Transplante fecal: cocô ajudando a salvar vidas

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O CASO

Uma mulher de 62 anos reportou um caso de diarréia contínua durante 8 meses. O distúrbio iniciou após um tratamento com antibióticos devido a uma cirurgia e uma infecção pulmonar. Durante esse período a paciente foi internada diversas vezes para hidratação intravenosa. Além disso, reclamava de alterações nos movimentos intestinais a cada 15 minutos, acompanhadas de grande urgência e ardência retal. O uso de fraldas era constante e ela estava confinada a uma cadeira de rodas, tendo perdido cerca de 27 Kg.

A EXPLICAÇÃO

O uso prolongado de antibióticos de amplo espectro está associado ao que chamamos de DAA (Diarreia Associada ao uso de Antibióticos). E por que isso ocorre? A causa mais comum é a morte das bactérias que compõem a microbiota indígena do hospedeiro, mas com a sobrevivência e persistência de uma bactéria em particular, o Clostridium difficile (DACD – diarreia associada ao C. difficile ||| atualização 19/08: colite pseudomenbranosa). Esse microrganismo tem se tornado um grande problema de saúde pública devido ao fato da emergência de novas e mais virulentas[1] linhagens – que causam doenças mais severas e com maiores taxas de fatalidade.

C. difficile: um bastonete gram-positivo

Mas… se todas as bactérias da microbiota morrem, por que o C. difficile sobrevive? Essa bactéria é capaz de produzir um endósporo de resistência[2]. Assim, ela fica latente até que as condições do ambiente (no caso, o intestino da paciente) se tornem favoráveis e passa a se multiplicar. Sem outras bactérias para competir pelo espaço, o clostrídio vai se multiplicando e domina todo o trato gastrointestinal da paciente.

Durante os 8 meses, a paciente fez uso de antibióticos (metronidazol e vancomicina) – mas a linhagem era resistente e o tratamento não adiantou.

O TRATAMENTO

O objetivo num caso como esse é eliminar a bactéria patogênica permitindo que uma nova microbiota se instale. Mas e quando o tratamento com antibiótico falha? Há muito se fala na possibilidade de se fazer uma tentativa de reestabelecer a microbiata e assim, curar a DACD. Isso poderia ser feito, transferindo-se a microbiota de um doador saudável, diretamente para o intestino da paciente. Um tratamento promissor, mas que até o momento ainda tem poucos relatos documentados.

Analisados os possíveis riscos, optou-se por esse tratamento. O doador seria o marido de 44 anos – que passou por uma séries de testes para avaliar a possibilidade e “qualidade” da microbiota como: ausência de doenças transmitidas via sangue, não utilização de antibióticos, ausência de doenças gastrointestinais e, principalmente, ausência de patógenos (dentre eles o C. difficile).

Para o “transplante”, as fezes do indivíduo foram diluídas em uma solução salina e injetadas diretamente no ceco da paciente por meio de uma colonoscopia.

Alexander Khrotus, M.D., da "University Minnesota" que usou a bacterioteriapia (transplante fecal) para curar a paciente que sofria de infecção intestinal por C. difficile

OS RESULTADOS

No segundo dia após o tratamento a paciente passou a apresentar movimentos intestinais normal, chegando a apresentar constipação nos meses iniciais. As dores foram gradualmente desaparecendo e após um mês, C. difficile não foi detectado. Outros poucos eventos ocasionais se resolveram sem terapia. Em 6 meses, a paciente já reportava fezes sólidas diárias.

NOTAS

[1]Chamamos de PATOGÊNICA uma bactéria que tem capacidade de causar danos ao indivíduo. Essa bactéria pode ser mais ou menos VIRULENTA de acordo com as “ferramentas” que ela possuir. Em outras palavras, virulência é o grau de patogenicidade do microrganismo. Às “ferramentas” damos o nome de “FATORES DE VIRULÊNCIA” e podemos citar: flagelos: permitem a movimentação da bactéria; os pili, que atuam como estruturas de adesão da bactéria nas células do hospedeiro; cápsulas, que deixam os micróbios invisíveis ao sistema imune; a capacidade de formação de biofilmes; além da capacidade de produção de toxinas e de formação de esporos de resistência (endósporos).

[2]É importante ressaltar que ao contrário do que estamos acostumados a pensar, os esporos bacterianos não estão associados à reprodução desses microrganismos, mas com a sobrevivência em condições de estresse como: temperaturas elevadas, seca, e presença de substâncias tóxicas no meio. São comumente produzidos pelos gêneros Bacillus e Clostridium.

Leia mais sobre microbiota e suas propriedades aqui no blogue!

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ARTIGO CONSULTADO

Khoruts A, Dicksved J, Jansson JK, & Sadowsky MJ (2010). Changes in the composition of the human fecal microbiome after bacteriotherapy for recurrent Clostridium difficile-associated diarrhea. Journal of clinical gastroenterology, 44 (5), 354-60 PMID: 20048681

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