Um causo sobre o coronavírus no dia do trabalhador

Dia do trabalhador, combinei com um colega do trabalho de pegar um computador no laboratório porque o meu pifou.

Na volta pra casa, solicitei uma corrida pelo aplicativo. Veio um motorista muito engraçado e conversador chamado de José (nome fictício para preservar a identidade do motorista).

De cara, ele me perguntou:

– Você não tem máscara?

Ele estava seguindo todo o protocolo.

Eu respondi:

– Não.

Ele falou:

– É só amanhã que começa a multa, né?

Eu não sabia que ia ser lei.

De acordo com o motorista, a partir de amanhã a máscara seria obrigatória em Fortaleza e região metropolitana com multa de 130 reais para quem não acatar a lei. 

Em seguida, disse para ele que não estava informada, mas que ia checar a informação e o agradeci pelo dado. Enquanto, escrevo esse causo no Blog Quimikinha, encontrei no site oficial do Detran que o que ele falava, na verdade é uma notícia falsa, “Fake News”. Tal como mostra o esclarecimento em Nota do Detran-CE na Figura a Seguir.

DETRAN-CEARA

Daí, ele começou:

– Você acredita nessa história de que esse vírus veio do morcego?

Eu respondi:

 – Olha, existe uma alta possibilidade de que isso possa ser verdade.

Daí, ele soltou o verbo:

– Pois, eu não acredito. Isso é mentira. Esse vírus foi criado. 

 Sorri, dizendo:

– Seu José, hoje em dia a gente escuta tudo porque a gente não é surdo. Mas, confiar, a gente não confia em nada. Checa as coisas que o povo diz por aí. É a melhor coisa que se faz. O mundo está cheio de grávidas de Taubaté! Sorrimos juntos!

Começamos um bom debate com direito a muitas risadas e, muitos “como assim” você não acredita em proteína, DNA, etc?

Comecei a falar o pouco do que sei como leitora de material sobre a origem do coronavírus. 

Disse para ele que era possível porque já ocorreu outras vezes. Citei como o exemplo, o HIV que o vírus original “pulou” de uma espécie de macaco para o homem, [1] assim também como o MERVS (Coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio – MERS-CoV) que tem sua origem no camelo. [2]

E, que nesse caso, alguns pesquisadores realizaram uma comparação de uma proteína importante que atua no ato da infecção (a proteina spike) do novo coronavírus com outros mais coronavirus mais antigos e conhecidos presentes no morcego e no pangolim. [3] E, eles encontraram uma alta taxa de similaridade. 

Para mais informações básicas sobre isso, por favor, veja o vídeo, a seguir:

Não existe bom argumento para Sr. José.

Ele continuou dizendo:

– Eu não acredito!

Daí, viemos para a ciência básica. Falei um pouco de DNA e como a gente carrega semelhança genéticas com nossos pais. E, que isso também é verdade para o coronavírus. Porém, ele também não acredita em ciência básica. E, pediu para mudar de assunto. 

Eu ria dizendo:

– O Senhor é uma figura hilária!

Na rota até chegar em casa, continuamos nos assuntos das ciências básicas, passamos por assuntos de religião e chegamos na existência de seres extraterrestre. Foi uma viagem e tanto!

Chegamos ao destino. Agradeci pela corrida e nos depedimos! Ao final, dei cinco estrelas no App para Sr. José, a viagem foi ótima e o papo também foi muito bacana.

De uma forma geral, o que sabemos sobre a possível transferência zoonótica?

A transmissão de patógenos de um animal vertebrado para um humano, também conhecido como transbordamento zoonótico, representa uma carga global de saúde pública que, embora associada a múltiplos surtos, ainda permanece um fenômeno pouco compreendido.

Embora ainda preliminares, os dados atuais sugerem que os morcegos ou pangolim são a fonte inicial mais provável do atual surto do novo coronavírus,[3] iniciado em dezembro de 2019 em Wuhan, China.

Essa epidemia de COVID-2019 não será a última pandemia associada a eventos de transbordamento zoonótico. E, dessa forma, aprender com esses novos eventos e apoiar a ciência para que novas descobertas sejam realizada é fundamental. Além disso, apoiar e exigir ciência básica também é de suma importância.

Conversar com pessoas que não tem conhecimento básico também é necessário. No entanto, sem dar uma carteirada de “eu sou doutor” e com muita empatia. Respeitando os limites de cada um e, percebendo, sobretudo, que o conhecimento tem suas barreiras.

Ontem, dia do trabalhador, eu aprendi muito com um motorista da Uber. Muito obrigada, Seu José!

Ah! A próposito…

Feliz dia de trabalhador!

Até logo!

Referências Bibliográficas

1. Sharp, P. M., & Hahn, B. H. (2011). Origins of HIV and the AIDS Pandemic. Cold Spring Harbor Perspectives in Medicine, 1(1), a006841–a006841. https://doi.org/10.1101/cshperspect.a006841

2. Ji, J. S. (2020). Origins of MERS-CoV, and lessons for 2019-nCoV. In The Lancet Planetary Health (Vol. 4, Issue 3, p. e93). Elsevier B.V. https://doi.org/10.1016/S2542-5196(20)30032-2

3. Andersen, K. G., Rambaut, A., Lipkin, W. I., Holmes, E. C., & Garry, R. F. (2020). The proximal origin of SARS-CoV-2. Nature Medicine, 26(4), 450–452. https://doi.org/10.1038/s41591-020-0820-9


Gisele Silvestre

Atualmente, sou pesquisadora na área de inovação tecnológica no Laboratório Multiusuário de Química e Produtos Naturais sediado na Embrapa - CE (Postdoc). Doutora em Química pela Unicamp (2017). Bacharel em química pela Universidade Federal do Ceará (2011). Interessada na popularização da ciência, parcerias, trocas de conhecimentos científicos e culturais. Tenho como hobby o ato de "aprender" . O conhecimento sempre me surpreende e fascina. Minha missão é compartilhar conhecimento e descobertas científicas. Ciência para todos! Carpe Diem!

3 comentários

Santos · 8 de maio de 2020 às 15:34

É difícil aceitar que as pessoas não acrefitam em DNA…isso é negacionismo…ser apenas do contra …

Maria Lair Sabóia de Oliveira Lima · 21 de maio de 2020 às 07:19

Muito legal o papo! É muito interessante ver como as pessoas estão pensando e a aceitabilidade de certos conceitos pelas pessoas.

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