Greta Thunberg: jovem ativista dá novos ares à justiça climática

Greta Thunberg: jovem ativista dá novos ares à justiça climática

Desenho de Greta Thunberg sentada em um globo terrestre, com os olhos fechados e abraçando as próprias pernas. Ela veste uma camisa branca de mangas compridas, uma calça azul e tênis azuis com sola branca, além de suas tranças características. O fundo azul da imagem mescla com as cores do próprio globo, pintado em tons de azul e verde.
A síndrome de Asperger deu a Greta um hiperfoco em mudanças climáticas

No dia 3 de janeiro, a ativista ambiental Greta Thunberg completou 17 anos. Mas, ao contrário da maioria dos adolescentes de sua idade, ela não comemorou com um bolo e uma festa ao lado dos amigos. Greta usou essa sexta-feira para continuar sua greve escolar em prol do meio ambiente, com um protesto de 7 horas em frente ao Parlamento sueco, em Estocolmo, como vem fazendo desde agosto de 2018.

A ativista tinha apenas oito anos quando aprendeu sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global em uma aula do primário, o que a levou a uma depressão profunda, que a fez parar de falar e comer. Greta não conseguia entender como acontecimentos tão graves como ursos polares famintos, clima extremo e inundações não estavam sendo priorizados pelos governantes e, em uma tentativa de ajudá-la, sua família começou a mudar alguns hábitos para reduzir sua pegada de carbono, como aderir ao veganismo e
parar de utilizar avião.

Quando tinha 12 anos, a adolescente foi diagnosticada com Asperger, uma síndrome dentro do espectro do autismo, o que ajudou a explicar sua reação ao descobrir sobre a crise climática. Como não processa informação da mesma forma que pessoas neurotípicas (pessoas que não estão no espectro do autismo), ela não conseguia compartimentalizar o fato de que seu planeta estava em perigo. Ou seja, para ela, não era possível deixar isso de lado e continuar levando a vida normalmente (https://www.biography.com/activist/greta-thunberg).

O autismo é caracterizado por dificuldades com a interação e a comunicação social, incluindo aversão ao contato visual e problemas para entender pistas não-verbais. Embora cada pessoa do espectro seja diferente e traga um conjunto de habilidades tão único quanto qualquer outra pessoa, existem algumas qualidades que são típicas, como hiperfoco, propensão à precisão e grande profundidade de conhecimento e habilidades. Isso quer dizer que apesar dessas pessoas não terem, necessariamente, interesses diferentes dos de seus colegas, o foco, a motivação e a paixão desses indivíduos em sua área de interesse geralmente são muito mais aprofundados.

Greta fala abertamente das vantagens da neurodiversidade e da ideia de que as diferenças neurológicas são variações humanas e não doenças a serem curadas. Por isso, ela considera o diagnóstico o seu superpoder: “Isso faz você pensar de maneira diferente. Especialmente em uma crise tão grande como essa, precisamos pensar fora do nosso sistema atual, precisamos de pessoas que pensem fora da caixa e não sejam como todos os outros”.

Greta não gosta de multidões, ignora conversa fiada e fala em frases diretas e simples. Ela não se distrai facilmente e nem se impressiona com celebridades, além de não se interessar em sua própria fama. Mas foram essas mesmas qualidades que a ajudaram a se tornar uma sensação global. Enquanto outros sorriem para diminuir a tensão, Greta intimida, enquanto outros utilizam a linguagem da esperança, ela repete: “Os oceanos subirão, as cidades vão inundar, milhões de pessoas sofrerão”.

A repercussão de seus atos em frente ao parlamento sueco incentivou estudantes de outras comunidades a se organizaram em protestos semelhantes. Com o aumento de sua fama, ela foi convidada para falar em diversos encontros, mas acabou se tornando mundialmente reconhecida com seu discurso nas Nações Unidas (COP24), em dezembro de 2018, no qual se apresentou como representante da “Justiça Climática” e acusou os líderes mundiais e as elites econômicas de serem as responsáveis pelo atual cenário catastrófico (https://www.lifegate.com/people/news/greta-thunberg-speech-cop24).

Mais recentemente, em seu discurso na Cúpula do Clima da ONU, em setembro de 2019, Greta citou alguns dados para compor sua argumentação, como o fato de que, se a emissão de gases do efeito estufa reduzir pela metade em 10 anos, haverá 50% de chance de se atingir a meta de aumento da temperatura média em até 1,5°C. Muitos céticos da mudança climática causada por humanos tentam desacreditar a ativista pela sua pouca idade ou falta de qualificação ambiental, mas estas e outras informações utilizadas por ela são resultados de pesquisas feitas nas principais instituições de pesquisa do mundo e estão disponíveis gratuitamente em bancos de dados verificados.
Além disso, a jovem já afirmou que, antes de seus discursos, consulta acadêmicos e especialistas na área para revisarem seus textos.

