time of your life” no lugar de “you can jive having the time of your life” na clássica música Dancing Queen do grupo Abba. Ao “escutarmos errado”, acabamos por perpetuar essa má interpretação ao cantar (o embromation) inclusive podendo induzir nossos colegas a duvidar da letra original.

Vimos que diferença de línguas ajuda na má compreensão das letras das músicas que ouvimos. Porém, por mais que seja mais comum fazermos o famoso embromation quando cantamos músicas em inglês, o fenômeno também ocorre quando cantamos músicas em português! Músicas conhecidas, como Malandragem da cantora Cássia Eller, podem ser alvo do embromation e, de repente, o príncipe é um sapo ao invés de chato, muito provavelmente influenciado pelos contos de sapos que viram príncipes, adicionando uma pitada de processamento descendente. Também não é difícil ouvir “Mas deixo você ir, sem lágrimas no olhar, só Deus me machuca”, da dupla Leandro e Leonardo, no lugar de “Mas deixo você ir, sem lágrimas no olhar, se o adeus me machucar”.

Mais curioso é que esse fenômeno já até gerou discussão na internet, como no caso da música Pacato Cidadão da banda Skank em que um internauta entendeu a letra como “macaco cidadão” e usou disso para fazer um comentário criticando o politicamente correto, sendo corrigido, depois, pelo próprio autor da música.

O embromation parece andar lado a lado com a cultura pop. Um bom exemplo é a série Stranger Things. Ambientada nos anos 70, a série conta com diversos clássicos da década como trilha sonora. Um desses clássicos é da banda The Clash, Should I stay or should I go, que não demorou muito para virar meme nas mãos ー ou devo dizer mouses e teclados? ーdos internautas brasileiros.

Mas não podemos nos esquecer do caso clássico do fenômeno: a música Ragatanga. Qualquer brasileiro que viveu nos anos 2000 já dançou a fatídica coreografia e dançou nos embalos da narrativa de Diego se esbanjando no baile. Nesse caso, o embration faz parte da letra da música, no refrão “Aserehe ra de re / De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi / An de bugui an de buididipi”. Por muito tempo, esse trecho era só uma sequência de sons que não fazia sentido. Até que um internauta publicou no site Buzzfeed a sua teoria sobre o que significaria o tal refrão. Thiagones, o autor do texto, após uma longa investigação, descobre que o trecho faz referência à uma música do trio Sugarhill Gang, chamada Rappers Delight. Segundo o internauta, a música foi escrita justamente para criar essa confusão na cabeça do ouvinte. Ao pensarmos em Diego, podemos dizer que deu certo.

Por fim, da próxima vez que tiver dúvidas sobre a letra de uma música que você gosta, vale a pena conferir nos materiais oficiais… ou não, pois essas falhas de interpretação são uma ótima fonte de memes =)

Para saber mais:

FERNÁNDEZ, Eva. The Hearer: Speech Perception and Lexical Access. In: FERNÁNDEZ & CAIRNS (Org.). Fundamentals of Psycholinguistics. Wiley-Blackwell: 2010.

UCL. Misheard lyrics introduction: ABBA’s ‘Super Trouper’ – Professor Andrew Nevins. 2013.

Ana Luiza Perez

Graduanda em Linguística, tem mais afinidade pela área da Análise do Discurso.

Julia America

Aluna de graduação do curso de Linguística na Universidade Estadual de Campinas

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