Própolis: o produto das abelhas que expande fronteiras na ciência e na saúde (parte I)

Própolis bruta de abelhas africanizadas. Crédito: José Maurício Sforcin

‘A pesquisa com própolis foi tomando dimensões que eu jamais imaginei’, diz Maurício Sforcin – professor da Unesp

Por Henrique Aguiar de Oliveira e Vinícius Nunes Alves

As abelhas são insetos de enorme importância para humanidade e ecossistemas naturais graças principalmente à sua função de polinização. Estima-se que no mundo existam 20 mil espécies, sendo que toda essa biodiversidade está ameaçada em algum nível pela interação de diversos fatores, como agricultura intensiva, uso indiscriminado de agrotóxicos e mudanças climáticas. Só no Brasil, existem aproximadamente 5 mil espécies distribuídas em cinco famílias. Quando se trata de abelhas eusociais, isto é, abelhas que fazem ninhos e vivem em colônias, há dois grandes grupos pertencentes à família Apidae. Um deles é o Meliponini, que são as abelhas sem ferrão (ASF) correspondendo a mais de 300 espécies no nosso país. O outro grupo é Apini, que inclui as abelhas africanizadas (AA) do gênero Apis, que são bastante conhecidas pela sua criação difundida e popularização de seus produtos no mercado, como o mel e a própolis.

A própolis é um material resinoso elaborado pelas abelhas, a partir das secreções de parte das plantas, como tronco, brotos, flores e folhas. As abelhas, tanto ASF e AA, utilizam esse material para vedar frestas e proteger a colônia contra possíveis invasores. As ASF, diferentemente das AA, podem também misturar barro ou terra na composição dessa própolis, formando o que chamamos de geoprópolis. Esses produtos possuem diversas atividades biológicas, como antimicrobiana, anti-inflamatória, antioxidante, imunomoduladora, antitumoral que abrem cada vez mais as fronteiras da pesquisa científica.

Há quase três décadas, o biólogo e imunologista José Maurício Sforcin da Unesp de Botucatu (SP), se concentra em estudar os efeitos da própolis e/ou da geoprópolis em tratamentos complementares para doenças como HIV/aids, câncer e inflamação. Além de experiente pesquisador, Maurício é apreciador de vinhos e pratica meditações.

José Maurício Sforcin. Arquivo pessoal

Nesta entrevista exclusiva para o blog Natureza Crítica, Maurício compartilha um pouco dos desafios e das novidades que envolvem suas pesquisas no Departamento de Ciências Químicas e Biológicas do Instituto de Biociências de Botucatu.

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Em seu ePub “Própolis e Geoprópolis – uma herança das abelhas” publicado pela editora Unesp (2017), você comenta que há variabilidade na composição química da própolis e da geoprópolis,. Isso é observado principalmente nas abelhas nativas (sem ferrão) que se alimentam do néctar das flores de diversas espécies da flora nativa, enquanto que as abelhas africanizadas de apiários normalmente se alimentam mais de flores de monoculturas, como eucaliptais e laranjais. Poderia comentar melhor a respeito disso?

O comportamento das Abelhas-sem-Ferrão (ASF) é diferente das Abelhas Africanizadas (AA). A abelha africanizada possui preferência por algumas plantas, têm um diâmetro de voo muito maior do que a abelha nativa. As ASF voam menos, têm menos preferências vegetais, coletando material das primeiras plantas que encontram. Por essas razões, a própolis e outros produtos das abelhas podem ter composições diferentes dependendo da região.

Já que a composição da própolis (ou da geoprópolis) varia de acordo com a flora de cada região, é possível padronizar esse produto?

A padronização da composição química da própolis é um grande desafio que perpassa pesquisadores de diversos lugares do mundo. Padronizar a própolis das ASF e a geoprópolis é mais difícil devido ao comportamento mais generalista delas. Essas abelhas nativas foram relativamente pouco investigadas, havendo menos publicações e um padrão mais restrito de comparação da própolis, quando comparado às AA que já foram bastante estudadas. As pesquisas com ASF que mais tenho conhecimento são relacionadas ao mel. É um campo bastante amplo para pesquisa, pois é muito pouco conhecido, necessitando de mais profissionais atuando nessa área.

