Corpo da mulher: objetificação e posse de si

As falas sobre o corpo

Falar sobre o corpo da mulher é, seguidamente, uma questão que me remete à ideia de “falar mais do mesmo”. Todavia, vemos continuamente o quanto o corpo – especialmente da mulher – é foco de objetificação. Isso ocorre sem que esta objetificação seja percebida como problema e fonte de um comportamento machista estrutural em nossa sociedade.

Acerca desse tema, há uma semana ecoou nos jornais a fala de nosso atual Presidente da República, Jair Bolsonaro:

— Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, (o Brasil) não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay (…) Temos família — declarou o presidente, em um café com alguns veículos da mídia brasileira.

Pipocaram debates sobre esta fala. Alguns estados já inseriram o tema de turismo sexual em seu marketing, numa busca de combater os efeitos desta fala. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em vários estados também se pronunciou.

Sobre o turismo LGBTQI+ e o turismo sexual: uma breve ressalva

Antes de iniciar a discussão sobre o corpo: ser um país com turismo voltado ao público LGBTQI+ não é sinônimo de turismo sexual. A questão perpassa por um país ter políticas contrárias ao preconceito e que possibilitem segurança a pessoas destes grupos que tem especificidades. Além disso, claro, espaços, festas, eventos com temas específicos (como a Parada Gay, que no município de São Paulo é uma das maiores do mundo).

No entanto, o foco que eu gostaria de dar a esta fala está além do turismo sexual em si, que é algo que o Brasil vem debatendo e combatendo há décadas. A fala do Presidente apresenta uma questão anterior: a disponibilidade de nosso corpo a quem quiser. “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade” diz Bolsonaro.

“Meu corpo, minhas regras”: não somos objetos

Os dizeres “meu corpo, minhas regras” reafirmam rotineiramente sobre sermos e termos um corpo, que é nosso e deve ser respeitado como tal. Esta frase é resultado de sangue e dor, em uma luta pelo lugar da mulher na sociedade*. Assim, dizer isto é parte de uma luta para mostrar a potência da mulher como sujeito de direitos que deveriam ser invioláveis. Uma luta pelo direito ao seu próprio corpo, suas vontades, desejos, destino: vida. E ao dizer que isto faz parte de uma luta das mulheres, afirmo que ainda é parte do cotidiano negado a nós.

Não precisamos de um homem liberando acesso ao nosso corpo, para saciar vontades sexuais. Assim como, não precisamos de um homem apontando que nosso país tem corpos de mulheres à disposição de quem quer que seja. Não existe guerreiro tão vistoso, temido ou poderoso, tampouco tão nobre, cheirando a brilho e a cobre, que tenha direito sobre o corpo de qualquer mulher sem seu consentimento.

Objeto: “qualquer coisa material”, segundo o dicionário Caldas Aulente. A ideia de objetificação é exatamente esta: tratar como coisa, objeto, inanimado e sem intenções, vontades, direitos. Algo que serve a algum propósito. Neste caso, vontade sexual de qualquer um (heterossexual, claro).

Lutar para que nosso corpo seja nosso, segundo Bruna Rodrigues (2016), é soberania pessoal. É ter posse de nós mesmas. É reivindicação identitária que, no caso da mulher, tem relação com “ser dona da sua própria existência”. Delimitar nosso corpo como nosso espaço de existência é a busca por retirar-se deste espaço de coisa. Somos e temos um corpo.

Parece simples a ideia de sermos donas de nossa própria existência. Mas é em tempos como os atuais que vemos que não. Isto não só não é simples, tampouco é óbvio. E é tempo de não nos estarrecermos mais, mas delinearmos cotidianamente nosso espaço: nosso corpo é nosso.

Nota sobre espaços de família: hierarquias do ser

A ideia de que precisamos proteger uma família e que esta permanece acima de corpos de mulheres e de possibilidades de convívio entre LGBTQI+ é, em si, agressiva por hierarquizar sujeitos (de um modo de ser família), excluir socialmente do convívio (“não queremos ser o paraíso do mundo gay”), objetifica sujeitos (como exposto anteriormente neste texto). Expõe as pessoas ao não pertencimento em nossa cultura. Indica quem pode ou não viver e conviver aqui em nosso país – e o que não será tolerado.

Tal fato, como já discutido anteriormente nesta série sobre o corpo da mulher (referências ao final do texto), é construído socialmente e visa situar as pessoas dentro de nossa sociedade. Insere-nos dentro de uma lógica que naturaliza papéis de homens e mulheres, legitima quais espaços podem ser usados (e como podem ser usados), subjuga os sujeitos a esta cultura machista, homofóbica e patriarcal.

O mundo gay é mais do que fazer sexo. O corpo da mulher não é objeto para o prazer masculino. A família não se restringe ao núcleo heterossexual com seus filhos. Afirmar o que se vem afirmando em nosso país é coadunar com a cultura do estupro e do preconceito sexual e de gênero. É autorizar a violência sexual, reafirmar o espaço público como legítimo do homem – que pode usar e abusar de tudo o que lhe convém.

Finalizando: mais uma vez, sobre palavras

E frases, meus caros, não são apenas linhas com palavras justapostas. São sentidos sociais, significados pelos quais lutamos, para nossa existência (assim como sermos donas de nosso próprio corpo). Frases misóginas e homofóbicas não são apenas ideias isoladas… Não minimizemos o discurso. Mas isto é tema para um outro (e novo) post. Em breve…

*Sobre o termo Meu corpo, minhas regras, relacionada especialmente ao movimento Marcha das Vadias e a movimentos contemporâneos do feminismo, pode-se ler o artigo de Gomes e Sorj

Para saber mais

Arán, Márcia. (2003). Os destinos da diferença sexual na cultura contemporânea. Revista Estudos Feministas, 11(2), 399-422. https://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2003000200004

Costa, Ana Kerlly Souza. (2018). Hipersexualização frente ao empoderamento: a objetificação do corpo feminino evidenciada. Anais eletrônicos do VII Seminário Corpo, Gênero e Sexualidade, do III Seminário Internacional Corpo, Gênero e Sexualidade e do III Luso-Brasileiro Educação em Sexualidade, Gênero, Saúde e Sustentabilidade. Disponível em: https://7seminario.furg.br/images/arquivo/338.pdf.

Gomes, Carla, & Sorj, Bila. (2014). Corpo, geração e identidade: a Marcha das vadias no Brasil. Sociedade e Estado29(2), 433-447. https://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922014000200007

Matos, M. I. S. de. e Soihet, R. (org.) (2003). O corpo feminino em debate. São Paulo: Editora UNESP.

Rodrigues, Bruna. (2016) “Meu Corpo, Minhas Regras”: Direito ao Corpo e Narrativas Feministas nas Redes Sociais. Anais do XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Disponível em: http://portalintercom.org.br/anais/nacional2016/resumos/R11-2241-1.pdf

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Série: Corpo da mulher

Corpo da mulher: que lugares ocupamos nas famílias? (parte 2)

Sobre a Cultura do Estupro: senta aqui, vamos conversar…

Para escutar enquanto se lê:

Letícia Sabatela – Geni e o Zepelim (Chico Buarque)

Nina Oliveira e Gabi da Pele Preta – Disk denuncia

Ana Tijoux – Antipatriarca

Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! 😉

Sobre Ana Arnt 31 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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