Burocracia na pesquisa científica gerando empregos

Bureaucracy by ItsK
Bureaucracy by ItsK

A pesquisadora Lygia Pereira da Veiga desabafou bonito no facebook:

E querem saber? EU NÃO AGUENTO MAIS!!!! ANVISA, DEIXE EU FAZER MINHA PESQUISA!!!

C√©lulas-tronco congeladas em gelo seco, enviadas para uma colabora√ß√£o com Harvard (eu disse HARVARD!!!) est√£o h√° 10 dias no aeroporto, paradas pela ANVISA, que s√≥ falta pedir um documento com o nome de solteira da m√£e pra liberar o material. P√ī, √© muito dif√≠cil fazer um cadastro de pesquisadores e facilitar a entrada para eles?

√Č como ela disse: rola uma press√£o absurda do governo e da sociedade para o Brasil melhorar a produ√ß√£o cient√≠fica e inova√ß√£o. Mas como fazer isso se quem est√° afim de fazer s√≥ toma porrada por falta de estrutura no pa√≠s?

√Č isso mesmo Lygia, tem que rodar a baiana! Enquanto o projeto de lei do Rom√°rio para facilitar a importa√ß√£o de insumos pra pesquisa n√£o sai, vamos ficar nesse limbo da ci√™ncia, fazer o qu√™?

Mas veja pelo lado positivo: uma das exigências da anvisa é essa:

“Obs: Orientamos ao preencher a declara√ß√£o, evitar termos muito t√©cnicos ou nomes de dif√≠cil entendimento para facilitar a compreens√£o.”

Opa, olha aí uma oportunidade para os pós-graduandos formados sem emprego: tradutor de termos técnicos científicos para burocratas aduaneiros!

Pois é, para fazer ciência no Brasil você tem que considerar que o copo está metade cheio.

A valorização do pós-graduando importa?

*** Esse texto faz parte da blogagem coletiva ‚ÄúQual √© o valor do aluno de¬†p√≥s-gradua√ß√£o¬†stricto sensu?‚ÄĚ lan√ßada pelo site P√≥s-Graduando ***

Quando recebi o convite dessa ação, comecei me informando sobre seus objetivos e aproveitei para conhecer a opinião dos autores que já haviam contribuído. E não é que foi exatamente da leitura desses textos que nasceu o meu? Explico.

Constante nos textos foi uma frase que todo estudante de mestrado e doutorado, ap√≥s alguns momentos de quase surto, se acostuma a ouvir quase com indiferen√ßa: ‚Äúmas voc√™ s√≥ estuda?‚ÄĚ.

Essa indiferen√ßa pode ser adquirida de maneiras bem diferentes. Tem gente que desenvolve surdez seletiva, que aprende como um mestre a evitar essa discuss√£o… No meu caso, entendi que quase ningu√©m que faz essa pergunta tem ideia do que s√£o, como funcionam e quais s√£o os prop√≥sitos de um mestrado ou doutorado na √°rea de ci√™ncias.

S√≥ que isso vai ser assunto para outro texto e vou aproveitar a oportunidade para escrever n√£o sobre o p√≥s-graduando, mas sobre o Brasil. E para isso vou adicionar √† discuss√£o outro ser incompreendido desse pa√≠s: o professor. E ele tem que se acostumar √†s suas pr√≥prias frases cru√©is, como ‚Äúprofessor, voc√™ s√≥ d√° aula?‚ÄĚ e a campe√£ ‚Äúquem n√£o sabe fazer, ensina!‚ÄĚ.

[abre parênteses] Imagina quando eu estava ao mesmo tempo na pós e dando aula? [fecha parênteses]

Essas frases, para mim, refletem um √ļnico problema: educa√ß√£o. Mais precisamente a import√Ęncia (ou falta de) dada √† Educa√ß√£o, o que tem impacto direto na import√Ęncia dada √† Ci√™ncia, Tecnologia e Inova√ß√£o (CTI). E essas concep√ß√Ķes sobre p√≥s-graduandos e professores s√£o, em grande parte, subproduto da vis√£o do estado brasileiro sobre o tema.

Tenham certeza: a falta de seriedade com que professores e p√≥s-graduandos s√£o encarados em nosso pa√≠s resulta do descaso brasileiro ‚Äď governo e cidad√£o ‚Äď para com educa√ß√£o.

