Dia Internacional da Mulher

Aquele dia que falam de mulheres e, às vezes, deixam-nos falar de nós mesmas. Vou pular a parte de “não é uma comemoração, não me mande flores, não me dê parabéns”, se não se importarem.

Falar sobre ser mulher, no dia das mulheres, pode ser falar do lugar das mulheres na ciência, este lugar que aqui no Blogs da Unicamp tanto gostamos, queremos ocupar e batalhamos para ser mais e mais repleto de representatividade de gênero, etnia, raça, equidade. Podíamos, evidentemente, listar cientistas incríveis que mudaram a história do mundo

E se remontarmos à história? Olhar as datas marcadas por mulheres estadunidenses ou por mulheres russas, deflagrando greves e passeatas em seus países, por melhores condições de existência na vida social (que pode ser lido aqui e aqui). Podemos falar ainda de Clara Zetkin que propôs a internacionalização de um dia das mulheres.

Poderíamos falar também sobre os avanços conquistados em nossa sociedade, as sufragistas e sua luta pelo voto, ou da igualdade política no Brasil, conquistada (será?) apenas na Constituição de 1988.

Tantas conquistas das mulheres!

E cá estamos à beira de completar 4 anos sem Marielle Franco, executada no dia 14 de março de 2018, ainda sem avanços significativos na investigação.

Aliás, 2018 foi o ano em que o Brasil viu (e talvez tenha esquecido) de Janaína. Uma mulher que teve sua laqueadora decretada por ordem da justiça em São Paulo. E a conquista do aborto em caso de estupro, que consta no Código Penal desde 1944? E em 2020 uma menina de 10 anos teve seu corpo violado e depois destroçado pelo moralismo, ao buscar o serviço de aborto.

Que conquistas são estas em que a igualdade se dá a partir do nosso silenciamento enquanto homenageia-se torturadores da ditadura, que estuprava mulheres colocando ratos em suas vaginas?

De que grande celebração estamos falando quando a cultura de objetificação de mulheres segue a plenos pulmões? Isto quando não estão em círculos discretos, evidentemente. Em outros momentos podem percorrer o mundo e só ganham projeção quando se trata de mulheres loiras de olhos azuis. Como em tours programadas para anos vindouros.

Ser e viver em um mundo em que o status da mulher é cambiável, de acordo com as necessidades, interesses de homens têm muitos caminhos a serem pensados.

Quais homens?

Se formos falar daqueles que têm permissão para errar, cuja juventude se estende e é passível de erros perdoáveis, em prol de um bem maior – a vida, carreira, jovialidade deste mesmo homem – estamos tratando de uma categoria específica.

“Um recorte” social demarcado. Homem, branco, heterossexual, cisgênero. Jovens por muito tempo, passam a ocupar posteriormente o posto de “um homem que precisa amadurecer” e em algum momento depois vão acabar como “homens de seu tempo”. Aquele tempo em que se ancoram preconceitos, racismos e misoginias que são incorrigíveis e não valem mais o desgaste do diálogo.

É claro que seus erros não podem ser julgados tão facilmente, afinal ninguém quer acabar com suas vidas, suas carreiras, suas jornadas para a grandiosidade… (não é?).

Fora que tantas vezes, eles erram. Não são santos. Mas do outro lado, não sabia o que estava fazendo também?

Quando eu escrevi o tweet acima, eu acabara de escutar uma narrativa de eximir-se de responsabilidades por juventude e não-santidade.

Eu me recordei da menina que sofreu estupro coletivo de 33 homens, aos 16 anos. E, na ocasião, por ela ter uma criança de 3 (ou era 4?) anos, houve quem se exaltasse por estarmos defendendo uma mulher que sabia o que estava fazendo e, se não soubesse, era por ter uma postura social inadequada (leia-se, era puta, dada, oferecida). Lembremos que uma gestação antes dos 14 anos indica relação sexual não consensual, por premissa da lei. De qualquer forma, aos 16, com a exposição do corpo da menina, e com os homens assumindo o ato parecia não ser suficiente para configurar de forma simples o crime ocorrido à época.

Existem tantos e tantos exemplos. Sempre isolados, milhares deles. Assim, poderíamos falar de como meninas e mulheres sabem o que estão fazendo, independente de idade, quase como característica natural nossa.

Quais meninas? E Quais mulheres?

Vamos lá, quais recortes sociais, históricos ou territoriais, quais violências demarcadas, que genitais falaremos? Ou que privilégios de não conhecer as piores violências, ainda que conheça mais nãos que homens anteriormente enunciados?

