Corpo da mulher: que lugares ocupamos nas famílias? (parte 2)

Vocês já pararam para pensar sobre os lugares que ocupamos dentro da sociedade por nascermos homem ou mulher? E o quanto isto define rumos, brincadeiras, condutas sociais? Será que estes posicionamentos sempre foram desta maneira? Eu comecei a falar sobre o aborto há uns dias atrás, aqui no blog. Mas antes de partir para questões bem específicas, há pontos que eu gostaria de abordar por aqui.

Hoje eu vou falar um pouco sobre como a noção de gênero define nossos papéis. Isto dentro da ideia das expectativas de casamento e gravidez, a partir de alguns estudos históricos. A primeira questão, claramente, é o posicionamento de gênero quanto à maternidade e à paternidade. Alguns autores vêm chamando atenção para os papéis que a família vem ocupando desde a modernidade até a cultura contemporânea.

A chamada família moderna vem sendo questionada e/ou defendida acirradamente nos dias atuais. Assim, desde proclamação da igualdade de gênero, os lugares sociais ocupados por mulheres e homens têm sido postos em xeque. Já discutimos, no blog, sobre o conceito de gênero como atributo biológico e cultural (ver referência ao final do texto).

Quando falamos de configuração da família nuclear, há um modelo específico (pai, mãe e filhos). Embora na cultura não exista formações padrão ao longo do tempo. A família nuclear foi pensada como alicerce para o estabelecimento de uma sociedade narrada como civilizada, na Europa, a partir do século XVIII, fortalecendo-se nos séculos seguintes. Dessa forma, a estruturação da família, como alvo e instrumento de controle, vigilância e disciplinamento, para melhor governo da população, se dá entre vários contextos importantes, o da urbanização e emergência da classe burguesa, em meados do século XVIII.

Assim, vai ser a partir da família que se organizarão políticas públicas para reger e governar a nação. Isto se dá desde campanhas de vacinação, controle demográfico, planejamento familiar, educação, padrões de consumo, dentre outras questões. Nesse sentido, discursos médicos, religiosos, políticos, morais articulam-se e tornam a família, ao mesmo tempo, alvo e instrumento de governo. Ou seja, visa-se desse modo, atingir a população, regular a ordem, minimizar os riscos, aumentar a segurança e a “paz” social.

Além disso, outra questão recorrente na organização social, referente à constituição familiar, diz respeito aos papéis desempenhados no âmbito privado e público. Nesta semana passada, em função da copa e a visibilidade da Rússia, noticiou-se sobre “profissões proibidas por lei para mulheres”. Aqui no Brasil também temos isto em nossa história, e atualmente o limitante consta no artigo 390 da CLT.

Em épocas passadas, o trabalho também foi visto como algo desviante para as mulheres. Pois este era um comportamento tido, muitas vezes, como perigoso para o corpo da mulher e para a sociedade. Isto decorre – em outros momentos da história e até os dias de hoje, por uma discursividade de que se “retira a energia que deveria ser dedicada ao âmbito do lar e ao cuidado com os filhos e o marido”. Ou, ainda, que determinadas profissões são danosas às mulheres e seus corpos, em função de sua fragilidade biológica.

Em relação ao direito do trabalho na França do final do século XIX, por exemplo, o mais interessante é o fato das mulheres não serem vistas como sujeito de direito, mas também (e sobretudo) como reprodutoras eventuais. A mulher, naquele contexto, antes de tudo ocupava o posto de esposa e mãe, responsável pela família e seu bem-estar. Ao marido cabe reservar suas forças para prover a família com seu trabalho nas fábricas (Dhoquois, 2003).

Já no Brasil do início do século XX, o trabalho feminino também era mal visto. Assim, qualquer atividade diferente do “famoso” bela, recatada e do lar era vista como acessória e desviante. Aqui, novamente, tínhamos o trabalho feminino fora do lar, entendido como desperdício físico de energias. Além disso, o peso de ser a causa de problemas de saúde pública, incluindo mortalidade infantil e abandono de crianças. Desse modo, a mulher passa a ser encarada como a responsável – única e exclusiva – dos cuidados domésticos e da saúde da família nuclear. São elas, as mulheres, no âmbito privado do lar, que têm como função manter a união e tranquilidades domésticas.

Nessa perspectiva, à mulher cabia, portanto, os cuidados com o lar ou, no máximo, atividades remuneradas que pudessem ser conciliadas com as posições que ela ocupava na família: esposa e mãe. Já, aos homens, era reservado o espaço público, a cidade, o trabalho. Este é visto, claro, como um corpo que é a marca da força, uma vez que suas características agressividade e inteligência movem o desenvolvimento da civilização.