Não tá fácil prá ninguém... mas tem jeito.

Verdade seja dita, parte desse problema n√£o √© exclusividade nossa. Mesmo um pa√≠s superdesenvolvido cient√≠fica e tecnologicamente como os EUA t√™m problemas com a valoriza√ß√£o de professores, e os alunos de p√≥s s√£o muitas vezes considerados subempregados. Duvida? Acesse os quadrinhos de Jorge Cham no PHD Comics e veja o cotidiano acad√™mico retratado por l√°. O conte√ļdo das tirinhas √© humor√≠stico, mas baseado na pr√≥pria experi√™ncia acad√™mica do autor. Tamb√©m √© muito comum ele elaborar seus desenhos de sugest√Ķes de undergrads e grad students norte-americanos.

Assim, o que esperar de um pa√≠s que, verdade seja dita, ainda engatinha em dire√ß√£o ao time de ‚Äúprimeiro mundo‚ÄĚ da Educa√ß√£o e CTI?

Felizmente isso n√£o √© um problema mundial. Na Holanda, por exemplo, grande parte de quem se disp√Ķe a fazer um doutorado assina contrato de emprego e √© um trabalhador como outro qualquer. Mesmo nos EUA, que t√™m problemas parecidos com os nossos, quem se disp√Ķe a tocar um p√≥s-doutorado faz isso como empregado (ao contr√°rio do que acontece no Brasil, onde novamente o sustento √© proveniente de bolsas).

Por essas e outras continuo, como um zumbi, recitando o ‚Äúmantra da resolu√ß√£o dos problemas no Brasil‚ÄĚ: educa√ß√£o, educa√ß√£o, educa√ß√£o. Investir com seriedade, paci√™ncia e compet√™ncia em Educa√ß√£o Fundamental e M√©dia formar√° cidad√£os melhores e conscientes da necessidade de se investir em CTI.

Isso é um processo, não adianta investir um quadrilhão de dólares em CTI se a tal mão de obra qualificada for analfabeta funcional ou incapaz de pensar criticamente. Esse é o motivo de o investimento na formação de cidadãos ser mais importante do que gastar tubos de dinheiro com alta tecnologia. Como diz uma expressão em Inglês, quando entendermos isso e passarmos à ação, the rest follows.

E da√≠ n√£o ser√° necess√°rio realizar mobiliza√ß√Ķes sobre a import√Ęncia do p√≥s-graduando ou sobre o reajuste de bolsas… e sinceramente? Se voc√™ est√° passando por todo o estresse de um mestrado e/ou doutorado, da rotina (falta de rotina?) dif√≠cil, muitas vezes extenuante e comprometedora, e ainda fica chateadinho quando algu√©m tenta desqualificar sua escolha acad√™mica, siga o conselho abaixo:

"Fique tranquilo, trabalhe muito e pare de mimimi". Sério.

Quer ver o início desse movimento e ler os textos dos outros participantes? Acesse o link do Pós-Graduando em http://www.posgraduando.com/pos-graduacao/qual-e-o-valor-do-aluno-de-pos-graduacao-stricto-sensu.

Filosofia de laboratório.

Modelo tridimensional da estrutura do DNA.

Dia normal no laborat√≥rio. Vi que alguns alunos estavam preparando um gel para SDS-PAGE e perguntei se estava tudo OK. Responderam que “sim”, s√≥ estavam esperando o gel polimerizar por causa de uma receita que levava bem menos TEMED do que estamos habituados a fazer. Dito isso, comentei:

“Se voc√™s estiverem com pressa podem por um pouco mais. S√≥ tomem cuidado para o gel n√£o polimerizar antes de voc√™s o colocarem na forma. Outro dia mesmo fiquei pensando no sentido da vida ou sei l√° o que e quando percebi, o gel tinha polimerizado e precisei refazer tudo…”

Eu mal terminei de falar isso e a resposta veio na lata:

“Ah, na d√ļvida √© sempre 5¬ī -> 3¬ī !”

Isso que d√° ficar muito tempo num laborat√≥rio de biologia molecular…

 

PS: não entendeu? Que tal lembrar da estrutura do DNA e de sua replicação na figura abaixo?