“Não se nasce mulher, torna-se” de Simone de Beauvoir, é uma frase clássica e conhecida em debates feministas. Ele vincula-se às relações sociais e culturais que nos constituem, a partir das designações de “mulher” por nascermos com uma genitália específica. Sim, acontece com homens também. Aliás, bom lembrar que a designação de gênero é externa a nós (como indivíduos). Assim, é uma designação social. É feita em nosso nascimento – ou em exames pré-natais, celebrados em chás de revelação, que vão demarcando estes sujeitos como homens ou mulheres mesmo antes da nascença. De todos os rituais contemporâneos, nada mais cisnormativo, inclusive, que um belo chá de revelação em que “cores surpresas” (sempre tons de rosa e azul, incrivelmente) demarcam posições de sujeito a serem ocupadas, não é mesmo?

Voltando à frase de Simone de Beauvoir…

Considero ela de difícil compreensão, dentro de uma sociedade que busca, fortalece, cobra, idealiza mulheres a partir de corpos específicos e ações destes corpos. Idealização que se passa por destituir de vontades, desejos e direitos de existência estas mulheres.

Sei lá, às vezes parece fútil falar de como, ainda nos dias de hoje, são as mulheres que estão sobrecarregadas dentro de casa com jornadas duplas ou triplas, vendo a sujeira da casa, o lixo acumulando-se, as crianças sem banho depois da escola (siga enumerando a sua sobrecarga diária aqui ________). É privilégio reclamar que homens não enxergam o lixo se acumulando nas lixeiras dentro de casa, se este é nosso grande embate feminista dentro de uma casa? (Spoiler: é sim… Mas pode reclamar se isso faz parte do cotidiano).

Todavia, eu estava me encaminhando, neste texto, era para falar de mulheres, veja só, que seguem lutando perante homens que teimam em usufruir do ápice de seu privilégio de nascença: negar a existência de quem está ao redor, fora para seu bel prazer e usufruto.

Que horror! Não dá para falar assim, como sabemos, não é tão simples! Afinal de contas

Nem todo o homem

Há, sim, homens que não se encaixam neste berço de privilégios. Tipo o privilégio de passar uma vida despercebendo a existência de seres humanos ao seu redor, afora para seu serviço, dentre eles.

Aqueles homens que não partilham dos significados de juventudes erráticas que seguem vivas, abraçando cada erro em uma possibilidade de aprendizado para o futuro adulto maduro (que um dia torna-se homem de seu tempo). Estes ocupam espaços também hierarquizados em muitas negociações sociais, com pouco ou nenhum acesso às grandiosidades do espaço público da (como eu costumo chamar) tripa de privilégios de homem-branco-hetero-cis.

Se, além de tudo, possui uma genitália que fora designada a outro gênero desde a nascença, ainda precisa passar por exames minuciosos e questionamentos para assegurar que adentrará (sem nunca permitir que transite de fato) nesta tão majestosa categoria “homem”.

Há, portanto, recortes de raça, etnia, classe social, gênero designado para falarmos deste mundo de privilégios. Há camadas, e é preciso que reconheçamos isto.

E há suas exceções – em toda e qualquer categoria. Mas as exceções às regras não estão exatamente em espaços de poder (ou não estão fazendo nada quando ocupam estes espaços) para mudar cenários que quero falar hoje.

O que seria a objetificação senão a retirada da nossa existência como sujeitos de direito?

Mulheres. Ou bonitas, ou inteligentes (as duas coisas nunca). Ou servimos pelo cérebro, ou pelo corpo, juntos é incompatível. Mas não pode achar-se bonita, mulheres têm que ser nomeadas como tais por padrões externos a si. Dessa forma, se amar e gostar do próprio corpo está fora deste cenário, portanto. Se autorreconhecer inteligente também não consta na lista. Têm que ser atribuído por avaliação de pares (que não são iguais, com frequência serão homens e eles colocam alguns empecilhos, nos chamam de dramáticas e se reclamamos é TPM).

Ah! Se acontecer de enfrentar uma gestação, para aquelas mulheres que têm útero, a licença maternidade é ficar de férias curtindo o bebê e agrava a condição de ocupar cargos de inteligência, pois cai a produtividade e a escolha foi tua. Para as mulheres que não têm útero (ou para homens que têm útero) a gestação é uma incógnita para pessoas cis e a solução é a incompreensão com silenciamento.