Ainda no final do século XIX e início do século XX, o discurso médico através dos estereótipos de fragilidade e força, também atuou no posicionamento e manutenção do modelo social. Pois ele definiu a maternidade como função natural da mulher. Nesse sentido, o corpo da mulher, diferente do homem, é visto como intimamente ligado à natureza, uma vez que esse tem como destino a reprodução.

Desde a mais tenra idade, especialmente a partir da puberdade, é a mulher que passa a ser vigiada. Deste modo, nada pode comprometer essa missão: dar filhos à nação. É o momento em que a mulher cumpre seu destino e se converte de fato em um ser para a espécie.

Ao trazer esses apontamentos sobre a questão da família e da relação mulher/mãe/esposa no início do século XX, não penso em mostrar a existência de uma continuidade de discursos até os dias de hoje. Embora nos reconheçamos em vários – incluindo a luta por desnaturalizar os discursos sociais. Tampouco pretendo afirmar que as famílias realmente constituíam-se dessa ou daquela forma. Ao trazer elementos relacionados à constituição da família, procuro marcar a sua dimensão construída. Bem como problematizar a naturalização de um determinado tipo de família e posição de homem e mulher, presente em nossa cultura.

Nesse sentido, esses elementos – médicos, morais, políticos, religiosos – chamam nossa atenção para as posições desiguais ocupadas pelo homem e a mulher, na família. E isto seja como provedor e cuidadora, seja no projeto que trazem em relação à paternidade e à maternidade.

A paternidade ainda é pensada como um projeto na vida dos homens. Enquanto a maternidade é vista como um desejo intrínseco da feminilidade, para as mulheres. Assim, vamos nos constituindo como mães e maternais ao longo de nossas vidas, como experiências de continuidade, repetição e realização de um sonho/plano desde sempre idealizado. Para os homens, ao contrário, ser pai não é visto como uma ação natural, mas um projeto de determinada situação de vida: a vida de casado.

No entanto, a paternidade não se configura, apenas, como o ato de “fazer filhos”. A paternidade está relacionada também à capacidade de sustentá-los e educá-los. Dessa forma, sustentar os filhos é uma responsabilidade considerada masculina. Isto que coloca o trabalho remunerado dos homens como referência fundamental nas concepções sobre paternidade e masculinidade. Assim, se fazer filhos pode servir para comprovar o atributo físico da paternidade, conseguir sustentá-los e educá-los comprova seu atributo moral.

E qual a relação disto com o que falamos sobre o conceito de corpo? Ora, desde que nascemos já “ganhamos” estes papéis em brincadeiras, brinquedos e práticas que nos subjetivam como tal. Aquilo que achamos que está batido e clichê dentro dos estudos de gênero, que indicam que mulheres ganham bonecashomens brincam de engenheiro e coisas similares? Todavia, não parecem tão clichê quando vemos que os brinquedos das meninas são artefatos domésticos, tais como: vassouras, ferro de passar roupa, cozinha e panelas, além dos bebês, claro. Mas, para os meninos brincadeiras que os estimulam ao mundo exterior: engenharia, esportes, ciência. É disto que se trata: designar papéis sociais, depois tomá-los como de nossa natureza.

Dessa forma, são brincadeiras que disciplinam corpos, naturalizam ações, controlam condutas, aprendemos a ser homens e mulheres de um determinado modo, a assumir responsabilidades sociais distintas. Todavia, esquecemo-nos que isto nos foi ensinado. Que nossos corpos foram disciplinados para tais atos.

Para saber mais:

Arán, Márcia. (2003). Os destinos da diferença sexual na cultura contemporânea. Revista Estudos Feministas, 11(2), 399-422. https://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2003000200004

Brasil. Decreto-Lei n.5452, de 1º de Maio de 1943. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm. Acesso em: 25/06/2018.

Dhoquois, R. (2003). O direito do trabalho e o corpo da mulher (França: séculos XIX e XX) Proteção da produtora ou da reprodutora?. In: Matos, M. I. S. de. e Soihet, R. (org.) O corpo feminino em debate. São Paulo: Editora UNESP, 2003. p. 43-58.

Foucault, Michel. (2002). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal.

Foucault, Michel. (2003). História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal.

Matos, M. I. S. de. e Soihet, R. (org.) (2003). O corpo feminino em debate. São Paulo: Editora UNESP.

Rohen, F. (2003). A arte de enganar a natureza: contracepção, aborto e infanticídio no início do século XX. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. (Coleção História e Saúde).

Outros links:

Rússia proíbe mulheres de trabalharem em mais de 400 profissões

Aqui neste blog:

Corpo da mulher: o útero é objeto público? (parte 1)

Precisamos falar de sexualidade e gênero na escola? (parte 1)

Sobre Ana Arnt 19 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

1 Comentário

2 Trackbacks / Pingbacks

  1. Corpo da mulher: quem decide sobre o aborto? (parte 3) - PEmCie
  2. Corpo da mulher: sobre mortes e liberdades de ser (parte 5) - PEmCie

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*