Sentido das fitas de DNA (esquerda) e um modelo de sua forquilha de replicação (direita).

PPS: “o sentido da vida” j√° foi descoberto faz muito tempo!

Imagens:

Getty Images (royalty-free) / WikiCiências / Wikipedia

Carnaval acadêmico 2012 e a Unidos da Pós-graduação!

Não resisti e fotografei o resultado de 5 pessoas Рcontanto este que vos fala, claro Рtrabalhando direto no laboratório durante o carnaval. As fotos foram tiradas no final da tarde da 4ª-feira de cinzas.

Bancada? Onde?
Alguém aí viu o NaCl? Não encontrei no armário!
Difícil deixar arrumado precisando correr vários SDS-PAGE em sequência...
Quando acabam as ponteiras começa o "momento zen": encher caixinhas!
"Ei, como é que tá a apuração das escolas de samba?" "Sei lá, meu, perdi minha calculadora, ajuda aqui!"

Esses são só alguns flashes que mostram o resultado final de ficar no laboratório tantos dias seguidos. Cansa, mas compensa pela rapidez em se conseguir resolver experimentos pendentes.

Claro que depois limpamos e arrumamos tudo, sen√£o a chefe mata a¬†gente. Ela √© compreensiva com a zona, mas tudo tem limite… De qualquer modo,¬†√© muito bom quando o laborat√≥rio entra no modo “produ√ß√£o agressiva como se n√£o houvesse amanh√£”.

Ah, e prá constar, o clima não esfriou depois que acabaram os feriados. Preparei esse post rapidinho no sábado enquanto esterilizava a sala de cultura de células.

Acho que vou trocar a placa de “Biologia Molecular” do meu laborat√≥rio por um p√īster de “Onde os fracos n√£o t√™m vez”. Combina.

 

Burocracia eterna das trevas.

Todo mundo imagina Рcorretamente Рque laboratórios de pesquisa sejam recheados de equipamentos caros, complexos e quase mágicos. Em quase 100% dos casos isso é verdade e implica outra característica: são importados.

Da√≠, al√©m de toda a complica√ß√£o para se conseguir o dinheiro da compra, a importa√ß√£o e o recebimento da dita cuja, temos a m√£e de todo o Mal: a Burocracia (sim, mai√ļscula pois essa entidade j√° est√° no pr√≥ximo Deuses Americanos do tio Gaiman).¬†A Dona Burocra (apelido carinhoso dado por um grande amigo e adotado por muitos com quem trabalho) faz de tudo para te pegar. Seja falta de espa√ßo no laborat√≥rio, briga entre departamentos para decidir quem vai “sediar” a novidade, entraves de patrimoniamento institucional etc. Podem escolher √† vontade que o card√°pio √© extenso.

Assim, uma visão comum são caixas lacradas Рàs vezes bem grandes Рque ficam meses Рsim, MESES Рencostadas em salas, no corredor, na garagem, no estoque. Uma beleza.

No corredor de entrada do laboratório em que trabalho existe uma dessas caixas. Francamente, acho até que alguém decidiu que ela funciona melhor como peça de decoração e que deixá-la como está é uma boa ideia. Vejam a dita cuja:

Caixa decorativa para corredores: encomende a sua! (Foto: arquivo pessoal)

A seta vermelha mostra um detalhe novo que me chamou a aten√ß√£o faz alguns dias. Algu√©m muito espirituoso achou o formato da caixa sugestivo e resolveu “plantar” uma piada para quem gosta de cinema. ¬†Vejam a criatividade do sujeito:

Um pouco mais perto... essa imagem lembra alguém, não lembra? (Foto: arquivo pessoal)

E, finalmente, a surpresa. Sério, eu morri de rir quando vi isso pela primeira vez e todo dia chegando ao laboratório eu dou um pelo menos um risinho:

Tem coisas que s√≥ institui√ß√Ķes p√ļblicas de pesquisa podem fazer por voc√™... Contemplem O SENHOR DAS TREVAS! (Foto: arquivo pessoal)

Piadas √† parte, me peguei pensando… Imagina se durante aquele experimento maldito que me obriga a virar a noite no laborat√≥rio eu ou√ßo:

Listen to them. Children of the night. What music they make…

Eu hein… credo =/

 

