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Desinformação

O TikTok e a educação pró-vacinas

Foi-se o tempo em que fazer “dancinha” no TikTok (1) era exclusividade da Geração Z. Para além do entretenimento, o aplicativo tem sido usado por sites noticiosos, pela divulgação científica, por políticos e até pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Figura 1: OMS entra no TikTok para oferecer conselhos confiáveis e oportunos sobre saúde pública. Fonte: Captura de tela do perfil no TikTok da Organização Mundial de Saúde (OMS, “World Health Organization” em inglês). 29 jul. 2021

Popular entre os jovens, ele pode ser mais uma ferramenta para levar informações confiáveis sobre vacinas, em especial sobre as da Covid-19, diminuindo assim a hesitação vacinal de parte da população, fator que põe em risco a imunidade de grupo, preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que também entrou na plataforma desde 2020 para combater a desinformação. Mas, como tem sido essa comunicação até hoje?

A comunicação em saúde e o TikTok

Não é nova a adoção das mídias sociais na comunicação em saúde, fato demonstrado por um estudo (2) desenvolvido por pesquisadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos (EUA), publicado em 2013. Ele aborda essa utilização por organizações de saúde pública e profissionais de saúde, cuja finalidade é disseminar informação em massa para a promoção da saúde, construção de relacionamento médico-paciente, vigilância da saúde pública e melhoria de qualidade.

Em 2020, pesquisadores da Universidade Huazhong de Ciência e Tecnologia (China) e da Universidade de Brunel (Inglaterra) realizaram uma pesquisa (3) em que analisaram o conteúdo de 962 microvídeos enviados por 31 perfis de TikTok administrados pelos Comitês Provinciais de Saúde (PHC, na sigla em inglês para Provincial Health Committees) chineses durante o mês de agosto de 2019.

Dentre os 100 microvídeos mais curtidos entre todos os PHCs verificou-se que os temas mais produzidos foram sobre os profissionais de saúde (38%), seguidos de conhecimento sobre doenças, alimentação diária e reforma sanitária (para os quais não foram colocados percentuais exatos). O estudo concluiu (entre outras coisas) que esses usuários do TikTok se engajam mais quando os microvídeos estão correlacionados ao seu entendimento de difíceis termos médicos ou jargões.

A Comunicação sobre a COVID-19 no TikTok

Figura 2: Continue lavando essas mãos: captura de tela de postagem com foco em precaução pessoal contra a Covid-19. 
Fonte: Perfil no TikTok da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha (IFRC na sigla em inglês). 04 mai. 2020

Todos concordam que uma comunicação eficaz em saúde pública é fundamental, mas, será que a rápida expansão do TikTok foi aproveitada pelos agentes de saúde pública para informar e educar as pessoas sobre a Covid-19? 

Foi o que buscaram compreender os pesquisadores das universidades americanas de New Jersey e do Arkansas (4) ao analisar 331 vídeos com alguma hashtag relacionada à Covid-19 postados por perfis oficiais de oito agências de saúde pública (como o da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha) e pelas Nações Unidas (como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) até maio de 2020. Eles identificaram sete categorias de temas de vídeo: 

  1. vídeos com foco em precauções pessoais; 
  2. vídeos de incentivo;
  3. conhecimento da doença; 
  4. antiestigma / antirrumor;
  5. gestão de crise social;
  6. reconhecimento e;
  7. relatório de trabalho

Embora os vídeos com foco nas precauções pessoais tenham sido os mais prevalentes, o estudo não encontrou diferenças substanciais nas visualizações, curtidas, comentários e compartilhamentos de vídeos nos sete temas elencados, sendo mais populares aqueles que apresentam dança, devido às características da plataforma. Uma das conclusões é que, apesar do potencial de envolver e informar que tem essa mídia social, as agências e organismos de saúde pública ainda estão num estágio bastante inicial de criação e entrega de conteúdo. 

Para falar com os jovens

Um levantamento realizado entre janeiro e fevereiro de 2021 pelo think tank estadunidense Pew Research Center (5) mostra que 48% dos usuários norte-americanos do TikTok têm entre 18 e 29 anos e que 22%, têm entre 30 e 49 anos. Essas faixas etárias são importantes na comunicação de saúde da Covid-19 porque, embora as evidências anteriores tenham sugerido que a doença poderia ser menos grave entre os jovens (6), estudos recentes indicam que ela pode se prolongar mesmo entre adultos jovens sem condições médicas crônicas subjacentes (7) e que um em cada três jovens pode apresentar sintomas graves (8). 

Assim, por ser tão popular entre os jovens, o TikTok pode ter uma utilidade imensa na comunicação de saúde e consequente educação desse público, conforme se observa em recentes reportagens informando que os jovens estão usando o TikTok para aliviar seus medos do coronavírus. A empresa, atenta à questão, criou um centro de informações para oferecer aos seus usuários conteúdo confiável sobre a doença, além de, no Brasil, firmar parcerias com instituições de pesquisa em saúde, como é o caso da realizada com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em maio de 2021.

