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O que o filme do Capitão América: O Soldado Invernal nos ensina sobre acesso à informação, poder e proteção de dados?

O filme Capitão América: O soldado Invernal completa 8 anos de seu lançamento no dia 10 de abril desse ano. Considerado por muitos críticos como um dos melhores filmes do MCU (é de longe o meu favorito também), ele ainda permanece extremamente atual e muito pertinente quando o analisamos a partir das implicações do compartilhamento e acesso ilimitado a dados por parte de certos grupos.

Para quem se interessa em estudar as consequências da venda de dados e a forma como eles são coletados, o filme de 2014 oferece um panorama que, a princípio pode parecer bem distópico, mas, se nos atentarmos para os discursos propagados ali, veremos que eles dialogam com outras produções que visam nos alertar sobre os perigos de entregarmos nossas informações pessoais da forma como fazemos atualmente.

Em Capitão América: O soldado invernal, a trama principal gira em torno de um aparato tecnológico capaz de prever comportamentos das pessoas com base em algoritmos calibrados para certos fins.

Quando esse aparato cai nas mãos da Hydra (grupo de terroristas antagonistas da Marvel), o que se pretende é que os algoritmos sejam calibrados para prever qualquer comportamento contrário as ações da Hydra. Com os algoritmos calibrados, uma nave com milhares de armas de precisão quilométrica poderia identificar os “alvos” e matá-los antes mesmo que eles cometessem qualquer crime, em qualquer lugar do mundo.

Por mais distante que isso possa parecer, essa ideia de matar pessoas que contrariem figuras em posições de poder não lhe parece muito familiar? Onde foi mesmo que já vimos isso? E quanto aos algoritmos prevendo nossos comportamentos? Será que isso é muito Black Mirror?

 

Outras produções, das mais antigas às mais recentes, abordam essas questões no intuito de nos alertar dos perigos de fornecermos nossos dados voluntariamente ou, às vezes, inconscientemente a diversos grupos que não têm nosso bem-estar como prioridade.

Do livro 1984 de Orwell a filmes como Rede de Ódio , Ex-Machina e séries como Black Mirror, o tom ficcional não deixa de denunciar que a falta de olhar crítico sobre a forma que compartilhamos nossos dados pode nos acarretar consequências muito preocupantes. Inclusive tem um texto sobre O Dilema das Redes aqui no Mindflow!

O Dilema das Redes e porque esse problema também é seu!

Em Snowden (2016), filme dirigido por Oliver Stone, conhecemos a história de um dos homens mais visados do mundo: Snowden ficou conhecido por roubar e divulgar projetos e informações da NSA – Agência de Segurança Nacional Americana e, a julgar pelo conteúdo desses arquivos, o mundo deveria no mínimo estar em polvorosa. Porém, como estamos falando de crimes contra a privacidade cometidos pelo país mais poderoso do mundo, então fazemos filmes.

Em um clima tenso, acompanhamos toda trajetória de Snowden, desde a sua admissão no serviço secreto americano até os dias de hoje, em que ele vive em asilo político na Rússia. Grande parte da película é narrada em flashbacks, a partir de seus depoimentos à cinegrafista Laura Poitras e aos jornalistas Glenn Greenwald e Ewen McAskill, ambos do jornal britânico The Guardian.

Estes encontros foram realizados em um hotel em Hong Kong, a pedido do próprio Snowden, que, temendo pela própra vida, resolveu compartilhar seus arquivos com pessoas que julgava confiáveis o suficiente para que sua integridade não fosse ameaçada.

Snowden cometeu crime de alta traição e pelo que sabemos dos filmes conspiracionistas, a essa altura ele já estaria morto, se não fossem as medidas que ele tomou para garantir que suas informações fossem espalhadas pelo mundo, de forma que sua morte seria no mínimo suspeita.

Ainda assim, ele colocou a própria vida em jogo para garantir que o mundo soubesse que a NSA não só tem acesso a TODOS os aparelhos eletrônicos que são conectados via internet do mundo, como também teria implantado dispositivos em sistemas de segurança de diversos países, incluindo o Brasil, que são capazes de criar um blackout energético sem precedentes, caso os EUA se sintam ameaçados de alguma forma.

