Nem só de onça vive o Pantanal: por que abelhas e vespas importam?

Por Alessandra Marimon

Abelhas e vespas não são simplesmente bichinhos que podem te picar desavisadamente e te causar algumas das piores reações alérgicas. Sim, é verdade que estamos acostumados a encarar esses animais como seres inconvenientes, a não ser quando um deles nos fornece um mel docinho para degustarmos a nosso bel prazer.

Mas um estudo sugere um outro olhar para esse grupo de insetos, inclusive sobre sua imensa importância ecológica e econômica. Tudo começou lá no Pantanal, com um grupo de pesquisadores que literalmente mergulhou de cabeça para poder observar as populações de abelhas e vespas distribuídas naquela região. Antes disso, quase não havia dados científicos sobre as inúmeras espécies de insetos que ocorrem no bioma.

Ao apresentarem o primeiro inventário de abelhas e vespas do Pantanal, os pesquisadores descrevem de que forma os históricos de inundação influenciam na presença desses animais. A proposta do estudo surgiu com a pesquisa de pós-doutorado do Rodrigo Aranda, professor de Biologia da UFR (Universidade Federal de Rondonópolis). “O objetivo era ver se para as abelhas e vespas tinha algum perfil de ocupação diferenciado no Pantanal”.

Enquanto este velho trem atravessa o Pantanal…

O biólogo Rodrigo passa pelo Trem do Pantanal. – Foto: Rodrigo Aranda 

Pra quem não sabe ou dormiu nas aulas de Biologia (calma, eu te entendo e não te culpo por isso), o Pantanal é sim a terra de Almir Sater ou da onça-pintada, mas não só. Apesar de ser o menor bioma do Brasil em termos de extensão, ocupando apenas 1,7% do território brasileiro, o Pantanal é considerado como uma das maiores planícies inundáveis do mundo.

Além disso, dentro do cenário nacional, cerca de 85% do seu território ainda está preservado. Mesmo assim, por estar localizado entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o Pantanal vem sofrendo com os impactos da atividade humana, a exemplo do aumento da agropecuária e de empreendimentos hidrelétricos nos últimos anos.

Pantanal durante a vazante, época em que a água da enchente escoa e forma lagoas. Ao fundo, o gado aproveita a rica e farta pastagem para se apropriar desse espaço. – Foto: Rodrigo Aranda 

Segundo o professor Rodrigo, esse bioma não pode ser lido como uma coisa só. “Quando a gente pensa em Pantanal, imaginamos uma grande área alagada, mas na verdade existem sub-pantanais ou sub-regiões dentro do próprio Pantanal”. De acordo com o biólogo, que é doutor em Ecologia e Conservação pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), essas regiões são caracterizadas por “pulsos de inundação” diferentes. Ou seja, o processo anual de enchente e seca acontece de maneiras distintas em cada região.

“Isso significa dizer que algumas áreas alagam por mais tempo, outras por menos, com uma alta ou baixa quantidade de água. E o pulso de inundação acaba controlando todas as funções biológicas dentro daquela área”. Esse processo, segundo o professor, é essencial, já que é responsável por “gerenciar” toda a biodiversidade e a abundância de vida no bioma. “Isso reflete em diferentes espécies de plantas animais que ocorrem em regiões distintas”.

Conhecer para preservar

Vespas e abelhas estão classificadas dentro de uma mesma ordem, a Hymenoptera, que também abarca as formigas – que nada mais são do que vespas que perderam as asas, segundo o professor. Esse nome estranho e um tanto difícil de se pronunciar (aposto que você tentou falar em voz alta só pra provar o contrário) consiste na terceira maior ordem de insetos, considerados alguns dos agentes ecológicos mais importantes para a conservação.

Conforme explica o biólogo, apesar de estarmos acostumados com abelhas sociais, a maior parte delas é solitária (será que elas nos entenderiam nessa quarentena?). “Aí temos as abelhas sociais, e as usadas na meliponicultura. Todas elas têm um papel essencial nos ecossistemas, porque são as principais responsáveis pela polinização das angiospermas, as plantas que produzem frutos. Por isso é importante conhecê-las e preservá-las”.

Abelha do gênero Melipona, conhecida principalmente pela produção de mel. – Foto: Rodrigo Aranda 

Em termos econômicos, polinizadores como as abelhas desempenham um serviço ecossistêmico que contribui até para o aumento da produtividade agrícola. Rodrigo exemplifica: “A soja é autopolinizada, o que significa dizer que não precisa de uma abelha pra fazer a transferência de pólen. Mas pesquisas mostram que quando você tem abelhas ou apiários próximos, tem um acréscimo de 25% até 40% de produtividade, seja no aumento do grão da soja que fica maior, ou no número de grãos por baga de soja”. Ou seja: também é, ou deveria ser, de interesse do produtor rural preservar essas espécies.

