Como divulgar meu conteúdo de Divulgação Científica?

Ao contrário do que muita gente pensa e comenta comigo, é possível SIM, fazer comunicação sem a internet e sem as mídias sociais, afinal ela (a internet) foi criada só no fim do século XX e a comunicação e a divulgação científica já era realizada antes dessa tecnologia.

Confira um pouco sobre essa história no final desse texto [1] [2].

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Mesmo assim, é comum percebermos a dificuldade de pensarmos na divulgação do conteúdo de divulgação científica para a sociedade sem utilizar de recursos,

(que a princípio parecem simples, fáceis e de grande rentabilidade, mas também precisam de planejamento e estratégias para serem executadas),

como: a panfletagem digital [3], a divulgação paga nas mídias sociais oferecidas pelas próprias plataformas ou distribuição de produtos e serviços de forma gratuita a influencers [4] em troca de postagens em suas mídias sociais.

E antes de sair por aí e começar a distribuir seu conteúdo a “torto e a direito” (como diria minha vó Luzia) é preciso refletir um pouco sobre essas perguntinhas:

Para quem você está divulgando?

Para começar a definir o seu público é preciso, antes de mais nada, entender a diferença entre público alvo e persona.

Público alvo se refere a um grupo de pessoas que se encaixam dentro do mesmo padrão. Por exemplo: Mulheres, de 30 a 40 anos, com filhos em idade escolar no fundamental 1 e 2, separadas, com formação superior e de classe média.

Persona se refere a uma pessoa real ou fictícia que possui as características do seu público ideal. Por exemplo: Cristina, 38 anos, mora com a mãe de 70 anos e dois filhos de 12 e 14 anos, trabalha como vendedora de produtos farmacêuticos, de classe média, moradora de São Paulo, utiliza de transporte público, gosta de restaurantes e museus…

Percebe como a persona te proporciona muitos mais informações comparado ao público alvo?

Os dados do público alvo podem ser conseguidos em plataformas de métricas, nas mídias sociais ou uma pesquisa rápida diretamente com o público que já vem frequentando o seu canal, contudo ao produzir o conteúdo de divulgação científica esses dados podem não ser suficientes, será preciso também, imaginar para quem está produzindo, ou seja, qual o universo que esse público frequenta, sua linguagem e referências. E a partir desse público montar as estratégias de comunicação.

Sugestão de Leitura sobre o assunto: Comunicação sobre ciência – pensando no público

Como divulgar para o público que você escolheu?

Após definir para quem você quer falar é preciso começar a adaptar seu conteúdo para este público.

Pensar em como ele se comporta, qual veículo de mídia ele usa mais, qual cultura consome (música, livros, filmes, séries), se o uso de jargões científicos, gráficos e uso línguas estrangeiras é adequado.

Vejamos esse exemplo de uso de linguagem adaptada ao público:

Fonte: Canal Castelo Rá-Tim-Bum no Youtube

Nesse vídeo do programa Castelo Rá-Tim-Bum (1994 – 1997) a Morgana explica como funciona e para que serve a vacinação para sua ajudante Adelaide.

O programa tinha como público o infanto juvenil, que tinham acesso a televisão aberta, sua linguagem, portanto, foi planejada para ser simples e fácil de ser entendida, por qualquer idade e nível escolar. O uso do lúdico como a personagem da Morgana (bruxa) e a personagem Adelaide (gralha – fantoche) tem seu propósito de atrair a atenção e prender este público para que a informação (importância da vacinação) seja passada.

Qual veículo de mídia escolher?

Como disse no início desse texto, comecemos entendendo que a divulgação do conteúdo científico não precisa ficar restrito a internet, existem outras tantas possibilidades de divulgação e todas elas exigem entendimento do seu funcionamento.

Portanto, cada veículo tem uma forma de trabalho, um tempo de exposição, exige expertises diferentes e condições financeiras mais ou menos custosas e destinadas a públicos diferentes que podem mudar ao longo do tempo.

Então para pensar sobre qual veículo utilizar é preciso levar em conta:

  • Qual a facilidade e frequência de uso que seu público tem com esse veículo?
  • Esse veículo é responsivo caso seu público aumente ou mude?
  • Quanto de dinheiro, expertise e tempo terei que dispor para manter esse veículo?
  • É possível manter o diálogo com meu público nesse veículo?

Esse exemplo das mídias sociais explicadas com chá mostra como cada mídia social foi planejada para funcionar. Sendo assim, ao divulgar seu conteúdo em cada uma delas é preciso repensá-la de forma que se adapte as características e exigências de cada veículo.

Fonte: Erica Mariosa Moreira Carneiro – 05/2020

Esse ideia de adaptação também cabe em veículos que estejam fora da internet como a Televisão, o rádio e os impressos, por exemplo. Ao participar de uma entrevista nem todo o conteúdo explicado vai ao ar ou no impresso, sendo assim, é possível que o jornalista ou o editor precise diminuir o conteúdo ou editá-lo.

Dica: Pense em formas simples e claras de explicar seu conteúdo, evite jargões e, se possível, prepare imagens e vídeos para auxiliar na composição da matéria.

