Carregando...
Ciência Pop

DC de Divulgação Científica ou de DC Comics? Por aqui falamos dos dois.

Estudos de quadrinhos na academia

Se você está na pós-graduação, é bem provável que as pessoas do seu convívio fora da academia não tenham muita noção do que exatamente você estuda. Dependendo da área, a reação das pessoas pode ser de espanto, dúvida ou mesmo de desmerecimento, como ocorre frequentemente com quem estuda histórias em quadrinhos (meu caso).

O estudo acadêmico de HQs não é uma novidade nem no Brasil e nem no mundo: com periódicos e eventos próprios há mais de 40 anos, há pesquisadores de quadrinhos em todas as áreas do conhecimento, áreas que vão desde a biologia e medicina, à literatura e artes plásticas.

No Brasil temos a disciplina mais longeva de editoração de quadrinhos do mundo, no curso de jornalismo da ECA-USP e é também na ECA que se realizam as reuniões do Observatório de Histórias em quadrinhos coordenado pelo professor Waldomiro Vergueiro, grupo mais antigo de estudos acadêmicos de HQ do país.

Já a Unicamp produziu um dos mais importantes trabalhos sobre quadrinhos do meio e que é até hoje usado como referência em todos os trabalhos que abordam produção de quadrinhos digitais: HQtrônicas: do suporte papel à rede internet (2001), de Edgar Franco, pelo Instituto de Artes. Isso em uma época que ninguém ainda falava sobre o uso de tecnologias eletrônicas e digitais na produção de HQs.

Logicamente, é natural pensarmos que trabalhos utilizando as histórias em quadrinhos como fontes ou objetos de estudo sejam uma exclusividade de áreas como Literatura, Artes, Comunicação e História e de fato, cada vez mais faculdades têm aceitado esse tipo de produção, mas, como sugerem Vergueiro e Ramos (2009), é possível partir dos quadrinhos para se analisar absolutamente qualquer tipo de teoria e sob todos os vieses imagináveis. Exemplo disso é que o maior prêmio de quadrinhos do Brasil, o HQMIX, possui uma premiação exclusiva para TCCs, dissertações e teses e a cada ano, pesquisadores de diversas áreas são contemplados.

Uma outra curiosidade sobre como as HQs podem estabelecer relações com todas as áreas do conhecimento, é que a ex editora da Marvel no Brasil, Carol Pimentel, é formada em Astrofísica e não foram poucas as vezes que ela teve que corrigir informações equivocadas sobre conceitos de física em quadrinhos de super-heróis. Ou seja, é bem possível que seu personagem favorito e a sua HQ mais querida já tenham sido explorados academicamente em algum lugar do mundo.

Assim, se você está se perguntando por onde começar, fique de olho nas dicas abaixo e nos próximos textos que irei publicar, que tenho certeza que aquela vontade de juntar sua paixão à sua pesquisa pode estar bem mais próxima de se concretizar do que você imagina:

1 – Acompanhe os eventos e grupos de pesquisa sobre quadrinhos.

2 – Muitos deles produzem vídeos e podcasts sobre as pesquisas que desenvolvem.

3 – Se tiver a chance de participar como ouvinte em algum evento, faça isso.

4 – Se em sua universidade houver um grupo de pesquisa, considere frequentá-lo

As reuniões do observatório de Histórias em quadrinhos da ECA-USP costumam ocorrer na primeira sexta-feira de cada mês. Atualmente elas têm sido realizadas online e qualquer pessoa interessada em participar pode solicitar ingresso por meio de uma mensagem enviada ao adm da página das Jornadas Internacionais de Histórias em quadrinhos no instagram.

As Jornadas, por sua vez, são um evento acadêmico internacional de quadrinhos que acontece na ECA-USP anualmente. Durante 3 dias, pesquisadores de várias partes do mundo apresentam comunicações que podem ser conferidas nos anais de seu site . Já os grupos Cult de Cultura e cultpoplab, ambos do Rio Grande do Sul, também promovem eventos e compartilham pesquisas em suas redes.

A associação de pesquisadores em arte sequencial (ASPAS), grupo do qual faço parte, tem sede em Leopoldina, MG, mas é integrado por pessoas do país todo, com membros honorários em vários outros países. Seu Fórum Nacional acontece bienalmente e é realizado em uma cidade diferente do país em cada edição. Além dos eventos, a ASPAS é responsável por uma vasta produção de livros que reúnem artigos de seus integrantes e que têm servido de referência para quem estuda quadrinhos em várias áreas.

O Núcleo de pesquisas em Quadrinhos (NuPeQ), da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul divulga pesquisa científica de quadrinhos em seu canal no Youtube

O Observatório Carioca de Histórias em quadrinhos, promove entrevistas e também tem uma produção de artigos reunidos em livros. Há também a possibilidade de cursar uma especialização em histórias em quadrinhos à distância ou mesmo de se estudar livremente por meio dos sites de cursos livres como Coursera, Iversity etc.

Esses são apenas algumas das iniciativas que costumam socializar a divulgação científica baseada em quadrinhos que temos no país e, ao que tudo indica, elas estão aumentando em número: de acordo com a pesquisadora Laluña Machado, estas iniciativas têm possibilitado também o aumento do número de publicações científicas sobre quadrinhos nas últimas décadas, como apontam Gentil e Callari (2013).

E para quem tem curiosidade sobre a incidência desses estudos por área, Machado apontou que, como esperado, a maior recorrência é na área de Letras, seguida por Comunicação, Artes Visuais e Sociologia.

E se você estiver pensando que isso se deve à ideia de que quadrinhos são literatura, eu já adianto que não são.

Quadrinhos, conhecidos como a Nona Arte, guardam características compartilhadas com a literatura, cinema, artes plásticas, entre outras, mas esse é um tema para outro texto.

E quanto a você? Já participou de algum evento científico de histórias em quadrinhos? Gostaria de conhecer mais sobre o assunto?

Então confira os dois podcasts abaixo e em breve eu escrevo sobre algumas publicações científicas sobre quadrinhos.

Estudando Quadrinhos no Mestrado
Quadrinhos como objetos de estudo

Referências:
VERGUEIRO, Waldomiro; RAMOS, Paulo. Quadrinhos na Educação : da rejeição à prática. São Paulo: Contexto, 2009.
FRANCO,Edgar. HQtrônicas: do suporte papel à rede internet. 2001. 189 f. Tese (Mestrado em Artes). Unicamp, Campinas. 2001.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Skip to content