Health Literacy

Os pesquisadores de Huazhong e Brunel (3) informam que o Conselho de Estado da China mantém desde 2016 um Comitê de Promoção da China Saudável que realiza um trabalho sob a perspectiva holística da mídia na educação e comunicação em saúde pública com o objetivo de levar à sua população a alfabetização em saúde (ou health literacy, no termo em inglês). Esse movimento demonstra que a comunicação e a educação em saúde por meio de mídias integradas é uma preocupação nacional, naquele país.

Figura 3: Conhecimento e bom humor. Fonte: capturas de tela de vídeos dos perfis do virologista Rômulo Neris (@oromulismo), à esquerda (19 jan. 2021), e do ator Emerson Espíndola (@mister.emerson), à direita (27 jul. 2021).

No Brasil, há iniciativas pontuais, como o excelente trabalho realizado pelo ator Emerson Espíndola que após o início da pandemia criou um perfil no TikTok com o codinome Mister Emerson e tem produzido microvídeos muito interessantes sobre as vacinas contra a Covid-19, além de outros temas relacionados à saúde. Há também cientistas, como o virologista e biofísico  Rômulo Neris (9) que também divulga informações sobre as vacinas contra a Covid-19, além de conteúdo relacionado ao Coronavírus, visto que pesquisa o assunto. Em nível governamental, destaque para a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, em cujo perfil institucional são postadas informações educativas para o público em geral.

No plano federal, num governo que trocou o ministro da saúde 4 vezes em plena pandemia da Covid-19, fez campanha oficial contra o isolamento social e contra a obrigatoriedade das vacinas, chega a ser devaneio supor que se faça uso de formas inovadoras de comunicação em saúde pública. Nessa seara, o país está à mercê de uma maioria de criadores comuns de conteúdo que, embora bem intencionados, por não terem formação para tal, eventualmente, podem cometer equívocos e desinformar. 

Portanto, Health Literacy por meio do Tiktok já é uma realidade em canais oficiais de países e agências de saúde em diversas partes do mundo, ainda que num estágio inicial. O Brasil, dependente dos esforços dos divulgadores de ciência (profissionais ou não), infortunadamente, segue sem um direcionamento coordenado, o que pode estar custando centenas de milhares de vidas.

Update em 18/08/2021 – Entrevista a CBN 

Saiba mais:

(1) Desenvolvido na China, o TikTok é uma plataforma de mídia social que permite aos seus usuários a criação de vídeos curtos (microvídeos) de 15 a 60 segundos (noticiário recente informa esse tempo aumentou para até 03 minutos), possui funções de edição, permite a inserção de músicas, efeitos especiais e o compartilhamento com a comunidade. Dados de 2019, mostram que o aplicativo já tinha, à época, mais de 500 milhões de usuários ativos e um bilhão de downloads no mundo.

(2) HELDMAN, A.B., SCHINDELAR, J. & WEAVER, J.B. Social Media Engagement and Public Health Communication: Implications for Public Health Organizations Being Truly “Social”. Public Health Reviews, Vol. 35, N.º 1 (2013). Disponível em: https://doi.org/10.1007/BF03391698 Acesso em 26 jul. 2021.

(3) ZHU, Chengyan et al. How health communication via Tik Tok makes a difference: a content analysis of Tik Tok accounts run by Chinese Provincial Health Committees. International journal of environmental research and public health, v. 17, n. 1, p. 192, 2020. Disponível em: https://www.mdpi.com/1660-4601/17/1/192 Acesso em 25 jul. 2021.

(4) LI, Yachao; GUAN, Mengfei; HAMMOND, Paige; BERREY, Lane E. Communicating COVID-19 information on TikTok: a content analysis of TikTok videos from official accounts featured in the COVID-19 information hub. Health Education Research, 261-271, 2021. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7989330/ Acesso em 25 jul. 2021. 

(5) AUXIER, Brooke;  ANDERSON, Mônica.Social Media Use in 2021. Pew Research Center. Washington (EUA). 7 Abr. 2021. Disponível em: https://www.pewresearch.org/internet/2021/04/07/social-media-use-in-2021/  Acesso em 25 jul. 2021. 

(6) CASTAGNOLI, Riccardo et al. Severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2) infection in children and adolescents: a systematic review. JAMA pediatrics, v. 174, n. 9, p. 882-889, 2020. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2765169 Acesso em 25 jul. 2021.

(7) TENFORDE, Mark W. et al. Symptom duration and risk factors for delayed return to usual health among outpatients with COVID-19 in a multistate health care systems network. United States, March–June 2020. Morbidity and Mortality Weekly Report, v. 69, n. 30, p. 993, 2020. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7392393/ Acesso em 25 jul. 2021

(8) ADAMS, Sally H. et al. Medical vulnerability of young adults to severe COVID-19 illness—data from the national health interview survey. Journal of Adolescent Health, v. 67, n. 3, p. 362-368, 2020. Disponível em: https://www.jahonline.org/article/S1054-139X%2820%2930338-4/fulltext Acesso em 25 jul. 2021.

(9) Néris em 2020 era doutorando em Imunologia e Inflamação, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi um dos sete pesquisadores brasileiros selecionados para estudar a covid-19 com uma bolsa da Dimensions Sciences para estudar a genética do vírus e suas mutações, além de alterações observadas no indivíduo durante a infecção, como metabólicas e pulmonares. (Mariana Alvim, da BBC News Brasil. 08 jun. 2020). –

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