PS: não entendeu a referência? Clica aqui malandro -> http://www.imdb.com/title/tt0021814/quotes

The biology book is on the table: biólogos virando professores de inglês

A f√≠sica do “the book is on the table”

Post patrocinado: Cursos Gratuitos

Minha mulher voltou a fazer aulas de ingl√™s para desenferrujar, e as aulas s√£o num sistema particular em que voc√™ marca quando pode e a empresa indica um professor para este hor√°rio. Assim cada dia voc√™ pode ter aula com um professor diferente. No primeiro dia ela volta e diz que o professor dela era da Inglaterra e fez biologia por l√°. Legal. No segundo dia de aula ela volta e diz que a aula foi boa, a professora era simp√°tica e, surpresa, √© BI√ďLOGA tamb√©m!

Ah, espera um pouco! Como bi√≥logo eu fiquei espantado. Isso √© acaso ou os bi√≥logos n√£o est√£o achando mercado mesmo? Fiquei preocupado, pois dos meus colegas a grande maioria est√° na √°rea acad√™mica, fazendo mestrado e doutorado (e p√≥s-doutorado, pra me lembrar como estou ficando velho), ou dando aulas nos mais diversos n√≠veis, ensino fundamental, m√©dio, superior, particulares ou p√ļblicas e at√© mesmo na ind√ļstria.

Não estou desmerecendo quem dá aula  de inglês, e sei que emprego não tá fácil, mas quem faz biologia não sonha em se formar para dar aula de línguas, concorda?

Pode ser que o problema não seja só o mercado, mas sim o erro ao escolher a profissão. Sempre achei muito temeroso forçar as pessoas a decidir suas carreiras aos 17 anos. Na minha utopia seria assim: todo aluno formado no ensino médio teria que fazer 2 anos de um curso profissionalizante, com estágio e tudo. Só depois disso eles teriam autorização para prestar um vestibular. Isso ajudaria a definir com mais segurança quem quer seguir a carreira acadêmica e quem quer já entrar no mercado.

Sei tamb√©m que existem os per√≠odos de d√ļvida e transi√ß√£o em que a gente fica desempregado, sem bolsa, ou cansado dessa vida de professor ou p√≥sgradua√ß√£o, mas uma op√ß√£o que muitos amigos pr√≥ximos tem feito √© de dar aulas particulares ou oferecer cursos. E d√° para arrumar uma aula de biologia, mas o que o pessoal realmente precisa √© qu√≠mica, f√≠sica e matem√°tica, que os bi√≥logos tiram de letra tamb√©m, certo? [diga que sim, n√£o me envergonhe agora, ok?]. Ent√£o anuncie seu curso, ou escolha um curso pra melhorar seu curr√≠culo. Aqui vai uma dica: Cursos gratuitos

Por dentro da SBBq 2011!

Semana passada avisei que estava prestes a viajar para a 40ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq), e que ao voltar compartilharia pontos interessantes do evento.

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Antes, no entanto, acho v√°lido situar os leitores que n√£o sabem exatamente o que s√£o esses congressos, o que acontece nos mesmos e porque eles s√£o importantes. 
O que s√£o?
Os congressos s√£o reuni√Ķes/encontros de entidades de classe ou associa√ß√Ķes para a apresenta√ß√£o de confer√™ncias, e podem ser cient√≠ficos ou t√©cnicos. Geralmente essas reuni√Ķes recebem os membros de uma Sociedade (que pode ser de Bioqu√≠mica, Gen√©tica, Microscopia etc.), os alunos (orientados) destes membros, pesquisadores convidados e expositores de produtos/servi√ßos relacionados ao tema central.
O que acontece nessas reuni√Ķes e qual a sua import√Ęncia?
De modo geral a programa√ß√£o do evento envolve palestras, simp√≥sios, cursos e apresenta√ß√Ķes de trabalhos. Essas apresenta√ß√Ķes podem ser na forma impressa (com poster) ou oral, dependendo da ocasi√£o. No caso da SBBq, a programa√ß√£o cient√≠fica foi dividida da seguinte forma:
  • Confer√™ncias: um √ļnico convidado discorre sobre sua especialidade (ou linha de pesquisa, ou achados recentes etc.), geralmente com maior dura√ß√£o do que as palestras combinadas nos simp√≥sios (ver pr√≥ximo item). Esses espa√ßos costumam ser destinados aos pesquisadores/convidados de “maior destaque”.
  • Simp√≥sios: reuni√£o com um tema geral em que tr√™s ou quatro convidados especialistas na √°rea ministram palestras curtas (em torno de meia hora). S√£o interessantes pois a diversidade de palestrantes sempre gera discuss√Ķes boas, al√©m do acesso a especialistas que muitas vezes seriam de dif√≠cil contato (por quest√Ķes geogr√°ficas, por exemplo; pode-se conversar de uma vez com especialistas da sua √°rea que sejam do seu estado, de estados longes do seu ou de fora do pa√≠s). 
  • Poster1.jpgApresenta√ß√Ķes de trabalhos: nesse momento ocorrem as exposi√ß√Ķes dos trabalhos enviados pelos congressistas. Sal√Ķes de exposi√ß√£o s√£o montados e normalmente as apresenta√ß√Ķes acontecem em mais de um dia, organizados de acordo com as √°reas abordadas (por exemplo: um dia para bioqu√≠mica celular, educa√ß√£o em bioqu√≠mica e glicobiologia, e outro dia para biologia molecular de procariotos, de eucariotos e assim por diante.). No momento de exposi√ß√£o os autores devem ficar junto a seus trabalhos para serem avaliados pela comiss√£o e/ou responderem e explicarem seus resultados a outros congressistas interessados.

