Sobre Twitter, Facebook e acesso aberto de publicações científicas

A revista científica Angewandte Chemie International Edition é uma das mais conceituadas, senão a mais importante, da área de química. Com um fator de impacto de 10,879, publica artigos científicos relacionados a todas as áreas de química. É o periódico de química por excelência, ao lado do Journal of the American Chemical Society (JACS).

O editorial da última edição da Angew. Chem. Int. Ed. traduz, de certa forma, a angústia científica contemporânea, e se refere à rapidez na publicação e disseminação da informação, além de ressaltar a importância na geração de conteúdo de qualidade. No editorial, Volker Gerhardt, um dos mais importantes filósofos alemães da atualidade, assinala a importância do acesso aberto (open access) para a publicação de trabalhos científicos, sem que se confunda a utilização desta com a promoção da ciência, qualidade com quantidade, e que não se perca o rumo para se avaliar, de maneira racional, o que realmente constitui boa ciência.

Peter Gölitz, que assina o editorial, indica o perigo que constitui a utilização do acesso aberto, uma vez que este é pago pelos autores. Sendo desta forma, as revistas científicas muito em breve perderão assinaturas institucionais e dependerão quase exclusivamente dos autores para sobreviver. Consequentemente, o risco de que muitas revistas passem a aceitar a “menor unidade publicável” (ou seja, artigos de qualidade marginal) não deve ser negligenciado, pois dependerão destes para continuar a existir. Ainda, levanta questões interessantes, sobre quantas publicações se espera do desenvolvimento de um determinado projeto e se um projeto deve gerar publicações científicas à exaustão.

Levando-se em conta a necessidade de sobrevivência das revistas científicas, atualmente os editores encontram-se sob pressão para conseguir artigos de qualidade e publicá-los o mais rapidamente possível. Desta forma, fica até mesmo difícil controlar o processo de avaliação por pares, uma vez que avaliações por demais criteriosas podem atrasar a publicação de artigos. Além do mais, Gölitz assinala que as revistas tenderão a se adaptar mais aos autores do que aos leitores, pois dependerão mais dos primeiros. Porém, tal argumentação é questionável, pois os autores lêem as próprias revistas em que publicam, e esperam que sejam citados por seus trabalhos publicados. Considerando-se que estes devem se apresentar segundo as boas normas de editoração, espera-se que se construa um equilíbrio de necessidades e expectativas entre autores, editores e leitores das revistas científicas com acesso aberto.

Angewandte Chemie International Edition já adotou o acesso aberto – é um dos poucos periódicos científicos de excelência que o fez , ao lado da PLOS One (uma lista completa de periódicos de acesso aberto pode ser encontrada no Directory of Open Access Journals). A American Chemical Society (ACS), editora de muitas revistas de alto conceito, reluta em adotar o acesso aberto. Embora já tenha adotado a publicação eletrônica como seu principal meio de disseminação (a partir de 2010 a ACS não mais publicará revistas na sua forma impressa). Neste sentido, o Journal of the Brazilian Chemical Society é um periódico científico de vanguarda: adotou o acesso aberto há vários anos – gratuitamente. Mais recentemente a revista Química Nova (que aceita artigos em português, inglês e espanhol) também se tornou completamente on-line, de acesso aberto gratuito. Ambos JBCS e Química Nova são publicações da Sociedade Brasileira de Química.

Um dos elementos de diferenciação da Angewandte Chemie International Edition é o grau de exigência para aceitação de artigos a serem publicados. A atual taxa de rejeição é de 78% de todos os artigos submetidos para publicação no Angewandte Chemie. Considerando-se o custo da avaliação dos manuscritos submetidos, boa parte do valor pago pelos autores que publicam na Angew. Chem Int. Ed. de acesso aberto se refere ao processo de avaliação por pares. Principalmente porque os trabalhos rejeitados custam mais caro para serem analisados do que os trabalhos aceitos. Não somente em termos de custos financeiros, mas principalmente de tempo (que reflete no financeiro). Além disso, os revisores da revista passam a ter um papel crucial na qualidade da revista. Segundo Gölitz, até outubro/2009 foram submetidos 6500 artigos à Angew. Chem. Int. Ed., que necessitaram de 18000 avaliações por pares. Destas, 12000 foram realizadas. No caso de revisores que avaliam dois ou mais artigos por mês, a revista passará a fornecer um certificado especial, atestando o valor do trabalho realizado por estes assessores. O corpo editorial acredita que desta maneira estará valorizando o trabalho de seus revisores e colaborando para seu reconhecimento em suas instituições de origem. Que assim seja.

Gölitz termina por justificar, em seu longo editorial, a necessidade do pagamento de diversos outros custos a partir do momento em que a revista adotou o acesso aberto.