Ao contrário das abelhas, comumente retratadas em desenhos e cadernos escolares como bichinhos fofinhos, as vespas já são vistas, digamos assim, como seres bem “desnecessários”. Quem não ficou de cabelos em pé vendo os vídeos das “vespas assassinas” que atire a primeira pedra. Isso pode até ser um choque pra você, mas encare a realidade: as vespas são tão importantes quanto as abelhas para o equilíbrio ecológico e, consequentemente, para a sua sobrevivência.

Vespas sociais são minoria, já que a maior parte delas é solitária. – Foto: Rodrigo Aranda

Rodrigo afirma que a maior parte das vespas também são solitárias. Elas são consideradas, de forma geral, insetos predadores. “Isso faz com que elas tenham um papel essencial, porque controlam populações de outros insetos, se alimentando deles, e até controlam espécies consideradas pragas”.

Na prática, tanto agentes polinizadores quanto insetos que se utilizam da predação se mostram, portanto, como sinalizadores importantes, principalmente se pensarmos nos impactos que a falta dessas espécies poderiam causar.

Desvendando os mistérios pantaneiros

Apesar de o Pantanal ser um atrativo turístico muito conhecido internacionalmente e visitado mais por gringos do que pelos próprios brasileiros, Rodrigo ressalta que muitas plantas e animais ainda são desconhecidos pela comunidade científica. “E dentro disso estão incluídos os insetos, mesmo eles sendo a esmagadora maioria de seres vivos que encontramos”.

O pôr-do-sol pantaneiro pode ser considerado um dos grandes atrativos turísticos da região. – Foto: Rodrigo Aranda 

O número de pesquisadores que trabalham e estudam esse grupo de animais, os insetos, ainda é muito reduzido. E esse foi um dos motivos para o professor, que tem mestrado em Entomologia (estudo dos insetos) pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), querer trabalhar com o tema. “Muitos se perguntavam ‘quantas espécies de abelhas o Pantanal têm?’, mas ninguém sabia. Tinham só alguns poucos trabalhos no Pantanal com foco em abelhas ou vespas, mas muito específicos e pontuais”.

Assim foi dada a largada. O primeiro ponto para a realização do trabalho, segundo Rodrigo, foi dividir o Pantanal em cinco grandes áreas. Lembra do pulso de inundação? Foi com base nisso que ele classificou as regiões, levando em consideração o tempo (duração da cheia) e a intensidade (quantidade de água), para entender como as diferentes espécies de vespas e abelhas respondem a essas mudanças.

Prof. Rodrigo em seu habitat natural. – Foto: Gisele Catian 

Os resultados mostraram que as diferentes regiões analisadas também demonstram diferentes tipos de espécies que ocorrem somente em determinados locais, já que precisam se adaptar àquelas condições. “A maior parte das abelhas faz ninhos no solo, então imagina esse cenário no Pantanal, numa região que alaga constantemente em determinados períodos do ano. Mas se uma área fica alagada mais e por muito mais tempo, por exemplo, então as espécies que ocorrem ali não fazem ninho no solo ou precisam de alguma estratégia para lidar com isso”, afirma o biólogo.

O fim da picada (ou seria só o começo para as abelhas e vespas?)

Vida de biólogo não é fácil e eu posso provar. O professor conta que todo o processo de planejamento durou quase um ano e ele ficou quase quatro meses diretos no Pantanal, rodando os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Durante esse tempo, ele armava os acampamentos e instalava os equipamentos para a coleta. “Em uma das metodologias eu ficava que nem o Bob Esponja pra pegar os bichinhos voadores e as outras as armadilhas ficavam passivas, expostas por muito tempo coletando os bichos”.

Todo o processo de coleta, análise e identificação das abelhas e vespas em laboratório, resultou em um catálogo inédito de mais de 3300 insetos pertencentes a 377 espécies diferentes. Com esses dados, os cientistas puderam fazer uma parte que a ciência muitas vezes “se acha” por isso: projeções. Rodrigo exemplificou: “Se eu coletei um número x de abelhas nas áreas que eu passei, então quantas espécies eu poderia encontrar no Pantanal como um todo? A projeção que eu fiz é de que teriam pelo menos o dobro de espécies”.

Rodrigo usando uma das armadilhas para capturar os insetos. – Foto: Gisele Catian 

Após inúmeras dores agudas causadas pelas picadas de himenópteros (sim, abelhas e vespas), além da aventura de passar meses no meio do mato virando um prato cheio para mosquitos, Rodrigo conclui que a gente ainda sabe muito pouco sobre o Pantanal. “Antes nem tínhamos ideia do que ocorria ali, e agora já sabemos, ao menos um pouco mais”.

Para o biólogo, estudos como esse são importantes porque oferecem fundamentação para estratégias de preservação e implementação de políticas públicas. “Ainda temos poucas áreas de preservação no Pantanal e estão concentradas em regiões muito similares. Precisamos pensar em estratégias de conservação com unidades de conservação espalhadas em áreas diferentes pra podermos preservar espécies diferentes. É um indicativo para termos áreas diversificadas dentro da extensão toda do Pantanal, abrangendo a maior quantidade de ambientes pra serem preservados”.

Alessandra Marimon é jornalista e mestranda em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp.

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