No final das contas, sou da opini√£o que a participa√ß√£o em congressos √© importante para termos contato mais pr√≥ximo a pesquisadores que normalmente seriam menos acess√≠veis e para conversarmos em geral com outros participantes sobre trabalhos relacionados (ou concorrentes), futuras colabora√ß√Ķes ou mesmo assuntos que n√£o estejam relacionados ao nosso dia a dia, mas despertem nosso interesse.

Poster2.jpg
Salão de exposição lotado durante a apresentação de trabalhos.

E as minhas impress√Ķes?
Foi consenso que a reuni√£o estava mais “vazia” em rela√ß√£o a edi√ß√Ķes anteriores. Talvez isso seja reflexo de o evento ser realizado em uma cidade tur√≠stica (no caso, Foz do Igua√ßu e suas cataratas de cair o queixo) e de a grande maioria dos participantes serem estudantes bem novinhos mais preocupados com a viagem do que com o a programa√ß√£o cient√≠fica do evento. 
Conversei com muita gente que reparou que existia muito movimento para conhecer Foz, o Paraguai e tudo o mais, enquanto algumas palestras ficaram bom pouco p√ļblico e poucas perguntas e discuss√£o. Justamente o que julgo mais importante nessa situa√ß√£o. Lembro que em 2007, quando a SBBq foi em Salvador e contava com aproximadamente tr√™s mil inscritos isso tamb√©m aconteceu em alguns momentos.
Cataratas1.jpg

OK, OK, esse cen√°rio n√£o ajuda a acompanhar as palestras… mas d√° pr√° conciliar melhor, n√© pessoal?!

De qualquer modo, gostaria de parabenizar a c√ļpula da SBBq por organizar o Simp√≥sio em Educa√ß√£o. Para mim foi o ponto alto do evento, os palestrantes foram √≥timos, os t√≥picos relevantes, a discuss√£o excelente e as conversas que tive com os palestrantes e alguns congressistas, igualmente produtivas. N√£o vou me alongar nesse ponto agora pois esse material est√° sendo elaborado em separado e ser√° publicado em breve.
Tamb√©m tive a oportunidade de encontrar com os “marinheiros de primeira viagem” em congressos cient√≠ficos e no geral tive conversas muito boas, voc√™s ver√£o mais sobre esses personagens nos pr√≥ximos posts.
Noves fora, o congresso, apesar de um pouco dilu√≠do devido a sua abrang√™ncia foi muito produtivo tanto para o meu Doutorado quanto para os blogs. Aliando esse fato √† beleza das Cataratas e da Argentina (que visitei em minha √ļltima noite para um excelente jantar com a minha mulher), a viagem teve saldo muito positivo.
Que venham outras!

O primeiro congresso a gente nunca esquece…

Para come√ßar gostaria de pedir desculpas pela falta de atualiza√ß√Ķes no blog. Ando com um bloqueio pesado, escrever est√° bem dif√≠cil mas vou fazer o poss√≠vel para recuperar o ritmo nas atualiza√ß√Ķes do RNAm e do Ciensinando.

