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Ciência Pop

Outros usos das HQs

O uso de histórias em quadrinhos na comunicação institucional, publicitária ou educativa tem sido uma alternativa escolhida por empresas, no intuito de transmitir mensagens internas ou conscientizar colaboradores sobre determinados procedimentos ou comunicar ao público alguma mensagem sobre um procedimento ou produto.

Na educação e na medicina, histórias em quadrinhos são usadas com o objetivo chamar a atenção dos leitores para questões consideradas de utilidade pública. Prefeituras têm recorrido aos quadrinhos em campanhas contra o mosquito da dengue ou para instruir a população sobre assuntos diversos e iniciativas como o site The Ink Link reúnem pesquisadores de várias áreas do conhecimento para divulgar ciência por meio dos quadrinhos.

Print de tela do site The Ink Link

Podendo ser considerada um dos meios de comunicação de massas mais populares do século XX, eram publicadas inicialmente em jornais até o aparecimento das revistas em quadrinhos a partir dos anos 1930. Hoje, são publicadas aos milhões e em diversas formas e suportes no mundo todo (VERGUEIRO, 2005, p. 2). Não à toa, sua utilização e aplicação também se ampliaram ao longo dos anos:

na medida em que as histórias em quadrinhos se tornaram um elemento de grande influência na cultura popular, também o interesse por elas aumentou em todas as áreas. Pesquisas acadêmicas sobre quadrinhos têm surgido nas áreas do conhecimento mais diversas, como história, sociologia, artes, literatura, antropologia, educação, etc., ampliando a disponibilidade de informações de qualidade sobre eles. Além disso, principalmente a partir do aparecimento da rede Internet, a quantidade de recursos informacionais existentes sobre a linguagem gráfica sequencial e seus produtos cresceu exponencialmente, variando enormemente em termos de forma, qualidade e conteúdo.

(VERGUEIRO, 2005, p. 9)

A utilização das HQs na alfabetização e letramento e, posteriormente, na formação de leitores com a apresentação de clássicos da literatura, tem possibilitado há décadas que alguns personagens sejam mais facilmente reconhecidos por pessoas de todas as idades, assim, era de se esperar que artistas nacionais buscassem ampliar seu alcance a partir de outros tipos de publicação além das mais usuais.

No Brasil, a turma da Mônica, de Maurício de Sousa, há mais de 50 anos desempenha um papel fundamental na alfabetização de crianças, mas seu alcance não se resume apenas aos ciclos iniciais do ensino, já que os temas abordados são os mais variados possíveis e vão desde ecologia e cidadania a questões filosóficas abordadas pelo dinossauro Horácio em alusão a Sócrates, Platão e Aristóteles.

Piteco – Turma da Mônica

Tendo em vista que o senso comum sobre as histórias em quadrinhos serem capazes de transmitir uma mensagem de maneira mais simplificada ainda persiste, é compreensível que empresas, ONGs e instituições em geral recorram a elas na tentativa de instruir seus colaboradores sobre determinados procedimentos ou conscientizar a sociedade acerca de assuntos de interesse público.

Por isso, empresas especializadas em quadrinhos institucionais ou mesmo agências de marketing, possuem uma grande variedade de produtos relacionados aos quadrinhos que podem ser oferecidos às empresas com diferentes áreas de atuação. A própria Turma da Mônica1 pode ser encontrada em títulos como: Lavar as mãos salva vidas, Viajando com Segurança, Puericultura de A a Z, Acessibilidade, entre outros.

Com a popularização do gênero, não só algumas de suas funções mudaram, como também seus formatos, meios de apresentação e distribuição também passaram por mudanças, atrelando ao conceito principal uma série de outros subgêneros com abordagens e propósitos diferentes.

Entretanto, ainda que os quadrinhos tenham sido associados à educação, alfabetização e à infância ao longo das décadas, foi só a partir da década de 90 que seu potencial instrucional passou a ser mais amplamente adotado em campanhas institucionais, como observado por Takahashi:

Os quadrinhos têm sido utilizados por grandes corporações como SEBRAE, ABNT, Metrô SP, Petrobrás, Telefonica, O Boticário, SENAI, Votorantim e outros. Existe no Brasil uma produção regular e bem organizada e quadrinhos corporativos realizada por estúdios, autores e editoras especializadas. Essas produções ocorrem, pelo menos, desde 1994. A maior parte desses quadrinhos foram distribuídos dentro de empresas ou em ambientes mais restritos.

(TAKAHASHI, 2015, p.08)

Em entrevista concedida ao site Universo HQ, o artista Antônio Cedraz afirma que as revistas em quadrinhos institucionais atingem um universo bem heterogêneo de pessoas, de uma forma simples, agradável e divertida, sem perder a seriedade dos assuntos abordados.

