Divulgação Científica e o Ensino Médio: O caso do Curso de Férias da Unesp Botucatu

Vamos começar este texto reforçando que a divulgação científica não se restringe apenas às redes sociais, (como: Facebook, Youtube ou o Instagram, por exemplo) para acontecer, é importante valorizar outras formas de divulgação científica que já eram realizadas muito antes do advento da internet.

Os eventos, feiras, museus, atividades realizadas em escolas e universidades, principalmente as edições de férias incentivam o diálogo, a troca de saberes cotidianos e aproximam seu público ao método científico (observação, pergunta, testagem, apresentação de resultados).

Um exemplo disso é o Curso de Férias que ocorre todo começo de ano no campus da UNESP de Botucatu e que faz parte do projeto de extensão “Difundindo e Popularizando a Ciência na UNESP: Interação entre Pós-Graduação e Ensino Básico”.

Atividade lúdica em “Experimentando Genética”, uma das modalidades do curso de férias.
Arquivo da organização

Em Janeiro deste ano o Curso de Férias da Unesp Botucatu terá sua primeira versão on-line, a atividade está em sua 15ª edição e segue gratuita para estudantes de ensino médio da rede pública de ensino.

Foram selecionados 78 estudantes do ensino médio, de escolas públicas de Botucatu e região, para participar gratuitamente do Curso de Férias 2021 da Unesp Botucatu.

Professores e monitores do curso da Unesp contataram professores de escolas para receberem indicações de nomes e informações de contato de estudantes com perfil interessado e criativo em ciências, especialmente biologia.

O curso contará com seis modalidades ao mesmo tempo: “Experimentando Genética”, “Investigando a Vida das Plantas”, “Reprodução de A a Z”, “Virando a Célula do Avesso”, “Do amarelão às picadas de cobra: um passeio pelas doenças tropicais” e “A Ciência por trás das Jaulas e Gaiolas”. A vivência costuma ser intensa com seis dias de atividades em tempo integral.

A 15ª edição do curso está agendada para o período de 18 a 23 de janeiro de 2021. As novidades experimentais dessa edição é que será pela primeira vez de forma on-line, através das plataformas Google Classroom e Google Meet

Pela maior limitação de vagas, também terá uma única turma que participará de todas as modalidades juntas (e não uma turma por modalidade), sendo mais interdisciplinar.

Independente dos formatos, um dos principais resultados esperados do curso continua sendo mostrar para adolescentes que a ciência vai além dos laboratórios e dos livros didáticos, despertando jovens talentos.

Somando todas as edições, cerca de dois mil estudantes já participaram do curso, que faz parte do Projeto de Extensão Universitária “Difundindo e Popularizando a Ciência na Unesp: Interação entre Pós-Graduação e Ensino Básico”.

Cassiane Martins Barbosa é um desses dois mil estudantes que se beneficiaram do curso de férias, e depois como universitária, atuou como monitora por anos, servindo de exemplo para inúmeros adolescentes da rede pública da região.

Há pouco mais de uma década, Cassiane fez o curso como aluna do ensino médio e isso foi determinante para ela decidir fazer biologia e se tornar professora. Hoje, além de doutoranda em Genética, ela é a atual Professora Coordenadora de Tecnologia Educacional da Diretoria de Ensino da Região de Botucatu, que pertence à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

“Naquela época, pensava em realizar um curso técnico e trabalhar para ajudar meus pais e ter minha independência financeira. No entanto, quando participei do curso de férias, minha visão de conhecimento, ciência e universidade foram expandidas. Conheci a ciência como algo interessante e aplicável, percebi que poderia fazer parte desse mundo”.

A partir desse horizonte desvendado, ela se dedicou mais aos estudos do ensino médio, prestou vestibular, ingressou na graduação de ciências biológicas na Unesp de Botucatu e, segue até hoje, paralelamente ao seu cargo de professora, com pesquisas na área de Genética aplicada à Conservação Animal.

“Na graduação e pós-graduação, adquiri um amplo conhecimento e experiência de mundo que me auxiliaram na profissional que me tornei”, acrescenta.

Em outras palavras, não apenas os estudantes do ensino médio aprendem com a experiência do curso, mas também os monitores.

Clelia Akiko Hiruma-Lima, que é docente da Unesp de Botucatu e atual coordenadora da Rede Nacional de Educação e Ciência, ressalta:

“Muitos dos pós-graduandos nunca tiveram experiências didáticas e essa é a primeira vez que eles se deparam com essa oportunidade e isso tem relação com a aplicação do método científico. Nenhuma pergunta é respondida de imediato pelos pós-graduandos (monitores), mas os alunos são instigados a pensar e formular hipóteses sobre suas dúvidas, testar essas hipóteses, colher resultados e divulgar suas conclusões em uma feira de ciências”.

Para tanto, as estratégias usadas são variadas, o que torna o aprendizado tão dinâmico quanto divertido:

“Não existem aulas clássicas, os alunos aprendem ciências com paródias de músicas, jogos, gincanas, peças de teatro e experiências no laboratório”.

Há quem duvide que o formato on-line do curso em janeiro terá o mesmo sucesso, considerando a perda do dinamismo físico e o cansaço de muitos adolescentes diante dessa toada de aulas on-line por meses. Mas Clelia rebate:

“A pandemia trouxe várias mudanças e temos que nos adaptar a elas. Temos grandes expectativas em relação ao formato do curso de férias com atividades remotas e pretendemos oferecer grande interatividade entre os pós-graduandos e os alunos do ensino médio. Estamos nos preparando para que a essência do curso não seja perdida. Será um grande desafio que esperamos superar em 2021”.

No Brasil, a pesquisa de Percepcão Pública da C&T no Brasil em 2019 do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência (INCT-CPCT) demonstrou que a maioria da população jovem não sabe citar nem o nome de uma instituição nacional de pesquisa.

No caso de Botucatu e região, esse curso de férias serve, no mínimo, para adolescentes do Ensino Médio público saberem que a UNESP não é apenas um Hospital (como muitos pensam) e que a universidade e a ciência também podem fazer parte da vida deles! É claro que nenhum curso de férias ou veículo de comunicação, por si só, vencerão a lacuna da cultura científica na sociedade brasileira.

Até porque para tanto, a educação formal das escolas precisa melhorar muito, o que é refletido inclusive no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2019 que apontou um cenário preocupante em relação ao desempenho de estudantes do Ensino Médio (E.M.) em todas as disciplinas. Mas não há tempo para esperar e sim agir, é importante unir forças com qualquer oportunidade/atividade que fertiliza a cultura científica entre jovens!

*Este texto teve colaboração de Adriane Wasko e a Edição de Erica Mariosa Moreira Carneiro

Saiba mais:

Pesquisa completa – Percepcão Pública da C&T no Brasil em 2019

Museus e centros de ciências itinerantes: possibilidades e desafios da divulgação científica

Difundindo e popularizando a ciência na UNESP: interação entre pós-graduação e ensino básico

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