Blog como ferramenta de divulgação científica – Série: Minha Dissertação em DC

Durante a escrita dessa dissertação e o trabalho na comunicação do Blogs de Ciência da Unicamp algumas perguntas sempre estiveram presentes em eventos e rodas de conversa com divulgadores de ciência.

Cena do filme Frankenstein de 1931 – baseado no romance de Mary Shelley de 1818 Frankenstein

Mas os blogs não estão mortos? 

Vale a pena investir em blogs hoje em dia?

Por que um cientista escolheria blogs como ferramenta de divulgação científica? 

Perguntas como essas, permearam toda a minha pesquisa bibliográfica sobre o assunto, motivando pequenos parágrafos escritos em um arquivo (tipo Frankenstein) que posteriormente se tornaria capítulos…

A rede de blog ScienceBlogs Brasil também abordou essa discussão em uma blogagem coletiva com o tema. Nossa participação nessa blogagem coletiva pode ser conferida aqui – Blogs de Ciência da Unicamp – Ainda estamos aqui

Mas antes que eu pudesse respondê-las precisei entender o que, de fato, é um BLOG!

O início dos Blogs 

De acordo com Malini (2008) e Paquet (2002) os blogs se iniciaram em 1997 e o seu termo foi usado pela primeira vez pelo Jorn Barger ao se referir ao seu jornal Robot Wisdom.  

Os primeiros blogs foram componentes de sites, atualizados no código da página de forma manual mas, com sua rápida popularização, novas ferramentas foram disponibilizadas, como ordem cronológica, permalinks[4] e os comentários. Hoje em dia os blogs permitem não só diversos formatos de edição e linguagem, mas também inserção de imagens, vídeos, podcasts, links, referências bibliográficas e plug-ins de tradução, por exemplo.

Outra característica importante é que seus autores são autônomos, ou seja, não seguem editoriais ou revisão de pares, e o conteúdo publicado é de inteira responsabilidade do seu escritor.

Com o passar do tempo e a disponibilidade de ferramentas que facilitavam a abertura e manutenção dos blogs, muitos autores começaram a utilizar dessa ferramenta para escrever sobre sua expertise, assim diversos gêneros de blogs surgiram, como os humorísticos, opinativos e temáticos…

O surgimento de blogs de ciência aconteceu de forma gradual, de acordo com Zivkovic (2012), a partir daqueles que começaram a estabelecer uma frequência maior de conteúdo e com objetivos específicos, como contrariar reivindicações anticiência e criacionismo. 

Já nos blogs atuais esse objetivo continua sendo pauta, além do combate a fake news, a pseudociência e o estabelecimento de uma relação mais próxima com o seu público leitor, respondendo a dúvidas e comentários e desenvolvendo discussões sobre as postagens lidas. 

Por que um pesquisador escolheria blogs como ferramenta de divulgação científica?

É preciso ter em mente que essa é uma atividade que demanda tempo, atualização constante e muita boa vontade, assim como qualquer outra mídia de divulgação científica. Não só para manter a atividade e frequência do blog em si mas com o devido respaldo da informação, é preciso pesquisar sobre o assunto falado, buscar referências, leituras, contradições, buscar a ajuda de outros cientistas e profissionais de áreas que não seja de sua expertise, ou seja, todas as demandas que um bom texto exige.

Também é preciso entender que ainda há pouco reconhecimento da atividade de divulgador científico quanto carreira acadêmica, apesar de alguns editais de financiamento de pesquisa terem como requisito a atividade, o que acaba por desmotivar muitos cientistas a se tornarem divulgadores. 

Mesmo assim, é importante reafirmar que a atividade traz vantagens não só a sociedade mas também ao cientista, como por exemplo:

  • Aumento do alcance e o impacto das suas pesquisas e atividades acadêmicas;
  • Disponibilizar a diversos públicos informações sobre sua pesquisa e seus impactos na sociedade; (Assim como estou fazendo com essa série ♥♥♥♥♥) 
  • Desenvolvimento de habilidades de escrita;
  • Criação de networking e mentoria (a partir de colaborações);
  • Discussões sobre o tema estudado, processos e os desafios de fazer ciência, assim como comentado por Saunders (2018).