O principal programa de vigilância desenvolvido por Snowden é capaz de arquivar dados de conversas de Whatsapp, Messenger, Skype, telefones, de acordo com palavras chaves determinadas pela própria NSA. Tais dados compõem um sistema de tamanho imensurável e cujo backup é constante, mesmo que toda a energia dos EUA seja desligada. Ou seja, basicamente, os EUA vêm coletando informações privadas de todo mundo a partir de critérios que eles julgam necessários e caso alguma dessas informações seja entendida como ameça, então eles simplesmente ativam seus dispositivos e geram um blackout em algum país.

No entanto, o conflito interno de Snowden fica mais acentuado quando ele se dá conta que esses critérios podem ser determinados por pessoas que não têm o devido preparo ou patente para realizar essas buscas. O filme dá a entender que funcionários com posições equivalentes a de estagiários poderiam simplesmente ativar uma câmera de notebook remotamente e invadir a privacidade de qualquer pessoa, QUALQUER PESSOA MESMO!

Mas se você já estava ficando paranóico de pensar que está sendo vigiado agora mesmo, o que não é impossível, como se sentiria ao entrar em uma sala e se deparar com pessoas encontrando alvos via satélite, pelo sinal do celular, e enviando a suas localizações aos pilotos dos caças americanos em zonas de conflito?

Imagine que em a cada tiro que você dá em um jogo de vídeo-game, uma pessoa é assassinada. Pois é essa a sensação que temos em uma cena que Snowden pergunta a um dos colegas como ele sabe que o alvo em questão é de fato um alvo, logo depois de assistir um homem sendo explodido em um monitor de TV e a resposta é:

“não sabemos”

Várias cenas deixam bem claro como a informação é produto mais valioso de nossa era e que os investimentos dos EUA em tecnologia bélica fazem qualquer país parecer muito amador quando o assunto é espionagem e guerra. Por isso, ainda que pareça haver um certo exagero na representação de Snowden como um grande herói, ele realmente arriscou sua vida para conseguir mostrar ao mundo que estamos em guerra, mas uma guerra silenciosa.

Assim, não é assustador que um pequeno grupo de pessoas que se julgam superiores ao resto do mundo acredite que suas ações são nobres e que justificariam o extermínio de milhões de cidadãos, sem que estes tenham cometido qualquer crime?

Mas veja, estes cidadãos em algum momento se expressaram com palavras que foram interpretadas pelo algoritmo do sistema de vigilância- sim, Big Brother da distopia 1984 – como ameaçadores, tal qual ocorre com o sistema desenvolvido por Snowden e que hoje é usado pela NSA.

Ou seja, em um dado momento do filme, entendemos que o sistema só existe porque concordamos com ele, clicamos em “sim, aceito tais configurações desse aplicativo” e entregamos nossa privacidade em nome de uma segurança ilusória, que em vez de nos proteger, nos encarcera ainda mais.  

Em Capitão América, aceitamos abrir mão do nosso direito à privacidade em nome do medo que sentimos de sermos atacados quando aqueles que deveriam nos proteger, são os grandes vilões (a justificativa para o desenvolvimento da grande nave bélica é nos proteger dos ataques alienígenas como os de Nova York em Vingadores, de 2012).

Essa mesma questão já havia sido tratada em Minority Report, mas no lugar do sistema, que provavelmente estava em fase de desenvolvimento, há os precogs, pessoas com habilidades precognitivas que os permitem “enxergar” o futuro antes que ele se realize, evitando crimes e levando pessoas à prisão antes que tenham a consciência de que cometeriam um.

Então, se a missão de equalizar nossa necessidade de estarmos conectados e o direito à privacidade dos nossos dados parece ser impossível, o que teóricos como Siva Vaidhyanathan  propõem é que enxerguemos as redes sociais e a internet de maneira crítica, entendendo que, acima de tudo, não existe “almoço grátis”, ou seja, não usamos aplicativos e redes sociais gratuitamente, pois estamos pagando nosso acesso com informação, com dados que são comercializados de diversas formas.

E se você se interessa por temas como privacidade, sigilo e compartilhamento, esse livro reúne artigos apresentados em um encontro que discutiu tudo isso e pode ser baixado gratuitamente:

Privacidade, Sigilo e compartilhamento 

 

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