A importância de entender a cultura que seu público consome

Compartilhado de @ocaradosquadrinhos Arte por @leandroliporage

Aliar suas estratégias de divulgação a cultura do seu público ajuda a quebrar bolhas e tornar o conteúdo mais chamativo.

Observem esses exemplos:

No nosso Especial de Cultura Pop, o Eduardo Sato (Torta de Maça Priomordial) escreveu um texto explicando como funciona a Mecânica Quântica a partir do Guia do Mochileiro das Galáxias, esperávamos que o texto atraísse um público infanto juvenil e vestibulando, contudo tivemos um acesso grande do público jovem e adulto.

Ao refletirmos e discutirmos sobre essa mudança de público interessado no texto, percebemos que essa série de livros, apesar de ser uma referência na cultura literária e nerd, não possui um trabalho de divulgação para a novas gerações, sendo que sua última produção foi através de um filme lançado em 2005 e, apesar do “Guia” não fazer parte dos assuntos mais comentados da geração infanto juvenil e vestibulandos, ainda sim, está na memória do público jovem e adulto, justificando, assim, essa mudança de público nos acesso.

Outro exemplo foi o recente anúncio do lançamento do novo livro da saga Crepúsculo da escritora Stephenie Meyer, o Midnight sun ou Sol da meia-noite que narrará a história retratada nos livros pela perspectiva do Edward Cullen (vampiro), mostrando acontecimentos inéditos e, podendo trazer a tona discussões sobre o comportamento compulsivo, agressivo e controlador do vampiro, pouco percebida e comentada pelo público da época do lançamento dos outros livros e filmes da saga.

Sugestão de leitura: Como Midnight Sun pode mudar sua memória do romance de Bella e Edward

A saga Crepúsculo distribuiu mais de 100 milhões de cópias pelo mundo e lançou cinco filmes com a arrecadação de mais de US$ 3 bilhões. E apesar dessa literatura ter rendido uma série de críticas literárias e cinematográficas, na época, ainda sim, foi um grande exemplo de sucesso.

E como o Crepúsculo pode ser usado para divulgar ciência?

Com esse meme aqui:

Fonte: Memedroid – https://pt.memedroid.com/memes/detail/1397985 por finn_o_heroi

Essa é uma maneira interessante de explicar o funcionamento do Sol e da Lua aproveitando um gancho cultural mundial.

Ultimas dicas:

  • Acompanhe canais que admira e seu público consome.
  • Discuta os erros e acertos das estratégias que esses canais usam e repense suas próprias estratégias.
  • Não esqueça que estamos tratando de divulgação científica, então abra espaço para o diálogo, tenha ética e embasamento.
  • Lembre-se que os algoritmos as vezes atrapalham mas é possível lidar com eles, estudando e entendendo como cada plataforma funciona. Sugestão de leitura 1 sobre o assunto

Ultimo exemplo, eu juro!

Com a recente quarentena, (devido ao Covid-9, aliás conheça nosso Especial sobre a Covid-19) observamos um aumento expressivo de lives nas redes sociais, distribuindo diversos tipos de conteúdo, como: shows, tutoriais, palestras, discussões, etc.

E aliado as aulas on-line das universidades e nas redes de ensino pública e privada, muitos públicos relataram que se afastaram dos canais devido ao excesso de vídeos e lives que “precisavam” assistir.

Mas em meio a essa avalanche de lives, destaca-se a estratégia utilizada pelo game Fortnite que disponibilizou diversos shows com artistas famosos (e muitos deles jogadores do game).

No ultimo dia 22 de abril foi a vez do rapper americano Travis Scott, que lançou singles e atraiu 12 milhões de jogadores em partida durante o show e mais outros 2 milhões acompanhando por lives no YouTube e Twitch.

Os shows permitem participações de vários artistas ao mesmo tempo, interatividade dos jogadores e premiações. Confira o show no canal oficial do Travis Scott:

Para saber mais:

[1] Trajetória Histórica do Conhecimento Científico -http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/338631

[2] Infográfico: Breve histórico sobre a evolução do Jornalismo e a Divulgação Científica – Baseada na reportagem da Revista Comciência – http://www.comciencia.br/evolucao-do-jornalismo-na-divulgacao-cientifica/

Fonte: Erica Mariosa Moreira Carneiro (Abril de 2018)

[3] Atividade baseada na distribuição de panfletos impressos, comuns nas campanhas publicitárias, destinadas a distribuir massivamente, normalmente sem direcionamento criterioso, um determinado conteúdo digital.

[4] Influencer é um indivíduo que possui um número expressivo em suas plataformas digitais, pressupondo que esta possui a capacidade de influenciar outros usuários, sugerir tendências, comportamentos, modos de viver e opiniões.

Sobre Erica Mariosa
Erica Mariosa Moreira Carneiro – Graduada em Relações Públicas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2003), Pós Graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp, Mestra em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/Unicamp e Doutoranda em Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática pelo PECIM/UNICAMP. Possui experiência na área de Divulgação Científica, atuando principalmente nos seguintes temas: divulgação cientifica, comunicação, relações públicas, mídias sociais e blogs de ciência. Participa como coordenadora da comunicação do projeto Blogs de Ciência da Unicamp como divulgadora científica, administradora e palestrante, desde 2016.

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