Outra dificuldade para padronizar a própolis das ASF em pesquisas é a falta de identificação correta das espécies dessas abelhas. O Brasil é um país com uma diversidade considerável de ASF e a população dá vários nomes populares a elas: às vezes, nomes diferentes para a mesma espécie, ou o mesmo nome para abelhas diferentes. Isso pode gerar uma certa confusão. Considerando só a própolis das abelhas africanizadas, os pesquisadores brasileiros já descreveram 12 tipos, como própolis verde, vermelha, marrom e outros. Para as ASF deve ser ainda mais diversificado.

O que você sugere para começar a buscar uma padronização?

Embora não haja um padrão definitivo para nenhuma própolis, tendo em vista que pode variar baseado na fonte vegetal predominante, os estudos com própolis de Apis estão mais avançados, o que permite delimitar tipos de própolis de acordo com diferentes regiões do planeta. Cada país ou região possui publicações sobre as amostras de própolis ali encontradas, incluindo a composição química e atividades biológicas e, a partir disso, busca-se descobrir a fonte vegetal predominante. Essa é uma maneira de fazer o link entre composição química, fonte vegetal e propriedades que cada amostra apresenta.

O caminho para quem pretende trabalhar com um tipo de própolis é caracterizar quimicamente o que essa amostra contém, tanto para AA quanto para ASF. Além disso, é preciso identificar qual é a fonte vegetal predominante da amostra. Por exemplo, dizer que a composição da própolis produzida no sudeste brasileiro vem principalmente do alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia) – uma das plantas preferidas pela Apis – já é um bom começo. Já no caso das ASF, já trabalhei com geoprópolis do Maranhão produzida pela abelha conhecida como tiúba (Melipona fasciculata). Nessa geoprópolis, constatou-se que a principal fonte vegetal para as abelhas daquela região é o babaçu (Attalea speciosa).

Abelha Tiúba (Melipona fasciculata)

Considerando que há relativamente poucos estudos com abelhas-sem-ferrão, a atividade antimicrobiana da própolis destas abelhas não é tão estabelecida?

Não, pois até hoje a atividade antimicrobiana só foi bastante estudada na própolis das abelhas africanizadas. A própolis também tem outras atividades com potencial de aplicação. Por isso, é de extrema importância que a realização das pesquisas voltadas à própolis comecem a adotar os mesmos parâmetros, possibilitando melhor a comparação dos estudos. E no caso da própolis das ASF,nem há estudos suficientes ainda para fazer comparações.

Você estuda a ação imunomoduladora do própolis há quase três décadas, mas a grande maioria dos trabalhos publicados sobre própolis ainda é com animais de laboratório. Pela sua experiência, o que explica a escassez de estudos com seres humanos? Questões éticas ou logísticas?

Os trabalhos feitos com animais em laboratórios são mais simples de realizer e de padronizar. Os animais normalmente não sofrem interferência de outros estímulos, a não ser aqueles que você deseja na sua pesquisa. E para fazer uma pesquisa com animais, o projeto precisa ser aprovado pelo Comitê de Ética. Faz 10 anos que não trabalho mais com animais. Eu isolo células presentes no sangue humano que tenho interesse em estudar, em outra palavras, eu acompanho os efeitos da própolis ou da geoprópolis em culturas de células em laboratório.

Já em estudos com humanos, são feitos ensaios clínicos em que pacientes ou voluntários saudáveis são acompanhados diretamente pelos pesquisadores, e isso acaba sendo mais complicado. Nesses ensaios clínicos, a dificuldade começa quando vamos definir o critério de inclusão, no sentido de quais serão os “indivíduos saudáveis” ou grupo controle. Por exemplo, pessoas que não estão tomando medicamentos ou que não beberam na noite anterior se dizem teoricamente saudáveis. Mas é muito complicado afirmar se alguém está ou não saudável. Às vezes, a pessoa está começando um processo infeccioso ou inflamatório e não sabe. Por isso, procuramos considerar o estado de saúde do indivíduo no dia da sua primeira entrevista para a pesquisa.

