Micróbios ao vento…

O texto abaixo é uma tradução e adaptação livre de “A BBVA Foundation research project identifies the bacteria arriving daily from the Sahara Desert” que foi publicada no site da Fundacíon BBVA, no dia 14/07/2010.

Diariamente, milhões de microrganismos chegam à Espanha, tendo partido do deserto do Sahara e da região de Sahel – ah, eles chegam pelo ar e não, não é de avião!

Louis Pasteur mostrou em 1861 que os micróbios podem ser transportados pelo ar, mas só recentemente descobriu-se que bactérias, fungos e vírus podem viajar por milhares de quilômetros em partículas de poeira. Pela primeira vez uma equipe de cientistas analisou essa grande viagem de microrganismos através de técnicas biomoleculares. Além de identificarem as espécies, descobriram que elas colonizam lagos de grandes montanhas em Sierra Nevada e nos Pireneus – e esse fenômeno está se elevando com a mudança climática.

Essa “migração” é maior na primavera e no verão, e tem ganhado impulso nos últimos anos – às vezes atingindo números 10 vezes maiores. Acredita-se que isso se deve à grande seca que tem atingido a região de Sahel há cerca de 30 anos; além da perda da cobertura vegetal devido a atividades agrícolas. O que se calcula é que algo entre 60 e 200 milhões de toneladas de poeira deixe o Saara todos os anos. E trata-se de um material rico em nitrogênio, fósforo e ferro, que tem um papel importante no crescimento do plâncton marinho e na fertilização de florestas tropicais. A poeira saariana se espalha por todo o planeta, mas os ventos predominantes (provenientes do leste) fazem com que as regiões sejam as Ilhas Canárias e o Caribe (veja a foto abaixo – clique para ampliar).

Para realizarem esse “censo” o grupo de pesquisadores coletaram amostras do ar em locais onde seria mais fácil detectar a “chuva de microrganismos”, como nas regiões dos lagos das grandes montanhas. Esses locais ainda não foram diretamente afetados pela ação antrópica e, por isso, tem grande valor no estudo desses microrganismos invasores. Os lagos escolhidos estão em Serra Nevada e nos Pireneus, além dos Alpes (Áustria), a Patagônia argentina, as ilhas Bylot no ártico (Canadá) e no arquipélago South Shetland (Antártida).

Os pesquisadores recolhem o ar, filtram-no e extraem o DNA dos microrganismos ali presentes. Analizando os genes, pode-se fazer a identificação dos microrganismos (algo como: esse gene é dessa bactéria, esse outro, daquela outra bactéria – tudo baseado na sequencia das bases nitrogenadas A, C, T e G).

Os resultados demostram que Sierra Nevada e os Pireneus albergam microrganismos que também são encontrados no solo da Mauritânia.

Impressionante, não!?

Dentre os microrganismos foram identificadas espécies de Pseudomonas (gênero de bastonetes Gram-negativos que possuem características que os permitem colonizar uma ampla gama de nichos), Staphylococcus (gênero de cocos Gram-positivos que possui algumas espécies que habitam a pele humana); Acinetobacter (gênero de cocos Gram-negativos que contribuem para a mineralização do solo. Em termos gerais, são considerados de baixa patogenicidade para humanos.

E como isso tudo pode estar afetando os ecossitemas locais? O aumento da poeira tem grandes repercussões nessas regiões dos lagos das grandes montanhas, devido a presença de nutrientes que fertilizam os lagos alterando as comunidades microbianas. Algumas dessas alterações podem ser danosas. Na verdade, essas alterações podem estar afetando a fauna e a flora de outros ecossistemas. Corais do Caribe, por exemplo, estão sofrendo um declínio devido ao excesso de deposição de poeira.

Outra questão que permanece é a de como os microrganismos permanecem biologicamente ativos após a longa jornada. A poeira viaja a uma altitude de 2 a 4 Km, e estão expostas a um ambiente extremamente seco e a radiações nocivas – e nem todos os microrganismos encontrados formam esporos. Um outro mecanismo de defesa tem que estar presente. O que os pesquisadores sugerem é que os microrganismos possam aumentar a quantidade de pigmentos protetores, que se aderem a partículas mineirais, conferindo, assim, um grau de proteção a esses micróbios.

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AQUI, uma reportagem da revista Quem (20/02/2009) sobre este assunto, que achei enquanto procurava uma imagem para esse post

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