A objetificação, no entanto, têm efeitos mais entranhados que se sobressaem em tempos de crise também. E em dias de vulnerabilidade tomam ares requintados de uma banalidade cruel (ou crueldade banal?).

Mulheres. Fáceis.

Passíveis de comparação em filas de balada ou filas de fuga, como itens em um menu de degustação ao gosto do freguês que se empolga. Este corpo de mulher que ao não se enquadrar, vira a mulher que é boa de apanhar, é boa de cuspir.

Mas em tempos de guerra, também é este corpo de mulher que pode servir ao homem tão nobre, tão cheirando a brilho e a cobre, mesmo preferindo amar os bichos.

Na guerra contra mulheres, o corpo é território de ocupação, domínio e passagem

Farei uso de algumas passagens do livro La guerra contra las mujeres de Rita Segato, publicada em 2016, na Argentina. Para ela, a violência e a violação se instalam em sociedades cada vez mais bélicas. As guerras contemporâneas têm no corpo feminino e feminilizado* o espaço para destituição do outro não como efeito colateral, mas como centralidade de ação. Segato afirma que a estratégia bélica de violação de corpos femininos e feminilizados* se difunde na sociedade contemporânea. Não é um ato isolado e não funciona como um serviço de entrega de corpos ao prazer, tanto quanto não são “danos secundários”. São, nas palavras da autora, uma pedagogia da crueldade onde gravita o exercício de poder

“não é a conquista apropriadora e sim sua destruição física e moral que se executa hoje, destruição que se faz extensiva a suas figuras tutelares e que me parece manter afinidades semânticas e expressar também uma nova relação de rapina com a natureza, deixando apenas restos”.

Nem sempre a guerra, todavia, é “nossa”.

Nem toda a estrutura de poder de homens e mulheres se dá de forma generalizável em qualquer sociedade. Mas salta aos olhos o fato de que aparentemente os corpos seguem passíveis de objetificação para domínio, fáceis, dispostas em filas para abate, mesmo em dias de fuga, para uso e descarte.

Seria, ainda que agressivo, possível dizer que existem corpos em espaços de guerras que não recebem este reconhecimento para uso para populações exteriores. Temos escutado em noticiários internacionais narrativas deste teor. “Não são refugiados, são europeus, civilizados. É triste pois têm pele branca e olhos azuis”. Nem toda a fila ganha objetificação externalizáveis com repercussão internacional. Jamil Chade deixou claro isto, com sua coluna sobre o assunto esta semana, Emicida arrematou com uma citação de Mia Couto

Em espaços de vulnerabilidade extrema, ao que parece, o corpo da mulher é coisa de outros. Embora em tempos de paz mudem-se os termos de posse (e, portanto, quem pode usar e descartar), o objeto segue à mercê.

A discussão trazida por Segato sobre estratégias bélicas e objetificação (e destituição) dos corpos femininos e feminilizados* com sistemática violação se aprofunda muito mais (obviamente) e diz respeito a guerras. Mas também a uma sociedade que é bélica para além do Estado. Isso incluiria disputas de poder diversas – as quais não me alongarei (mais ainda) neste texto. Mas que vale a leitura por sua análise articulando colonialismo – especialmente nas relações Latino Americanas e Africanas.

Finalizando

Me pareceu difícil retomar qualquer pauta para um Dia Internacional da Mulher com tantas idéias de objetificação de corpos femininos, em falas tão grotescas quanto as escutadas nestes últimos dias. 

Não é ofensa sermos chamadas de putas, fáceis, pobres, trabalhadoras, gostosas. Nada disso é ofensa, pois NADA disso torna qualquer mulher menos ser humano que um homem. Não nos ofendemos com falas assim.

Mas é preciso que se compreenda o quanto falas que nomeiam corpos de mulheres desta forma querem destituir mulheres de si mesmas, pela violência. É pela destruição delas enquanto seres humanos, sujeitos de direito sobre si mesmas.

Isso não é ofensa (risos), tanto quanto não é uma fala isolada e impensada. Isso é uma fala que configura e institui a violência cotidiana a grande parcela da população, a que no dia de hoje, 8 de Março, lembramos que existe, com flores.

Observações

*Rita Segato se refere aos corpos neste formato “corpos femininos e feminilizados”, referindo-se a questões mais amplas do que o padrão de gênero binário. Esta questão a autora expõe com mais detalhes entre as páginas 110-124 do livro, especialmente olhando para a complexidade da noção de gênero em populações indígenas e africanas anteriores ao período de colonização européia.

Sobre Ana Arnt 51 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*