De acordo com o autor da Turma do Xaxado, os quadrinhos potencializam a assimilação da informação e atraem muito mais do que um folder ou um informativo só com textos, pois oferecem entretenimento aos leitores.

As histórias em quadrinhos como conhecemos, nascem como produtos de uma cultura de massa, ou seja, indissociáveis da área de comunicação.

A comunicação organizacional, por sua vez, tem sua origem nos conceitos de estudos culturais e administração. Por isso, processos comunicacionais utilizados no âmbito social, são naturalmente encontrados no âmbito corporativo.

Um dos argumentos possíveis para que se possa relacionar as histórias em quadrinhos com a comunicação organizacional é justamente o fato de que o próprio campo da comunicação, como apontam Mattelart e Neveu em Los Cultural Studies (2002), está diretamente atrelado ao desejo de pesquisadores das ciências sociais em buscar soluções para desigualdades observadas em diversas sociedades, ou seja, a contrapartida social foi um fator significativo para o desenvolvimento de campos de estudo relacionados à cultura e à comunicação.

Para Canclini, a importância da cultura de massa como fator de integração cultural, capaz inclusive de promover tomada de decisões no que tange às políticas públicas (CANCLINI, 1997), nos apontam que, independentemente do tipo de atribuição de valor que possa ser conferida às histórias em quadrinhos, seu papel cultural e social não deve ser ignorado.

Tendo tudo que foi exposto em mente, é interessante observar então os tipos de trabalhos que podem ser desenvolvidos por artistas, ongs e empresas que estejam comprometidos com acesso à informação em diversas áreas.

Os pesquisadores do site The Ink Link partem de demandas de instituições ou governos para criarem histórias em quadrinhos que promovam a informação sobre assuntos variados. Um dos casos que ilustra a utilização de quadrinhos como fontes de informações de interesse público é apresentado na página do coletivo e explica como a utilização de quadrinhos alavancou uma campanha de vacinação que estava com baixa adesão no Suriname.

Com a participação de artistas locais e após algumas oficinas com grupos de moradores de vilas mais remotas, os pesquisadores conseguiram criar uma HQ cuja iconografia e linguagem dialogavam com a população de tal forma, que a campanha teve o alcance desejado após a distribuição dos quadrinhos.

Em seu site pessoal, o cartunista Pedro Ivo cita algumas de suas produções para empresas como a Unilever, demonstrando que seja em tom mais divertido ou mais contido, é possível informar o público sobre assuntos relacionados à contracepção e utilização de preservativos, por exemplo.

A diferença entre a peça publicitária e a institucional depende do que cada cliente solicita e a partir das definições discutidas com os artistas, os quadrinhos podem ser produzidos com fins variados.

Já a pesquisadora Daniele Barros, doutora em biologia pela Fiocruz, se destaca com sua produção de fanzines com fins educativos que muitas vezes são utilizados por profissionais de saúde para informar pacientes sobre riscos de certas doenças ou sobre procedimentos que devem ser realizados em determinadas situações.

Além do trabalho como cientista, Barros ministra oficinas de fanzines a professores e outros profissionais, sempre os conscientizando sobre a importância da utilização de linguagens lúdicas e diversas para promover o maior alcance sobre questões relacionadas à saúde, como ocorreu com uma produção sobre tuberculose: resultado de um TCC da especialização em Ensino de Biociências e Saúde, na Fiocruz, a HQ foi desenvolvida com alunos de uma escola pública de São Gonçalo-RJ.

A descrição da experiência consta nesse Capítulo de Livro Histórias em Quadrinhos (HQ) para Ensino de Biociências e Saúde: Relato de experiência da criação da HQ Pedro e sua turma superando a tuberculose e que pode ser conferido aqui.

Assim, independentemente do tom utilizado e dos fins em que são aplicados, os quadrinhos representam importante meio de comunicação, divulgação e instrução sobre todos os temas possíveis. Não à toa, estão presentes nos mais variados veículos e plataformas, sejam elas acadêmicas ou não.

Saiba mais:

https://www.brazilianjournals.com/index.php/BRJD/article/view/10775/9000

https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/article/view/13785/10549

Referências:

CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade.3.

ed. São Paulo: Edusp, 2000.

TAKAHASHI, Thiago Seiji. A potencialidade dos quadrinhos na educação corporativa: gibis impressos, digitais e Graphic Novels. 2015. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-14012016-100117/>. Acesso em 25 dez. 2016.

VERGUEIRO, Waldomiro; RAMOS, Paulo (orgs). Quadrinhos na Educação: da rejeição à prática. Contexto. São Paulo. 2009.

______. Histórias em quadrinhos e serviços de informação: um relacionamento em fase de definição. DataGramaZero, v. 6, n. 2, p. 00-00, 2005. Disponível em: <http://www.brapci.ufpr.br/brapci/v/a/1585>. Acesso em: 13 Mai. 2017.

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