O motivo desse post √© o seguinte: um dos passos obrigat√≥rios para quem come√ßa a trabalhar com ci√™ncia ainda na Gradua√ß√£o √© a participa√ß√£o em congressos cient√≠ficos. Essas reuni√Ķes re√ļnem especialistas, estudantes e professores da √°rea representada no congresso, que assistem a palestras, participam de cursos, conversam muito entre si e apresentam parte de seus trabalhos de modo geralmente bastante descontra√≠do.

sbbq.png

Poster_SBBq2011.jpg

Pensando nisso, resolvi aproveitar a minha participação no congresso da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (a SBBq) para mostrar como é um congresso de grande porte. Vocês verão o que acontece, conversarei com alguns palestrantes, professores e, se tudo der certo, com alguns participantes de primeira viagem.

Ali√°s, uma pr√©via do meu trabalho pode ser vista na imagem ao lado, clique para ampliar.

Quero encontrar gente que esteja participando pela primeira vez de uma reunião assim. A ideia é conversar sobre a experiência: expectativas, animação com as atividades e com a programação e, claro, os receios sobre apresentar pela primeira vez parte de seu trabalho de pesquisa.

Para ficar mais fácil, quem tiver interesse em conversar comigo pode me encontrar durante o período em que estarei apresentando meu trabalho.

Minha “poster session” est√° marcada para a segunda-feira, dia 02 de Maio, entre as 16h30 e as 18h30 no Expocenter III do Centro de Conven√ß√Ķes do Hotel Rafain Palace, em Foz do Igua√ßu – PR.

Espero vocês lá!

Bioinform√°tica: o emprego do futuro.

Bioinformatics logo

Comecei a falar de bioinform√°tica (bioinfo) no post passado, e continuarei falando dela aqui porque n√£o s√≥ √© uma √≥tima dica de carreira cient√≠fica como √© uma necessidade cient√≠fica e social estimular essa carreira pela import√Ęncia que ela tem e ter√° no futuro para ampliar nosso conhecimento.

Porque h√° tantos projetos?

Quando come√ßamos na carreira cient√≠fica geralmente √© assumindo um projeto, de inicia√ß√£o cinet√≠fica, mestrado ou doutorado direto, e muitas pessoas podem parar por a√≠ por n√£o encontrarem um orientador com projetos que o interessem no momento. Em bioinfo isso n√£o acontece pois os projetos surgem aos borbot√Ķes e nas mais diversas √°reas, afinal a quantidade de dados que surge √© imensa e sempre d√° pra tirar algo novo de um banco de dados que j√° existe, onde a informa√ß√£o est√° l√°, esperando para ser minerada, e novos dados est√£o sempre surgindo em velocidade cada vez maior, com os novos sequenciadores, por exemplo. Assim, projetos nunca faltar√£o, e as bolsas junto com eles.

Porque h√° t√£o pouca gente?

Esse é o maior gargalo da área: achar bioinformatas. Isso se explica por dois fatos principais: 1- biólogos não gostam de exatas e nem de programação; 2- computeiros até gostam de biologia, mas ganham muito mais em outras áreas como recem-fromados.

Assim, quem cobre esta área são na maioria físicos e matemáticos. Mas há sim computeiros e biólogos, claro, e estes se destacam bem se aprendem o outro lado da moeda bio/info.

O que preciso saber para ser bioinformata?

Hoje em dia, pelo desespero das institui√ß√Ķes por bioinformatas, voc√™ n√£o precisa de nada, s√≥ gostar de pelo menos duas dessas √°reas e n√£o chegar a odiar nenhuma delas: biologia, programa√ß√£o, estat√≠stica e matem√°tica. Voc√™ ter√° um ano ou dois para aprender o que lhe faltar nessa equa√ß√£o tocando um projeto de mestrado. Mas as √°reas de interesse s√£o estas que eu mencionei. Claro que quanto mais preparado voc√™ estiver mais chances ter√°, por isso segue aqui a dica de onde encontrar cursos de especializa√ß√£o de interesse com nosso parceiro Educaedu Brasil.

