Viver em sociedade no “novo normal” – os desafios da divulgação científica no Brasil

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Por Giselle Soares e Callenciane Ferreira

O que é o “novo normal”?

O conceito de normalidade é elástico, abrangente e depende de um determinado período histórico. Pensar sobre normalidade envolve considerar sobre qual contexto estamos falando seus parâmetros e critérios para medir algo.

Nesse sentido, a pandemia de Covid-19 trouxe muitas mudanças ao convívio em sociedade: a adaptação ao sistema de home office, as restrições de circulação, o uso de máscaras faciais, entre outras adequações, que se tornaram conhecidas como o “novo normal”.

Esse termo também vem sendo usado para representar os sistemas socioeconômicos potencialmente transformados, como resultado de problemas decorrentes da doença.

Já no Brasil, o termo é constantemente usado para o retorno das atividades mesmo com elevado número de óbitos e infectados, como em São Paulo, por exemplo, que foi oficialmente o primeiro Estado a iniciar esse processo de reabertura de comércios em geral.

A busca pelo retorno à normalidade ou a um “novo normal” foi, conforme a pandemia avançava, ampliada e aliada a um misto de sentimentos, como medo e ansiedade pelo retorno das atividades e relações cotidianas, que antes eram entendidas como “normais”, além das preocupações com a recuperação econômica e com os impactos em larga escala. 

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De @desenhosdonando

Diante deste cenário e antes mesmo desse processo de reabertura,  pesquisadores, profissionais de saúde, jornalistas e divulgadores de ciência se uniram no País, a fim de proporcionar à população as melhores informações disponíveis sobre a doença.

Podcasts, vídeos e lives, tanto no YouTube quanto em outras mídias sociais, passaram a ser mais utilizados como ferramentas de divulgação científica, sendo a Internet uma das ferramentas para o acesso aos mais variados tipos de informação.

Conforme Vicente, Corrêa e Sena (2015) comentam “a informação é uma necessidade social”. Nesse sentido, Brüggemann, Lörcher e Walter (2020) pontuam que a ascensão das mídias digitais engajou uma multidão de vozes na comunicação científica, além de jornalistas e cientistas. Sendo assim, tanto redes sociais quanto mídias sociais podem conter disseminação de informações falsas (LI HO-Y et al, 2020).

Dessa forma a importância de checar as informações coletadas, combatendo a propagação de fake news, especialmente em uma pandemia deve ser reforçada. Principalmente ao considerar que as políticas de saúde são atravessadas pelo discurso do direito à informação e à comunicação como indissociável do direito à saúde, pois:

“(…) o objetivo deve ser, minimamente, estabelecer um debate público sobre temas de interesse e garantir às pessoas informações suficientes para ampliação de sua participação cidadã nas políticas de saúde.(ARAÚJO, CARDOSO, 2007).

No Brasil, os esforços de comunicação ainda estão longe de serem suficientes no sentido de de alertar para as medidas necessárias ao enfrentamento da doença – além do expressivo aumento dos discursos negacionistas e de fake news – em um País de dimensões continentais, com regiões e estados de perfis socioeconômicos distintos e dificuldades diversas em conter a disseminação do vírus.

Compartilhado de: https://www.instagram.com/desenhosdonando/

Recentemente, em 15 de dezembro de 2020, o País acumulava mais de 182 mil mortos pela doença (BRASIL.IO.). Poucos dias antes, o Governo Federal entregou ao Supremo Tribunal Federal (STF) o “Plano Nacional de Operacionalização Contra a Covid-19”, ao qual mais de trinta pesquisadores que integravam o grupo técnico não tiveram acesso antes da publicação, apesar de seus nomes constarem no documento.

Diante do cenário catastrófico e da propagação de informações falsas partindo do próprio governo federal, nos resta o questionamento: “O que ainda podemos fazer?”

*Esse texto é uma adaptação do artigo "Covid-19 e o “Novo Normal” no Canal do Biólogo Atila Iamarino no YouTube", apresentado pelas autoras no GP de Comunicação, Divulgação Científica, Saúde e Meio Ambiente do 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 
**Para conferir os slides: https://db138ea9-cf2c-4ef8-9a00-41762a1078d0.filesusr.com/ugd/b82b28_b6a1454c17d145cb922ce76143639e38.pdf

Saiba Mais:

ARAÚJO, I. S. de; CARDOSO, J. M. Comunicação e Saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2007. Edição Kindle.

BRÜGGEMANN, M.; LÖRCHER, I.; WALTER, S. Post-normal science communication: exploring the blurring boundaries of science and journalism. Journal of Science Communication, v. 19, n. 03, 1 jun. 2020.Disponível em:<https://jcom.sissa.it/archive/19/03/JCOM_1903_2020_A02>. Acesso em 15 de julho de 2020.

DOYLE, Iracy. Estudo da normalidade psicológica. Arq. Neuro-Psiquiatr.,  São Paulo ,  v. 8, n. 2, p. 155-170,  junho  1950 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X1950000200004&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 17 de julho de 2020. 

LI, H. O.-Y. et al. YouTube as a source of information on COVID-19: a pandemic of misinformation? BMJ Global Health, v. 5, n. 5, p.1-6,  maio 2020. Disponível em: <https://gh.bmj.com/content/bmjgh/5/5/e002604.full.pdf>. Acesso em 15 de julho de 2020.

ORNELL, F. et al. EDITORIAL EDITORIAL. [s.l: s.n.]. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/ufrgs/noticias/arquivos/pandemia-de-medo-e-covid-19-impacto-na-saude-mental-e-possiveis-estrategias>. Acesso em 15 de julho de 2020.

‌RECUERO, R. O que é Mídia Social?. 2008. Disponível em: <http://www.raquelrecuero.com/arquivos/o_que_e_midia_social.html>. Acesso em 18 de julho de 2020.

RECUERO, R. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.

SAMUEL, Jim et al. Feeling Like it is Time to Reopen Now? COVID-19 New Normal Scenarios Based on Reopening Sentiment Analytics. Preprint submitted to Journal XYZ, 2020. Disponível em:<https://arxiv.org/abs/2005.10961>. Acesso em 17 de julho de 2020.

VICENTE, N. I.; CORREA, E. C. D.; SENA, T. A. divulgação científica em redes sociais na Internet: proposta de metodologia de análise netnográfica. (Comunicação Oral). XVI Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (XVI ENANCIB). GT 7 – Produção e Comunicação da Informação em Ciência, Tecnologia & Inovação. João Pessoa, PB, 2015. Disponível em:<http://www.ufpb.br/evento/index.php/enancib2015/enancib2015/paper/viewFile/2853/1160>.Acesso em 15 de julho de 2020.

Sobre Erica Mariosa
Graduação em Comunicação Social em Relações Públicas - PUCCampinas. Pós Graduação em Jornalismo Científico - Labjor/Unicamp. Mestra em Divulgação Científica e Cultural - Labjor/Unicamp.  Coordenadora de Comunicação e Mídias Sociais e Divulgadora Científica do Blogs de Ciência da Unicamp

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