Epicuro e o questionamento do “argumento do design”

O argumento em favor de um “projeto” (o assim chamado “argumento do design”) para descrever os fenômenos naturais data da Grécia e Roma antigas. Filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Cícero e Plutarco defenderam tais argumentos, sendo que seus principais questionadores foram Epicuro e Lucrécio. Segundo Sócrates, por exemplo, os seres humanos são produtos de um projeto divino, uma vez que apresentam os atributos de inteligência, e não de um processo acausal.

A concepção filosófica de Sócrates foi elaborada para rebater a visão de mundo de Demócrito e Leucipo, fundadores do atomismo, segundo a qual o mundo material e a vida resultam da existência de partículas muito pequenas, os átomos (tomo = divisão; a-tomo = indivisível). Da mesma forma como Sócrates, Platão, aluno do primeiro, promoveu uma filosofia criacionista. Platão afirmou que a ordem se originava a partir do caos através da matéria, e estabeleceu a idéia de um Demiurgo (uma entidade sobrenatural, divina), que seria a maior de todas as causas e responsável pela formação do mundo.

Depois de Platão, Aristóteles propôs que tudo no mundo tinha um propósito. Esta é uma noção particularmente importante para entender a idéia de um projeto (design), que requer um projetista (designer). “Teleologia” é o termo cunhado para exprimir a idéia de uma razão final, um propósito, um objetivo, e que permeia os argumentos em favor de um “design”. Desta forma, o “design” seria a maneira através da qual um “designer” (projetista) manifesta seus propósitos, seus objetivos. Logo, qualquer argumento criacionista traz teleologia na sua essência. Aristóteles é considerado o pai da teleologia.

Os Estóicos foram aqueles que apresentaram o “argumento do design” da maneira mais explícita. Propuseram uma visão teleológica de um deus providencial, a existência do qual podia ser verificada através da “evidência do design” na natureza. Cícero, em sua obra “A natureza dos deuses”, defende abertamente o argumento em favor do design.

Por outro lado, Epicuro e seus seguidores, principalmente Lucrécio, desenvolveram uma lógica argumentativa extremamente sofisticada para questionar o argumento do design. A filosofia de Epicuro procurou apresentar argumentos de que os fenômenos naturais estavam livres do destino estabelecido pelos deuses e pelo determinismo mecanicista. Epicuro e Lucrécio rejeitaram qualquer explicação teleológica para o mundo material e os fenômenos da natureza. Epicuro procurou descrever o mundo em termos de seus processos naturais e não em termos de suas causas finais, uma vez que estas não podiam ser conhecidas, mas apenas ser objeto de especulação. Segundo Epicuro, uma explicação científica deveria ser obtida a partir da experiência, e estar de acordo com os princípios gerais que regem os fenômenos naturais, sem que se procurasse inferir quais seriam as possíveis causas (desconhecidas) destes fenômenos (naturais) ou a razão pela qual estes existiriam ou seriam do jeito que são.

Sem os conhecer de maneira deliberada, Epicuro criou os modernos conceitos de emergência e contingência no cerne de sua argumentação sobre o mundo natural. Segundo Epicuro, “nada permanece sempre da mesma forma, tudo está em mudança. Tudo é transformado pela natureza e é forçado a seguir novos caminhos”. Ainda segundo Epicuro, “a ação [dos fenômenos naturais] decorre como resultado da organização”, segundo a qual “a organização cada vez mais complexa de formas de vida superiores permite o surgimento [emergência] de novas maneira de vida, novas funções e comportamentos” (Foster, Clark, York, Critique of Intelligent Design, páginas 55-56).

Epicuro forneceu bases para explicar o desenvolvimento da sociedade humana, como o surgimento da linguagem, o altruísmo e a aquisição do fogo. Rejeitou toda interferência divina na história da humanidade, e promoveu a liberdade de pensamento, livre da superstição e da religião de estado. Foi o primeiro filósofo que propôs a noção de incerteza nos rumos da natureza, e também foi o primeiro a entender a contingência nos fenômenos naturais. Ou seja, que estes fenômenos resultam de uma série de fatores, coincidentes, que dão origem a um fenômeno ou a um processo particular.

Em seu ensaio “Materialismo e Revolução”, Jean-Paul Sartre afirma que Epicuro foi o primeiro filósofo que promoveu a idéia de libertação do homem de seus medos e aprisionamentos, e o primeiro que tentou abolir a escravidão (J. P. Sartre, Literary and Philosophical Essays, página 207). Sempre procurou combater uma religião do estado, como proposto por Platão em suas Leis. Segundo Epicuro, os deuses não tinham relação com o universo natural, mas somente com um mundo sobrenatural, que não poderia ser explicado, uma vez que a razão humana não têm acesso aos desígnios divinos. Assim, Epicuro não era ateu. Apenas defendia a idéia que o mundo subrenatural de deus não poderia ser alcançado pela razão.

Epicuro foi o primeiro pensador a introduzir o conceito de “contrato social”, e a afirmar que a moralidade é moldada historicamente e determinada pela prática social humana.

Ao rejeitar o “argumento do design”, Epicuro se estabeleceu como sendo o opositor aos Platonistas. Por isso, foi condenado pela Igreja dos Pais por sua rejeição à divina providência e à imortalidade da alma. Epicuro é considerado como sendo o maior crítico do “argumento do design” na idade antiga. Dante Alighieri (1265-1321), em seu clássico “Inferno”, descreve Epicuro e seus seguidores condenados à tortura eterna em caixões abertos.

