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Filosofia e Divulgação Científica

As redes sociais e a positividade excessiva de Byung Chul-Han

O simples fato de eu estar falando sobre esse filósofo sul-coreano aqui, já ilustra muito do que ele mesmo postula sobre as relações e comportamentos contemporâneos. E se você ainda não tinha ouvido falar de Byung-Chul Han, pode esperar para vê-lo por aí por algum tempo em redações de vestibulares, noticiários, reflexões filosóficas em geral, pois, ao que tudo indica, ele é o novo Bauman.

Se até recentemente termos como modernidade líquida, relações líquidas, amor líquido, entre outros conceitos líquidos eram bem frequentes em diversos textos sobre os mais variados assuntos, possivelmente as expressões usadas por Han passem a circular entre nós de forma mais corriqueira em breve.

Autor de diversos ensaios, Han é naturalizado alemão e é professor na Universidade de Artes de Berlim. E, muito embora seus textos não sejam voltados para o público em geral, uma vez que textos filosóficos de tradição alemã não costumam ser muito palatáveis para quem está fora da Academia, diversos veículos têm se dedicado a “traduzir” seu pensamento para uma linguagem mais acessível, pois suas considerações são muito relevantes em variados âmbitos, principalmente para que nós pensemos sobre o tipo de relações que temos estabelecido com os outros e conosco.

Foto: Isabella Gresser / Especial para Gaceta – ElPaís

Eu chegaria até ele mais cedo ou mais tarde devido à minha formação acadêmica, mas, como as redes promovem esse excesso de positividade que Han explica em A Sociedade da Transparência, foi só uma conhecida postar em sua timeline que gostava muito do autor, que logo em seguida algumas matérias sobre ele “pipocaram” no meu feed e eu descobri que ele também era um dos autores selecionados para o processo seletivo nas pós-graduações em Comunicação da USP. Ou seja, os algoritmos “estavam certos” de que eu deveria ler Han.

Não sei se posso dizer que todos devem ler, porque, apesar de seus ensaios serem vendidos aqui no Brasil em formato de pocket books, pequenos e curtinhos, Han não oferece uma leitura fácil para quem não está acostumado a ler filósofos europeus: há aquele excesso de repetições da mesma ideia usando analogias diferentes que pode ser um pouco cansativo.

Por outro lado, a quantidade de vezes que certos termos são repetidos, faz que que seja quase impossível que ao final de cada livro você não os tenha fixado totalmente. Mas, muitos dos termos são referências a outros autores importantes, que, caso você não esteja familiarizado, talvez tenha um pouco mais de dificuldade para se situar na leitura.

Um desses conceitos é justamente o de positividade. Em Han, não se trata da ideia mística tão difundida sobre “lei da atração” e outras pseudofilosofias de autoajuda, onde quem pensa positivo atrai coisas positivas. Também não se trata da corrente filosófica prevista em Auguste Comte exatamente. Por positividade Han se refere à ideia de reforço do mesmo:

As mídias sociais e sites de busca constroem um espaço de proximidade absoluto onde se elimina o fora. Ali encontra-se apenas o si mesmo e os que são iguais; já não há mais negatividade, que possibilitaria alguma modificação. Essa proximidade digital presenteia o participante com aqueles setores do mundo que lhe agradam. Com isso, ela derruba o caráter público, a consciência pública; sim, a consciência crítica, privatizando o mundo. A rede se transforma em esfera íntima ou zona de conforto. A proximidade pela qual se elimina a distância também é uma forma de expressão da transparência. (Sociedade da Transparência, p. 81)

 

Eu costumo falar bastante sobre representação da diversidade nas produções, sob o argumento de que é apenas por meio da convivência com o outro que podemos ter empatia ou qualquer perspectiva de evolução como seres humanos, pois busco enfatizar que o excesso de positividade descrito por Han, além de nos fazer mais limitados intelectualmente, nos é extremamente nocivo em aspectos de socialização, pois nos priva diálogo.

Em uma sociedade onde não interagimos com nada que é diferente, acabamos apenas endossando as opiniões que nos são confortáveis e não saímos de nossas bolhas:

“Nas experiências encontramos o outro; mas nas vivências, ao contrário, sempre encontramos a nós mesmos”.  

