Quem tem medo da Indústria 4.0?

Imagem: Futurama Bender Free PNG Image (com alterações).

Nos últimos anos, temos acompanhado o desenvolvimento e a introdução de uma série de inovações tecnológicas que devem provocar mudanças significativas no modo como produzimos bens e serviços. Inovações de grande envergadura terão inserção em diversos setores da vida, modificando relações de trabalho, a maneira como nos comunicamos, nos relacionamos e nos movimentamos. Pela dimensão do impacto que se espera com estas novas tecnologias, o conjunto de mudanças que virão têm recebido a alcunha de Quarta Revolução Industrial, ou mais coloquialmente, Indústria 4.0.

Podemos dizer que as tecnologias fundamentais desta revolução estão progressivamente aparecendo com a introdução de inovações em áreas de inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos materiais, armazenamento de energia e computação quântica, para se dizer apenas as que estão em desenvolvimento avançado nesse momento. Falaremos em outras oportunidades neste blog mais sobre esse assunto, mas nesse momento, o ponto que buscaremos salientar neste breve texto é o fato de que estamos diante de uma evolução tecnológica que pode nos levar a uma condição de substituição do trabalho humano atual a um grau muito mais elevado do que aquele já experimentado com a introdução de máquinas automatizadas dentro das linhas de produção industrial.

Não só o setor industrial, mas também a agroindústria e o setor de serviços devem ser amplamente impactados. É muito difícil saber exatamente quando, em que proporção e quais setores serão afetados primeiro. O que é possível estimar é que, estando as economias abertas e interligadas da forma como estão hoje, assim que o uso dessas novas tecnologias for difundido em países centrais, rapidamente penetrarão as demais regiões do globo. A recente profusão de tecnologias digitais mais baratas por meio dos chamados ‘devices’ (smart-phones, tablets, smart-tvs, laptos, etc) e programas acessórios (Apps) nos antecipa a velocidade com que isso pode chegar às empresas e ao público em geral em um futuro não muito distante. No último relatório do Fórum Econômico Mundial sobre esse assunto, estima-se que em 2025, diversos setores econômicos passarão por um ponto de inflexão tecnológico com profundas mudanças na maneira de se conceber produtos e serviços. Dessa maneira, grande maioria dos segmentos produtivos, cedo ou tarde, deve ser afetada de maneira direta ou indireta. Pensemos no grau de informatização da economia há 20 anos atrás. A então chamada informatização atingia diretamente muitos setores econômicos, mas em um grande número de empresas não havia sequer a interligação em tempo real entre departamentos administrativos de uma única unidade produtiva. Mesmo assim, em poucos anos, processou-se uma revolução tecnológica que integrou informações corporativas a respeito de praticamente todo o volume do que é produzido e comercializado nas economias no mundo.

Quanto ao mundo do trabalho humano, isto é, o trabalho como o concebemos hoje dentro de uma estrutura de economia de mercado, há um grande desafio pela frente. Além de atividades mais rotineiras e repetitivas que na indústria já vinham sendo substituídas por máquinas há um bom tempo, há outras, que contemplam rotinas de maior complexidade, como por exemplo, telemarketing, medicina diagnóstica, rotinas de enfermagem, contabilidade, serviços de entrega e transporte, que poderão ser progressivamente substituídas por equipamentos e softwares capazes de responder aos problemas que se apresentam nestes tipos de função. Há também a perspectiva de que outras atividades, como por exemplo, consultoria econômica, assessoria jurídica, auditoria fiscal, atendimento médico geral e até mesmo cirurgias de alta complexidade também passem a competir com robôs e sistemas de inteligência artificial. Neste ponto, é difícil fazer uma predição, pois ainda não há um consenso sobre como se realizará a acomodação da sociedade frente a estas mudanças, mas é possível conjecturar que atividades humanas tanto de caráter técnico como analítico e executivo sofrerão grande impacto, dada a velocidade e a quantidade de dados com que os novos sistemas informacionais poderão responder aos problemas em diversas áreas do conhecimento.