Uma √°rea nova e promissora

A bioinfo √© nova no Brasil, estamos na segunda gera√ß√£o de bioinformatas se considerarmos que o projeto genoma da Xylela foi o que introduziu o Brasil na biologia molecular contempor√Ęnea criando a primeira gera√ß√£o de bioinformatas (direta ou indiretamente), tais como Emmanuel Dias-Neto, Helena Brentani, Sandro Souza, Anamaria Camargo e Paulo Oliveira. Esses s√£o s√≥ os que eu conhe√ßo, mas olhar o lattes deles j√° pode dar uma id√©ia das possibilidades da carreira.

E sobram vagas de alto nível para pesquisadores nesta área. O Hospital AC Camargo e o INCOR, ambos hospitais fortes em pesquisa que perderam recentemente seus bioinformatas, têm dificuldade de encontrar alguém para esta posição.

Então meu filho, sente aí e aprenda a programar.

Super-Sequenciamentos de DNA e a lei de Moore

Dia 19 de abril √© o anivers√°rio da Lei de Moore que diz, segundo a Wikipedia “…[em 1965] o ent√£o presidente da Intel, Gordon E. Moore fez sua profecia, na qual o n√ļmero de transistores dos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada per√≠odo de 18 meses. Essa profecia tornou-se realidade e acabou ganhando o nome de Lei de Moore.”

Lei_de_moore_2006.svg

fig: A evolução dos precessadores e a lei de Moore

Uma profecia e tanto, porque é um ritmo frenético, concorda? Eu ainda lembro quando jogava Space Invaders no meu XT sei-lá-o-que na tela fósforo verde.

O engraçado é que, sem saber do aniversário, eu ouvi sobre a lei de Moore essa semana. Mais do que isso, ouvi sobre algo que anda mais rápido que a lei de Moore: a potência do sequenciamento de DNA.

O RNAm foi convidado para o lançamento da nova tecnologia de sequenciamento da Life Technologies, o Ion Torrent. Muito legal a tecnologia e parece que vai revolucionar a área de sequenciamento mesmo. Se você é da área entre no link caso se interesse, vale a pena (como não sou da área, não vou entrar em detalhes). Só vou dizer uma coisa: essa coisa consegue detectar a mudança de pH gerada pela liberação de hidrogênio quando uma base, A,T, C ou G se liga à fita a ser sequenciada!

Bom, neste evento foi citada a lei de Moore para compará-la com a evolução da tecnologia de sequenciamento. Veja aqui a comparação do custo de um genoma e o custo dos processadores:Sequencing graphs to slides

Isso muda muita coisa. Com sequenciamentos baratos e rápidos, áreas como a epidemiologia vão mudar, e já estão mudando muito. Técnicas como arrays irão aos poucos sumir, dando lugar ao todo-poderoso, direto e inequívoco sequenciamento.

E j√° tem muita gente no Brasil fazendo muita coisa com sequenciamento. Duas palestras muito interessantes: uma com o pessoal da bioinform√°tica da FioCruz, o Cebio, que oferecem uma estrutura de an√°lise e planejamento de sequenciamento e tem parcerias com v√°rios pesquisadores e empresas; outra coisa interessante √© a Rede Paraense de Gen√īmica e Prote√īmica, da UFPA, um centro com muita estrutura e colabora√ß√Ķes, isso tudo fora do sudeste.

Esses dois centros s√£o muito importantes, sabe porque? Porque m√°quinas como o Ion Torrent est√£o deixando o sequenciamento cada vez mais f√°cil, mas o que fazer com aquele monte de letras ACTG? O funil do conhecimento nessa √°rea √© a an√°lise, e por isso esse knowhow destes centros vale ouro. Bioinform√°tica vale ouro. √Č emprego certo porque pouqu√≠ssima gente tem o conhecimento necess√°rio (essa √© a frase que eu mais ou√ßo ultimamente em todas as √°reas no Brasil). Tamb√©m, precisa entender de biologia, matem√°tica e programa√ß√£o, mas bi√≥logos n√£o suportam exatas, e exatos, bem, at√© gostam de bio, mas ganham muito mais em inicio de carreira em outras √°reas do mercado de trabalho.

Ent√£o veremos o que fazer com as toneladas de dados gerados pelos simples, r√°pidos e baratos sequenciamentos.