Outra dificuldade da pesquisa com humanos é que há a possibilidade dos indivíduos desistirem no meio do projeto, esquecerem de cumprir alguma etapa ou mesmo ingerirem algum medicamento que estimule ou suprima o sistema imunológico. Todos esses imprevistos afetam ou inviabilizam a pesquisa. Se, por exemplo, seu objetivo é estudar o efeito da própolis na inflamação, mas a pessoa tomar um medicamento antiinflamatório, já compromete o estudo. Daí a pesquisa precisa ser reiniciada para atingir uma amostra suficiente para posterior análise estastística e avaliação dos resultados.

Há muito mais critérios de exclusão devido à essas interferências que, muitas vezes, fogem do nosso controle. Em animais de experimentação, o isolamento das condições é mais controlável e satisfatório. A escassez de estudos com seres humanos, ao meu ver, não é por questões éticas e logísticas. Acredito que se você tiver uma boa pergunta a ser investigada e ética para conduzir a pesquisa, além de voluntários ou pacientes interessados em participar, você consegue realizar um trabalho com qualidade. Para isso, é importante ter um grupo de pesquisa clínica bem estabelecido, o que nem sempre é fácil. No meu caso, na Unesp de Botucatu, tenho o privilégio de ter acesso ao Hospital das Clínicas. Eu faço parceria com grupos de pesquisa médica do Hospital e isso tem sido essencial no desenvolvimento das minhas pesquisas com a própolis.

Kit entregue aos participantes da pesquisa, contendo cartilha explicativa e frascos com própolis ou placebo. Crédito: Karen Ingrid Tasca

Com todas essas dificuldades, você confia em estudos clínicos publicados sem antes analisar se os autores tomaram todos os cuidados metodológicos?

Quando a gente faz pesquisa clínica, existem critérios de inclusão e de exclusão. Excluir é fácil, por exemplo, se a pessoa tomou vacina e está participando de uma pesquisa de imunologia, tem que excluir este indivíduo porque a vacina já vai ser um estímulo externo. Ou se a pessoa parou de tomar o medicamento combinado na pesquisa, também precisa excluir da amostra. No primeiro ensaio clínico que nosso grupo de pesquisa realizou, elaboramos um enxaguatório bucal contendo própolis, com o objetivo de avaliar sua ação no controle da placa bacteriana. Esse ensaio clínico foi a dissertação de mestrado de uma dentista que eu orientei e os voluntários testados seriam crianças.

Para testar o efeito do enxaguatório bucal contendo própolis, fizemos o que chamamos de ensaio duplo cego. Nesse sentido, a dentista não sabia o que ela estava dando nem a criança saberia o que estava recebendo, pois as amostras de enxaguatório bucal foram numeradas e embaralhadas: algumas amostras continham própolis e outras não. Outros membros do grupo, que não a dentista e os participantes, controlaram a distribuição dos enxaguatórios. Mas mesmo com esse cuidado dos pesquisadores, o ensaio clínico pode ter imprevistos ou intercorrências. Por exemplo, quando a dentista experimentou esse enxaguatório, ela se deu conta de que muitas crianças poderiam não gostar do sabor residual da própolis e se os pais falassem assim: ‘pula essa noite, tome menos, faça bochecho mais rápido,…’, então a pesquisa seria inviabilizada. Assim, ao invés de crianças, incluímos somente indivíduos adultos de ambos os sexos nesta pesquisa.

Assim, quando veículos de divulgação ou de jornalismo divulgam os resultados das pesquisas, a maioria das pessoas já confia imediatamente nas informações. Mas se você analisar as condições metodológicas em que foram feitas parte dessas pesquisas, como foram os grupos controle ou como os pacientes foram acompanhados, etc., você pode questionar se os autores puderam realmente concluir da forma como concluíram.

Henrique Aguiar de Oliveira é bacharelando em Ciências Biológicas pelo INBIO/UFU, membro da empresa-júnior MinasBio – Consultoria Ambiental e faz parte do Coletivo Goiabal Vivo.

Vinícius Nunes Alves é licenciado e bacharel em Ciências Biológicas pelo IBB/UNESP, mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela UFU. Atualmente é estudante de especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor/UNICAMP e colunista do jornal Notícias Botucatu.

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