Insisto que a utilização da ferramenta BLOG traz vantagens pela sua aproximação com as atividades de escrita comuns na vida acadêmica do pesquisador (mesmo considerando que a divulgação científica possui características próprias e diferentes dos artigos científicos), é uma mídia barata e que exige pouca expertise para sua utilização e início, além das vantagens da mídia escrita que facilita explicações como gráficos e fórmulas, por exemplo.

Sobre quantos blogs científicos existem atualmente…

Tratar da mensuração de quantos blogs de ciência existem é um desafio por si só, uma vez que os blogs são mídias digitais e assim como qualquer site ou página em mídias sociais (Facebook ou Instagram, por exemplo) são fáceis de serem deletadas ou simplesmente abandonadas. 

Mas para se ter uma ideia em números, em 2017, a empresa BigData Corp[2], estimou 5,5 milhões de blogs ativos no Brasil.

Já em 2019, o Internet Live Stats[3], indicava que eram realizadas 4.191 milhões de postagens em blogs por dia. Na data de hoje (14/04/2020) esse mesmo site indicava 4.260 milhões de postagens em blogs ao dia, contudo, nessas medições não é possível saber quantas dessas postagens são sobre ciência.  

Para saber mais:

MALINI, F. Por uma genealogia da Blogosfera: considerações históricas (1997 a 2001), 2008. Disponível em: <http://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/lcvt/article/view/35> Acesso em: 28 mar. 2017.

PAQUET, S. Personal knowledge publishing and its uses in research. 2002. Disponível em : <http://radio.weblogs.com/0110772/stories/2002/10/03/ personal Know ledgePublishingAndItsUsesInResearch.html>. Acesso em: 25 mar. 2017.

SAUNDERS, Manu. Blogs de comunidade científica: reconhecendo o valor e mensurando o alcance (Artigo). Tradução de Ana Paula Tavares Teixeira e Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: <https://www.cafehistoria.com.br/blogs-comunidade-cientifica/>. Publicado em: 26 fev. 2018. Acesso: 23 jun.2018

ZIVKOVIC, Bora. Science Blogs–definition, and a history. A Blog Around the Clock, 2012. Disponível em: <https://blogs.scientificamerican.com/a-blog-around-the-clock/science-blogs-definition-and-a-history/> Acesso em: 23 mar. 2017

[2] Big Data é a análise e a interpretação de grandes volumes de dados de grande variedade. Para isso são necessárias soluções específicas para Big Data, que permitam a profissionais de TI trabalhar com informações não-estruturadas a uma grande velocidade. Disponível em: https://www.bigdatacorp.info/. Acesso em 23/02/2019.

[3] O Internet Live Stats mede e disponibiliza os números da internet em tempo real, e faz parte do portal Estatísticas em Tempo Real (Worldometers and 7 Billion World), com o objetivo de disponibilizar estatísticas em um formato dinâmico em todo o mundo. Disponível em: http://www.internetlivestats.com/
A medição apresentada nesse parágrafo foi recolhida no dia 17/01/2019 às 13:18h. 

[4] Permalink é um URL que aponta para uma postagem específica de um blog. Seu objetivo é permitir que se chegue diretamente ao post desejado quando se faz referência a alguma postagem ou a um conteúdo específico, tornando imediato o acesso ao conteúdo referenciado.

Sobre Erica Mariosa
Erica Mariosa Moreira Carneiro – Graduada em Relações Públicas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2003), Pós Graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp, Mestra em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/Unicamp e Doutoranda em Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática pelo PECIM/UNICAMP. Possui experiência na área de Divulgação Científica, atuando principalmente nos seguintes temas: divulgação cientifica, comunicação, relações públicas, mídias sociais e blogs de ciência. Participa como coordenadora da comunicação do projeto Blogs de Ciência da Unicamp como divulgadora científica, administradora e palestrante, desde 2016.

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