Não à toa, essa mesma perspectiva sobre a alteridade dos discursos e a importância da ficção para que nos tornemos pessoas mais empáticas, também é trazida em uma publicação acadêmica de uma importante revista de Comunicação:

Quando nos visualizamos no lugar do outro, ainda que seja impossível entendermos o que se passa em seu interior perante uma determinada situação, conseguimos perceber aspectos seus que são inacessíveis ao outro – e isso, precisamente, por estarmos fora dessa situação. Reduzimo-la a certos traços fundamentais, tornando sua compreensão mais simples e estruturada, ao passo que o outro, existencialmente implicado na situação, se vê sujeito a uma complexa e simultânea torrente de sentimentos, percepções e ideias. Em outras palavras, “tem-se empatia porque se pode estetizar a situação do outro e, com isso, clarificá-la. ( Revista Matrizes, Mare nostrum, mare alienun: identidade, epistemologia e a imaginação flusseriana dos fluxos, p.57)

Mas a lógica das redes sociais, que rege também nossas relações online e offline, impõe, cada vez mais, que tudo o que é diferente fique fora da bolha, pois assim, nossos comportamentos cada vez mais previsíveis, são mais facilmente mapeados por empresas que visam lucrar com nossas ações e interesses.

Ao recorrer ao conceito do panóptico de Bentham, popularizado por Foucault, Han explica que essa arquitetura carcerária com um arranjo circular das células em torno de um ponto central, sem comunicação entre elas, para que o preso possa ser observado de fora (sabe a prisão Kylin em Guardiões da Galáxia?), correspondia à lógica da nossa sociedade até há algum tempo, porém, a “geografia” da internet pressupõe um enorme espaço descampado onde todos conseguem se observar e vigiar simultaneamente, sem montanhas, sem segredos, sem nada que possa ser ocultado, totalmente transparente.

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Essa transparência e o excesso do mesmo, de tudo que é igual teria diversos efeitos negativos para a sociedade. Entre eles, o fato de abrirmos mão de nossa privacidade e liberdade em nome de uma hipervigilância constante que afeta nossas relações interpessoais e de trabalho de maneira significativa:

A sociedade do controle atual apresenta uma estrutura panóptica bastante específica. Contrariamente à população carcerária, que não tem comunicação mútua, os habitantes digitais estão ligados em rede e têm intensiva comunicação entre si. O que assegura a transparência não é o isolamento, mas a hipercomunicação. A especificidade do panóptico digital é sobretudo o fato de que seus frequentadores colaboram ativamente e de forma pessoal em sua edificação e manutenção, expondo-se e desnudando a si mesmos, expondo-se ao mercado panóptico. (Sociedade da Transparência, p. 108)

Obviamente, seria preciso outro ensaio para dissecar as percepções de Han sobre a sociedade da transparência, o que não é o objetivo aqui. O intuito desse texto é apenas instigá-lo(a) a procurar saber mais sobre esse autor que tem muito a contribuir com a discussões sobre comportamento, relacionamento e redes sociais na atualidade e cujas considerações dialogam com uma infinidade de produções contemporâneas que podem ser analisadas a partir de sua ótica.

Referências e sugestões de leituras

2 comentários
  1. Eudes Ailson

    Então, embora a questão do fechar-se em bolhas sociais já fosse inerente às relações sociais tradicionais, a ideia é que as redes sociais permitem que outras bolhas sejam ‘examinadas’ sem a necessidade de interação, o que permite, a quem deseje, manter certo grau de criticidade, mesmo no conforto de sua bolha principal?

  2. Dani Marino

    Oi, Eudes.
    Na verdade, com a ausência de dispositivos que funcionem como muros, a geografia das redes acaba impossibilitando até mesmo um pensamento crítico nas interações porque não há oposição. Os algoritmos tendem a nos colocar em bolhas onde apenas o mesmo é reforçado constantemente.
    Há outros autores que têm trabalhado com conceitos que visam nos ajudar a entender esses fenômenos. Manuel Castells, Nestor Canclini, Nick Couldry são alguns deles.

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