Iniciação científica no ensino médio incentiva participação feminina na ciência

Iniciação científica no ensino médio incentiva participação feminina na ciência

Meninas do ensino médio trabalhando nos laboratórios da Unicamp são incentivadas desde cedo e mudam as suas histórias de vida.

Banner do programa PIBIC- EM. Ao fundo há imagens de alunos que fizeram parte do programa segurando seus diplomas. Na parte superior esquerda há o logo da Unicamp e na inferior direita, o logo da Pró-reitoria de Pesquisa da Unicamp. Ao centro, há os dizeres: PIBIC-EM Programa Nacional de Bolsas de Iniciação Científica - Ensino Médio.
Programa PIBIC-EM incentiva alunos do ensino médio a realizarem iniciação científica em laboratórios de pesquisa. Fonte: PRP Unicamp.

A cada dia encontramos um número maior de mulheres nas mais diversas profissões ao redor do mundo. Ainda assim, incentivar meninas a seguirem carreiras em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharias e Matemática) tem se mostrado um exercício desafiador. Desde muito cedo, elas são incentivadas a desenvolverem interesse por carreiras associadas ao feminino, como humanidades ou a área de cuidado, mas esse cenário limitante tem perdido espaço frente às mudanças do papel feminino na sociedade. Além de ser uma questão de justiça social, a criação de ambientes mais diversificados resulta em novos olhares e multiplicidades de pontos de vista, o que é especialmente benéfico no desenvolvimento da ciência.

Mas como atrair meninas e jovens mulheres para este universo tão tradicionalmente dominado por homens? Uma proposta bem-sucedida tem se desenvolvido por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM), financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), um órgão governamental que visa fomentar o desenvolvimento científico no Brasil. O PIBIC-EM é um programa voltado à distribuição de bolsas de estudo para alunos de ensino médio de escolas públicas e que queiram desenvolver atividades de Iniciação Científica (IC) em Universidades, Institutos de Pesquisa e Institutos Tecnológicos brasileiros. Na Unicamp, ele está vinculado às Diretorias de Ensino Leste e Oeste (Campinas, Valinhos, Vinhedo e Jaguariúna) e das Diretorias de Ensino de Limeira e de Piracicaba. As inscrições ao programa geralmente acontecem em abril e a duração é de um ano, começando sempre no segundo semestre do ano.

Apesar de não ser voltado especificamente para atrair meninas para o mundo científico, o programa tem sido bastante eficiente neste quesito. Pelo menos é isso o que mostram os resultados da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). De acordo com dados fornecidos pela Pró-reitoria de Pesquisa dessa universidade, desde o início em 2008 até 2019, o programa atraiu cerca de 2300 estudantes, sendo a maioria composta por meninas. Como exemplo, em dezembro de 2019, 252 estudantes de ensino médio estavam desenvolvendo atividades de iniciação científica nos laboratórios da Unicamp, sendo que elas representavam 60% do total.

Essa é uma média que tem se mantido ao longo dos anos. Entre 2014 e 2019, 992 meninas participaram do programa, representando 65% do total de estudantes. Além disso, contrariando o esperado, a atuação delas tem se concentrado nas áreas biomédicas e tecnológicas, representando 38% e 37% das inscritas, respectivamente. Áreas de humanas e exatas tem atraído menor participação, com 14% e 11% do total de meninas inscritas, respectivamente.

Meninas têm melhor desempenho na escola

Uma possível explicação para essa maioria feminina pode estar relacionada aos critérios definidos pelo CNPq para participação no programa. A classificação dos alunos selecionados deve ser feita pela própria escola de origem, levando em consideração o histórico escolar de cada estudante. De acordo com dados divulgados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2018, as meninas brasileiras obtiveram aproximadamente 30 pontos a mais em leitura e ciências do que os meninos, e 9 pontos a menos em matemática. Assim, numa média global, as notas delas costumam ser maiores do que entre os meninos em mesma idade escolar.

Ainda de acordo com os dados fornecidos pela Pró-reitoria de Pesquisa da Unicamp, a distribuição dos alunos por áreas (Gráfico de pizza) mostra que a proporção da escolha do gênero masculino nas tecnológicas está perto do 50%, já a proporção feminina é dividida quase igualitariamente nas biomédicas e tecnológicas. As áreas de exatas e humanas representam, nos dois gêneros, uma baixa procura. Vale ressaltar que o número de estudantes selecionados depende do número de projetos submetidos pelos Professores e pesquisadores ao Programa. Portanto, pode se concluir que as áreas biomédicas e tecnológicas representam mais da metade das submissões de projetos a serem desenvolvidos por alunos no programa.