Existe um porém na utilização do acesso aberto. Os custos de publicação por acesso aberto são altos. Variam de centenas a milhares de dólares por artigo científico. Quem pode pagar tais valores? Pesquisadores de países desenvolvidos. Pesquisadores de países em desenvolvimento terão cada vez mais dificuldade em arcar com tais despesas. Sendo assim, será oficializada a divisão da ciência em artigos publicados em revistas de acesso aberto de alto custo e aqueles publicados em revistas de acesso aberto (ou apenas impressas?) marginais. Tal divisão não é boa, e conduzirá a sérias distorções no extremamente lucrativo mercado das publicações científicas, que aos poucos leva à mercantilização da ciência como nunca se viu antes. É lamentável que, além da classificação dogmática da ciência por fatores de impacto, índice-h e número de citações, a ciência caminhe para ser um objeto de extremo luxo.

Caminho sem volta? Ou momento para reflexão?

O editorial de Peter Gölitz, “Twitter, Facebbok, and Open Access … encontra-se no prelo na revista Angew. Chem. Int. Ed., mas pode ser visualizado aqui, infelizmente só por aqueles que dispõem de acesso institucional (ou pessoal) ao periódico.

Peter Gölitz (2009). Twitter, Facebook, and Open Access … Angewandte Chemie International Edition DOI: 10.1002/anie.200906501

Discussão - 6 comentários

  1. Joey Salgado disse:

    Incluo-me nos 78%, infelizmente. Enviamos um artigo (uma comunicação, na verdade) para avaliação no Angew. Chem. e, no mesmo dia, veio uma resposta de um acessor do editor recusando o trabalho, sob alegação de que o escopo da revista é mais geral e o assunto aborado era específico demais e muito restrito a um segmento da área de química. Mas foi um dos e-mails mais educados que já recebi! Sempre é chato, já que se submetemos o trabalho, acreditamos que ele, pelo menos, seja digno de uma avaliação por pares, mas nem isso tivemos, hehe! Paciência, uma hora consigo!
    Inté!

  2. Sibele disse:

    Muito me agrada quando vejo aqui no ScienceBlogs Brasil posts abordando essa temática. Afinal, a Comunicação Científica é inerente à Ciência – diz-se mesmo que a Ciência depende visceralmente da comunicação para se concretizar: se não publicada, a Ciência não existe.
    Sobre o livre acesso às informações científicas, indico a elegante argumentação de Jean-Claude Guédon, um acadêmico militante do “open access”, que explora todos os elementos desse universo, permitindo uma compreensão global dessa problemática:
    Guédon, Jean-Claude. In Oldenburg’s long shadow: librarians, research scientists, publishers, and the control of scientific publishing. In: CREATING DIGITAL FUTURE, May 2001. ARL Proceedings of 138th Membership Meeting. Washington, DC: Association of Research Libraries, 2001. 70pp. Disponível em:
    http://www.arl.org/resources/pubs/mmproceedings/138guedon.shtml.

  3. Roberto disse:

    Oi Sibele,
    Valeu pela dica. Mas não consegui abrir o link que você incluiu no teu comentário. Se você puder incluir novamente, eu agradeço.
    Roberto.

  4. Sibele disse:

    Eita! Era o ponto. Já corrigido! Obrigada!
    Agora vai!
    Guédon, Jean-Claude. In Oldenburg’s long shadow: librarians, research scientists, publishers, and the control of scientific publishing. In: CREATING DIGITAL FUTURE, May 2001. ARL Proceedings of 138th Membership Meeting. Washington, DC: Association of Research Libraries, 2001. 70pp. Disponível em:
    http://www.arl.org/resources/pubs/mmproceedings/138guedon.shtml

  5. Marcelo Hermes disse:

    Roberto,
    Muito bom o seu post. Irei, nos próximos dias, comentar este post em meu blog.
    O maior perigo do Open Acess é a perda de qualidade dos artigos. Há uma grande editora da India, com mais de 100 títulos, que tem a seguinte politica: pagou, publicou.
    Nós, da comunidade PLOS, somos muito sérios em termos de manter a qualidade da ciencia.
    Eu acho que essa conversa de criar “castas” de quem publica em revista cara ou barata é um exagero de sua parte. Nunca existirá mesmo um mundo igualitário, pois o ser humano é UNIQUE – cada um de nós é direfente um do outro.
    E, para quem é duro (pobre), nós da PLOS oferecemos grandes descontos, que podem ser de até 100%! (mas tem que solicitar)
    MHL

  6. Roberto disse:

    É Marcelo, eu realmente fico preocupado que tenhamos, eventualmente, que pagar caro para publicar em revistas de acesso aberto. No passado eu submeti um artigo para uma revista deste tipo, que pediu 500 Euros para disponibilizar o artigo em acesso aberto. Eu não dispunha desta verba na época, e o artigo ficou sob acesso restrito (somente para assinantes) durante 1 ano.
    Não sei quanto custa publicar em acesso aberto na PLOS One, ou na Angewandte Chemie (que é a melhor revista de química para publicar trabalhos experimentais), mas não deve ser barato. Assim, é bom saber que existe a possibilidade de se obter descontos. Ainda mais se o artigo aceito para publicação for bom.
    abraço,
    Roberto

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