Combatendo o pensamento conspiracionista com ciência

Por Dayane Machado (@dayftmachado) e Minéya Fantim (@mifantim)

Os boatos se tornaram um tema recorrente no dia a dia da população após a confirmação dos primeiros casos de coronavírus em território brasileiro. Popularmente conhecidas como “fake news”, as desinformações ganharam maior projeção, principalmente nas redes sociais, em meio às incertezas criadas pela pandemia.

“Fake news” [1], no entanto, é um termo que os cientistas têm abandonado nos últimos anos.

O primeiro motivo para essa mudança tem sido a apropriação do conceito por políticos de vários países para criticar coberturas jornalísticas que desagradam seus governos.

A segunda razão é que as desinformações não são simples mentiras — ou notícias falsas, como o termo em inglês indica. O problema é muito mais complexo, envolve diferentes aspectos e interesses e impacta toda a sociedade.

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As teorias da conspiração são um tipo de desinformação que se fortaleceu nos últimos meses. O momento de insegurança somado às medidas desastrosas[2] do governo em relação à Covid-19 confundem a população e podem contribuir para uma onda de desconfiança em instituições tradicionais, como universidades, jornais e órgãos públicos de saúde.

Atordoada, a população pode recorrer a espaços mais convenientes, como grupos de Facebook[3] e de WhatsApp[4], para se informar e tomar decisões, o que aumenta a possibilidade de exposição a desinformações perigosas.

A ciência oferece importantes reflexões e estratégias para reagir a esse cenário. Pesquisas do campo da divulgação científica e de áreas correlatas nos ajudam a compreender porque as desinformações seduzem as pessoas e sugerem caminhos para diminuir o alcance desse tipo de conteúdo.

Com esse objetivo, o Manual das Teorias da Conspiração (Stephan Lewandowsky e John Cook) tem como uma de suas premissas reunir dicas sobre como identificar o pensamento conspiracionista — e, em contrapartida, teorias da conspiração.

O manual apresenta os sete sinais do pensamento conspiratório e propõe o acrônimo CONSPIR (em inglês) para relacioná-los:

C – Contradictory (Contradição): crença simultânea em ideias mutuamente contraditórias; 

O – Overriding suspicion (Suspeita absoluta): ceticismo niilista com relação a narrativas oficiais; 

N – Nefarious intent (Intenção nefasta): presunção de que os supostos conspiradores são motivados por intenções nefastas; 

S – Something must be wrong (Algo deve estar errado): concepção de que a narrativa oficial se baseia em uma fraude; 

P – Persecuted victim (Vítima perseguida): autopercepção de vítima de uma perseguição organizada e, ao mesmo tempo, de herói combatendo conspiradores; 

I – Immune to evidence (Imune a evidências): as teorias se autoajustam a evidências que as contrariam;

R – Re-interpreting randomness (reinterpretação da aleatoriedade): ideia de que nada acontece por acaso.

Para combater esse problema, o manual traz uma série de estratégias que você encontra também na versão em português que acaba de ser publicada. Boa leitura!

Para saber mais:

[1] https://edoc.coe.int/en/media/7495-information-disorder-toward-an-interdisciplinary-framework-for-research-and-policy-making.html

[2] https://www.washingtonpost.com/opinions/global-opinions/while-coronavirus-deaths-spike-in-brazil-bolsonaro-focuses-instead-on-warring-with-his-enemies/2020/06/10/2ce7be0c-aa71-11ea-94d2-d7bc43b26bf9_story.html

[3] https://www.vice.com/en_us/article/k7edze/hairdryers-incense-and-garlic-water-facebook-is-still-letting-people-spread-fake-coronavirus-cures

[4] https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-revela-dados-sobre-fake-news-relacionadas-covid-19

Sobre Erica Mariosa
Graduação em Comunicação Social em Relações Públicas - PUCCampinas. Pós Graduação em Jornalismo Científico - Labjor/Unicamp. Mestra em Divulgação Científica e Cultural - Labjor/Unicamp.  Coordenadora de Comunicação Interna e Externa - Divulgação Científica - Mídias Sociais do Blogs de Ciência da Unicamp

2 Comentários em Combatendo o pensamento conspiracionista com ciência

  1. Adorei este texto Erica, ele casa bem com uma outra coisa que dá razão às teorias conspiratórias, que é a “existência de padrões”. Tipo, se você fuçar muitos dados de diferentes maneiras, é certo que encontrará padrões entre eles, por exemplo a quantidade de laranjas na sua casa e os dígitos finais do seu cpf. Padrões estes que não querem dizer nada, mas por vezes dão uma falsa força para estas teorias 🙂

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