Distribuição das áreas de acordo com o gênero

Gráfico com a distribuição das alunas e alunos nos laboratórios de acordo com a área. No gráfico feminino, é possível ver que 37% foram para as biomédicas, 14% para as Humanas, 11% para as exatas e 38% para as Tecnológicas. No gráfico Masculino, 49% foram para Tecnológicas, 29% para biomédicas, 10% para humanas e 12% para exatas.
Gráfico produzido pelas autoras do blog, com base nas informações fornecidas pela Pró-reitoria de Pesquisa da Unicamp.

As meninas da Engenharia Química

A Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp é uma das unidades da Universidade que recebem bolsistas do PIBIC-EM, e duas das autoras deste blog, Luisa e Gabriela, fazem parte da orientação destes alunos. Seu grupo de trabalho estuda o crescimento de microalgas para obtenção de óleos ricos em ômegas e outros ácidos graxos, importantes para as indústrias alimentícia, farmacêutica, cosmética e de biocombustíveis. Desde 2018, sua pesquisa conta com a colaboração de três alunos do ensino médio, sendo que, atualmente, são todas meninas.

Da esquerda para a direita: alunas Luana, Larissa e Kayza no laboratório LOPCA-REF-BIORREF da FEQ/UNICAMP. Crédito: Gabriela Filipini Ferreira.

A iniciação científica foi o primeiro contato delas com um laboratório de ciências, e isso mudou suas visões sobre a Universidade e seus alunos. As estudantes relatam que antes de conhecerem a Unicamp, imaginavam a Universidade “como é vista na televisão, e em seriados e filmes norte-americanos”. Além disso, também imaginavam que o ambiente era menor e bem mais fechado à participação externa. Entretanto, no decorrer de suas experiências no programa, elas passaram a ver a Instituição como um ambiente “amplo, acolhedor aos visitantes, (com) alta assistência e disponibilidade de recursos”. Essa mudança de perspectiva possibilitou a elas almejarem que a Unicamp faça parte de seu futuro, passando de um ambiente totalmente ilusório a uma possibilidade real.

Ainda, o conhecimento da dimensão de uma Universidade e todos os benefícios que ela pode trazer ao cotidiano e à vida de uma pessoa acabou por contribuir para que elas formassem uma visão positiva de seu futuro, despertando ânimo para enfrentarem suas dificuldades diariamente e lutarem pela conquista da tão esperada (e concorrida) vaga para se tornar um estudante universitário.

Além disso, a participação das estudantes no programa tem trazido ganhos para o laboratório, incentivando o aumento da colaboração de todos os pesquisadores envolvidos e o desenvolvimento de suas habilidades de ensino e gerenciamento de pessoas.

Por fim, de acordo com as três adolescentes, o programa ainda “trouxe benefícios pessoais e profissionais” para suas vidas, pois além de possibilitar “o desenvolvimento de habilidades como trabalho em equipe e técnicas de laboratório”, a pesquisa no laboratório também as ajudou a superar transtornos pessoais, principalmente aqueles ligados à ansiedade, depressão e timidez excessiva.

O relato completo dado pelas estudantes pode ser lido abaixo na íntegra.

Relato completo das alunas

Aluna Kayza Maria Campos Américo, sobre sua primeira experiência no projeto:

Foto de Kayza em uma rua arborizada. Ela tem cabelos castanhos compridos, usa calça jeans e uma blusa branca com listras cinzas e pretas de mangas compridas.
Crédito: arquivo pessoal.

O Projeto se apresentou como uma grande novidade e oportunidade, em reconhecimento do meu esforço escolar com auxílio dos meus pais, da escola e a Universidade Unicamp. Sou grata pela paciência, confiança e acolhimento da novata pelos profissionais inseridos no projeto e às novas amizades. As experiências científicas do curso me encantaram e possibilitaram a expansão do meu conhecimento e noção da dimensão da área de engenharia química trabalhada com microalgas e as aplicações desses organismos no cotidiano humano. O curso me permitiu obter inovações particulares, desenvolvimento intelectual, conceitos de liderança, empatia, novas metas e caminhos que me auxiliaram a enfrentar dificuldades como a timidez e ansiedade, através do convívio com universitários, trabalho em equipe, em ambiente laboratorial, utilizando equipamentos de tecnologia avançada. Este projeto tem sido essencial, principalmente por estar no último ano do ensino médio, um preparo para as escolhas que farei futuramente, vestibulares, curso técnico, a faculdade”.

Aluna Larissa Sthefany da Silva, após a renovação do contrato pelo segundo ano consecutivo, devido ao seu bom desempenho escolar e nas atividades do projeto:

Imagem da aluna Larissa. Ela possui cabelos castanhos cacheados, calças jeans, uma blusa preta de alça e sandálias pretas.
Crédito: arquivo pessoal.