Ativismo jovem e feminino

Mas Greta é apenas uma entre várias jovens ativistas que vêm surgindo nos últimos anos e ganhando destaque em diversas linhas de atuação. Como exemplo, podemos citar Shamma Al Mazrui, 25 anos, que se tornou a mulher mais jovem do mundo a entrar para a política e é atualmente Ministra de Estado para Assuntos da Juventude dos Emirados Árabes Unidos.
Temos também Malala Yousafzai, 22, ativista paquistanesa pela educação feminina, que foi a pessoa mais jovem do mundo a ganhar um prêmio Nobel, e as americanas Yara Shahidi, 19, que luta pela educação e empoderamento feminino, Jamie Margolin, 18 anos, ativista pelo meio ambiente e Isra Hirsi, que além de militar pelo clima, também luta pela justiça racial em seu país (https://www.insider.com/young-activists-climate-change-guns-greta-thunberg-2019-9).

Atualmente, a juventude tem se dedicado muito mais do que as gerações mais velhas ao ativismo sócio-global, o que é bastante benéfico porque eles tendem a falar a mesma língua que as novas gerações e conseguem incentivar essas pessoas a se interessarem pelo tema. No caso das mudanças climáticas, essas ativistas trazem visibilidade para assuntos científicos complexos e que muitas vezes ficam escondidos dentro dos muros das instituições de pesquisa.

Muitos de nós, cientistas, trabalhamos para diminuir a emissão dos gases de efeito-estufa, mas não conversamos corretamente com a população e nem explicamos os nossos resultados de maneira simples, para que todos entendam o que está acontecendo com o planeta e tomem decisões informadas. E esse tem sido o nosso maior erro, pois os efeitos das mudanças climáticas não são mais riscos futuros, mas sim acontecimentos atuais, como podemos observar com os incêndios florestais na Austrália, que já mataram dezenas de pessoas e dizimaram cerca de 500 milhões de animais.

O que Greta e outras jovens como ela pedem é que as pessoas comecem a atuar agora, apoiadas no que a ciência diz, e talvez até inspirando outras pessoas a se tornarem cientistas. “Aprender sobre as mudanças climáticas desencadeou a minha depressão, mas foi também o que me tirou da depressão, porque havia coisas que eu poderia fazer para melhorar a situação. Não tenho mais tempo para ficar deprimida”.

Para saber mais

https://www.insider.com/young-activists-climate-change-guns-greta-thunberg-2019-9
https://www.biography.com/activist/greta-thunberg
https://www.npr.org/2019/09/23/763452863/transcript-greta-thunbergs-speech-at-the-u-n-climate-action-summit
https://www.ipcc.ch/
https://www.ted.com/talks/greta_thunberg_the_disarming_case_to_act_right_now_on_climate_change/transcript?language=pt-br
https://time.com/person-of-the-year-2019-greta-thunberg/
https://www.nature.com/immersive/d41586-019-03749-0/index.html

Arte: Ana Paula Roza

Pesquisadora de Pós doutorado at UNICAMP

Bacharel em Engenharia Química (2006) da Universidad Industrial de Santander (Colômbia), Mestre (2010), Doutora (2014) e atualmente pós-doutoranda em Engenharia Química na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Foi pesquisadora de pós-doutorado (2016) do Algae R&D Centre, Murdoch University na Australia. A sua especialidade são biocombustíveis, biotecnololgia e obtenção de bioprodutos a partir de microalgas.

Jornalista de ciência

Bacharel em comunicação social com habilitação em jornalismo (2009) e especialista em jornalismo científico (2015). Cursa atualmente o mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Unicamp) com uma pesquisa sobre a trajetória de mulheres na botânica. Seus principais interesses são divulgação científica, mulheres na ciência, gênero na ciência e política científica e tecnológica.

Estudante de Doutorado da FEQ UNICAMP

Bacharel (2017), e atualmente doutoranda, da Faculdade de Engenharia Química na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atua na área de pesquisa desde a graduação, com intercâmbio e projeto de verão desenvolvidos na Universidade de Manchester (Reino Unido), iniciação científica na UNICAMP e estágio no CNPEM. Interesse principal no desenvolvimento de bioprodutos e processos sustentáveis.

Biologa e Doutora em Ciências

Formada em biologia pela UNESP (Rio Claro) em 2013, Doutora em Ciências pela UNICAMP em 2019 e, atualmente, pesquisadora em engenharia genética e biologia molecular para produção de insumos para a indústria de alimentos na Universidade Técnica da Dinamarca. Apaixonada apor ciências, livros, séries e viagens.

3 thoughts on “Greta Thunberg: jovem ativista dá novos ares à justiça climática

  1. Feliz pela atuação em prol da ciência pela minha ex-aluna de IC. Acompanhando as ideias do ex-orientador.

      1. Muito obrigada, Professor! É sempre uma grande alegria receber comentários das pessoas que nos acompanham há tanto tempo e nos inspiraram a adentrar à ciência! Grande abraço!

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