A partir do surgimento do cristianismo, as idéias de Epicuro foram sendo deixadas de lado, devido à dominação da igreja. Durante a Idade Média as idéias de Epicuro foram praticamente esquecidas, até a redescoberta do manuscrito “De Rerum Natura” em 1417, de autoria de Lucrécio, principal seguidor de Epicuro. As idéias de Epicuro renasceram com o Iluminismo, e se tornaram a base para o desenvolvimento científico. Filósofos como Francis Bacon, Pierre Gassendi, René Descartes, Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, David Hume e Immanuel Kant incorporaram muito da filosofia de Epicuro quando da fundação da filosofia da ciência tal como é atualmente conhecida. Assim, Epicuro é conhecido como sendo o pai das ciências naturais empíricas.

Bibliografia consultada
J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.
J. P. Sartre, Literary and Philosophical Essays, New York, Criterion Boos, 1955.

Discussão - 9 comentários

  1. Cesar Ramos disse:

    Prezado Roberto,
    Permita-me cumprimentá-lo por trazer â baila este filósofo tão vilipendiado, em troca da precedência do carma ocidental.
    Permita-me, outrossim, contestar o atrelamento de Epicuro às elucrubações dos filósofos elencados como iluministas. Embora nascidos naquela época, (Bacon, Descartes e Hobbes nem tanto, posto pertencerem à Renascença) nenhum destes chegou a triscar algum iluminismo; pelo contrário, foram grandes apagões, mormente Rousseau. E por paradoxo, esses filósofos vieram jusstamente impregnados pelo vírus platônico,facilmente demonstrável, e amplamente citado.
    A rigor, tanto Demócrito quanto Epicuro só foram resgatados no limiar do XX, com a Quântica e a Relatividade, embora o Iluminismo, sim, tenha lhe estendido o tapete, mas por John Locke, Montesquieu, Tocqueville e Adam Smith.

  2. Hugo Hoffmann disse:

    Interessante o argumento, infelizmente a filosofia não traz colaborações à ciência experimental provando nem desprovando o Design Inteligente.

  3. Roberto disse:

    Caro César,
    Bom saber. Na verdade, o têrmo “iluminista” no meu texto foi mal aplicado, pois tinha a intenção de indicar filósofos que trouxeram à luz argumentos em favor da filosofia naturalista. Muito obrigado por seus comentários pertinentes.
    abraço,
    Roberto

  4. Roberto disse:

    Caro Hugo,
    A questão aqui não é a prova experimental, e sim o argumento filosófico. Fazendo uso do “argumento do design”, o Movimento do Design Inteligente vincula-se, necessariamente, à teleologia, a qual não pode ser provada, somente especulada.
    Prova de que membros do MDI são frontalmente contra a filosofia Epicurista de cunho naturalista são as palavras de um de seus ideólogos, Philip E. Johnson. Philip E. Johnson manifesta que a visão naturalista, de Epicuro até hoje, pode ser vista como “imperialismo (…) fundada em premissas materialistas (…) [que concede] ao reino da religião absolutamente nada, no final (Philip E. Johnson, “The Wedge of Truth: Splitting the Foundations of Naturalism, Downers Growe, Illinois, Intervarsity Press, 2000, páginas 99-100).

  5. Chloe disse:

    Adorei essa postagem!
    Muito instrutiva.
    Parabéns.
    ; )
    C.

  6. Curiosamente, Aristóteles pode tb ter expresso um pensamento muito similar ao pensamento darwinista a respeito de certas características dos organismos. Como nota Darwin em seu esboço histórico:
    “Aristóteles, em seu ‘Phisicae Auscultations’ (lib. 2, cap. 8, s. 2), após destacar que a chuva não cai para fazer o grão crescer mais do que cai para estragar os grãos ao fazendeiro quando da colheita, aplica o mesmo argumento à organização; e acrescenta (conforme tradução do Sr. Clair Greece, que foi o primeiro a apresentar a passagem a mim), ‘Então o que impede às diferentes partes [do corpo] de ter tal relação meramente casual na natureza? como o dente, por exemplo, que cresce por necessidade, os frontais aguçados, adaptados a serem cravados, e os molares achatados e prestimosos para mastigar alimentos; uma vez que eles não foram feitos para esse propósito, mas são o resultado de acidente. E de um modo parecido com outras partes nas quais parece existir uma adaptação para um fim. Onde quer que, então, todas as coisas juntas (isto é, todas as partes de um todo) ocorrem como se feitas para alguma coisa, elas são preservadas, tendo sido apropriadamente constituídas por uma espontaneidade interna; e sempre que as coisas não forma assim constituídas, pereceram, e ainda perecem’. Aqui vemos o princípio da seleção natural prenunciada, mas o quão pouco Aristóteles compreendeu o princípio em sua totalidade é demonstrado por suas observações sobre a formação dos dentes.”
    []s,
    Roberto Takata

  7. Roberto disse:

    Caro xará,
    Muito obrigado pelas informações.
    abraços evolutivos,
    Roberto Berlinck

  8. Eli Vieira disse:

    Oi Roberto,
    Gostei do texto, mas não concordo com o parágrafo
    “Segundo Epicuro, uma explicação científica deveria ser obtida a partir da experiência, e estar de acordo com os princípios gerais que regem os fenômenos naturais, sem que se procurasse inferir quais seriam as possíveis causas (desconhecidas) destes fenômenos (naturais) ou a razão pela qual estes existiriam ou seriam do jeito que são”
    Epicuro explicitamente recomendou um método de multiplicidade de hipóteses para explicar os fenômenos naturais, para que pudéssemos inferir o que nos é invisível (a condenação da inferência não faz parte da doutrina de Epicuro). A restrição é que essas hipóteses fossem naturalistas, e não sobrenaturalistas.

  9. Roberto disse:

    Oi Eli,
    Obrigado pelo comentário e suas observações, sempre bem-vindas.
    grato,
    Roberto

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