Para mim foi muito gratificante poder continuar no projeto por mais esse ano, onde estou adquirindo novos conhecimentos sobre várias coisas como os equipamentos laboratoriais que possuímos. Passei a ter noção de como é ter um planejamento sobre a pesquisa, aprendi a lidar melhor com minhas dificuldades e, em cima delas, trabalhar para obter melhor resultado. As pessoas com que passei a ter convívio, como nosso orientador e os monitores, acabaram virando uma espécie de espelho para mim, além de serem pessoas que estão totalmente à nossa disposição para qualquer dúvida. O projeto também me incentivou ainda mais a querer ingressar na vida acadêmica aqui dentro da UNICAMP e possivelmente me profissionalizar em Engenharia Química”.

Aluna Luana Rodrigues Alves, após a renovação do contrato pelo segundo ano consecutivo, devido ao seu bom desempenho escolar e nas atividades do projeto:

Foto de Luana em frente a uma parede branca. Ela tem cabelos negros cacheados e usa calça jeans azul clara, uma blusa preta de manga na metade do braço e botas de cano alto pretas.
Crédito: arquivo pessoal.

Fiquei muito contente em poder continuar por mais um ano. O projeto passado me permitiu adquirir um conhecimento sobre microalga e ciência que antes eu nem sonharia em ter. Essa é uma oportunidade de compreender melhor tudo sobre o projeto antigo, além de observar como a microalga se comporta quando a deixamos “estressada”. Uma nova integrante no grupo nos faz assumir o importante papel de professores e aprender ainda mais o que sabemos, assim também ganhamos uma nova amizade e a dinâmica no laboratório se tornou ainda melhor. Minha experiência tem sido a melhor possível. Poder estar em contato com a faculdade é muito importante, principalmente nesse último ano de colégio em que nos preparamos para o vestibular, Enem e outras diversas provas. A escolha do que iremos estudar futuramente é para mim algo muito complexo, contudo, essa vivência da Iniciação Científica me mostrou uma opção, me apaixonei pelo conteúdo do curso e pretendo continuar nesse campo. Todas as pessoas com que estou trabalhando nesse projeto me proporcionaram algo diferente para praticar na vida, me apresentaram novas perspectivas e como ver as coisas de um novo ângulo”.

Para saber mais:

Inscrições para o PIBIC-EM: https://www.prp.unicamp.br/pt-br/inscricoes-e-selecao-de-estudantes

Pró-reitoria de pesquisa da Unicamp: https://www.prp.unicamp.br/pt-br/pibic-em-programa-institucional-de-bolsas-de-iniciacao-cientifica-ensino-medio

PISA: http://portal.inep.gov.br/web/guest/acoes-internacionais/pisa/resultados

PIBIC-EM: http://cnpq.br/pibic-ensino-medio

Projeto da FEQ: https://correio.rac.com.br/_conteudo/2019/10/campinas_e_rmc/875379-todo-o-potencial-das-microalgas.html

Dados Fornecidos pela Pró-reitoria de pesquisa da Unicamp: Dados_PIBIC_EM_Unicamp.

Jornalista de ciência

Bacharel em comunicação social com habilitação em jornalismo (2009) e especialista em jornalismo científico (2015). Cursa atualmente o mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Unicamp) com uma pesquisa sobre a trajetória de mulheres na botânica. Seus principais interesses são divulgação científica, mulheres na ciência, gênero na ciência e política científica e tecnológica.

Estudante de Doutorado da FEQ UNICAMP

Bacharel (2017), e atualmente doutoranda, da Faculdade de Engenharia Química na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atua na área de pesquisa desde a graduação, com intercâmbio e projeto de verão desenvolvidos na Universidade de Manchester (Reino Unido), iniciação científica na UNICAMP e estágio no CNPEM. Interesse principal no desenvolvimento de bioprodutos e processos sustentáveis.

Biologa e Doutora em Ciências

Formada em biologia pela UNESP (Rio Claro) em 2013, Doutora em Ciências pela UNICAMP em 2019 e, atualmente, pesquisadora em engenharia genética e biologia molecular para produção de insumos para a indústria de alimentos na Universidade Técnica da Dinamarca. Apaixonada apor ciências, livros, séries e viagens.

Pesquisadora de Pós doutorado at UNICAMP

Bacharel em Engenharia Química (2006) da Universidad Industrial de Santander (Colômbia), Mestre (2010), Doutora (2014) e atualmente pós-doutoranda em Engenharia Química na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Foi pesquisadora de pós-doutorado (2016) do Algae R&D Centre, Murdoch University na Australia. A sua especialidade são biocombustíveis, biotecnololgia e obtenção de bioprodutos a partir de microalgas.

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