Pintamos, portanto, um cenário não muito animador, considerando-se o papel dado à maioria dos seres humanos no mundo atual como fornecedores de capacidades físicas e intelectuais para a transformação criadora e produtiva. Queremos dizer que a inserção da maioria das pessoas no presente sistema econômico se faz pela criação de valor dada pelas transformações promovidas pelo trabalho humano. Nessa estrutura, uma pessoa cria valor e recebe certa recompensa (salário, etc). Há, no entanto, a perspectiva de que as máquinas poderão muito em breve substituir parte desse trabalho em um número grande de atividades, inclusive reproduzindo-se e melhorando-se autonomamente. Até o momento em que escrevo, não chegamos no que poderá ser o ponto inflexão, mas, como buscamos apresentar o fato dessa maneira, este pode tornar-se um desafio que deve ser tratado e que desde já devemos desenvolver reflexões a respeito.

Se, por outro lado, partirmos para uma discussão mais pragmática que busque dar uma resposta ao desafio num primeiro momento, podemos considerar, em caráter meramente indicativo, algumas ações práticas que os profissionais poderão desenvolver para adaptar-se ao novo paradigma tecnológico.  Dessa forma, uma requalificação com embasamento técnico suficiente para compreender como funcionam as novas tecnologias, para poder atuar de uma forma conjunta com tais ferramentas e para poder participar do processo de transformação seria no mínimo fundamental. Outra questão é que o próprio processo de transformação tecnológica também exigirá adaptações culturais, regulatórias, éticas, etc, em que o fator humano deverá ser imprescindível por um longo tempo: espera-se que o ser humano seja o primeiro a programar a máquina e que seja ele aquele que modificará tal programação quando as decisões da máquina não se adequarem ao ser humano.

Não é possível avaliar o impacto de tantas tecnologias penetrando ao mesmo tempo no mundo dos negócios nos mais diversos países. O que é possível imaginar é que adaptações serão necessárias e que novas demandas a partir daí devem ser criadas. Dessa maneira, novos nichos de negócios para produtos e serviços devem surgir para aqueles podem contar com algum capital para investir e que tenham desenvolvido as novas capacidades que serão requeridas. As novas ferramentas, por seu turno, ampliarão as possibilidades na área de pesquisa e desenvolvimento, dadas as novas grandezas em termos de informações e a velocidade com que estas serão tratadas.

Em resumo, os profissionais terão que se atualizar para uma nova etapa tecnológica, desenvolvendo mais amplos e mais variados conhecimentos nas diversas áreas do saber, desenvolvendo capacidade crítica para tratar e relacionar esses conhecimentos sem deixar de lado o que pode vir a se tornar um elemento muito importante, a empatia humana, pois a partir do momento que o elemento humano diminuir em nossas relações sociais de trabalho e de consumo ele justamente passará a nos fazer falta e não estará disponível nas máquinas.

Victor Augusto Ferraz Young, economista, pesquisador do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI) do Instituto de Economia da UNICAMP, Mestre e Doutor em Desenvolvimento Econômico nesta mesma Universidade, é também professor do curso de Especialização em Relações Internacionais na disciplina de Competitividade Internacional.

2 Comentários

  1. Interessante sua abordagem sobre a Indústria 4.0. A inteligência artificial já é uma realidade factual em nossas vidas, e estará cada vez mais presente nos próximos anos em todas as áreas da vida em sociedade. Acredito que equipamentos tecnológicos como: drones, smartphones e uma gama interplanetária de aplicativos tornarão nossas vidas mais fáceis e interconectadas com tudo. No entanto, ao capital humano compete a árdua tarefa de não se acomodar e buscar novos conhecimentos nessa tal propagada Indústria 4.0, senão será apenas o expectador da “Revolução das Máquinas”. Bem, a história demonstra que o homem, enquanto ser pensante, possui a primorosa capacidade de adaptabilidade, neste sentido, acredito que sabiamente iremos também saber lidar e operar com a Indústria 4.0. E que venham mais inovações… Por que é de mudanças e transformações que se constroem e reconstroem homens de valor.

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