Nietzsche e o nazismo

Nietzsche e o nazismo

De um lado, Adorno escreve, com razão, que “a exigência de que Auschwitz não se repita deve ser a primeira de todas para a educação”[1]. De outro, uma série de leitores apressados acusam Nietzsche de alimentar uma filosofia nazista e antissemita.

Biograficamente essa acusação não prossegue, pois sabemos por exemplo que Nietzsche se recusou a comparecer ao casamento de sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche, em repúdio ao antissemitismo de seu cunhado, B. Förster. Mas fora fatos biográficos, a leitura atenta da Primeira Dissertação da Genealogia da Moral (1887), onde a questão judaica aparece com as cores mais vivas na obra de Nietzsche e dissipa qualquer dúvida sobre a posição do filósofo em relação ao “império das bestas louras”.

Para que o prisma da falsa conexão entre Nietzsche e o nazismo seja afastado, consideremos por exemplo a sua proposta de superação do “bom e ruim (schlecht)” senhorial e primitivo – que os nazistas tentaram ressuscitar, bizarramente – e de sublimação do “bom e mau (böse)” reativo e ressentido judaico- cristão. Para além de ambas as dicotomias, Nietzsche propõe a criação de novos valores, por meio de uma superação chamada por ele de transvaloração (Umwertung aller Werte).

No início da Primeira Dissertação, cujo tema são as dicotomias “bom e mau (böse)” e “bom e ruim (schlecht)”, Nietzsche se opõe à hipótese dos “psicólogos ingleses” de que, originalmente, “as ações não egoístas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais eram feitas, aos quais eram úteis, mais tarde foi esquecida essa origem do louvor, e as ações não egoístas”[2] passaram a ser tomadas como boas absolutamente. Contra essa genealogia, Nietzsche defende que “o juízo ‘bom’ não provém daqueles aos quais se fez o bem! Foram os ‘bons’ mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu”. Do “pathos da distância” recebida pelos patrícios ante a massa ordinária, Nietzsche ensina que se desenvolveu o primeiro “direito de criar valores, cunhar nomes para os valores: que importava aos senhores a utilidade!”[4].

Conforme essa hipótese, o bom não foi, portanto, em sua origem, sinônimo de não-egoísmo. Apenas posteriormente, “com o declínio dos juízos de valor aristocráticos”, Nietzsche afirma que se impôs “mais e mais à consciência humana” a oposição entre o “egoísmo” e o “não egoísmo”[5].

A essa transformação, o filósofo dá o nome de “revolta dos escravos na moral”[6]. Rebelião que, segundo seu entendimento, começou quando os escravos – e em especial os judeus – passaram a gerar valores, de maneira retroativa e a partir do ressentimento acumulado contra seus dominantes. “Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma”[7] – compara Nietzsche: “Já de início a moral escrava diz Não a um ‘fora’, um ‘outro’, um ‘não-eu’ – e este Não é seu ato criador. Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação”[8].

Conforme Nietzsche, a natureza nobre é por excelência original, ativa e instintiva, e a escrava, reativa, espiritual e passiva. Quando à primeira aparece algum ressentimento, ele é consumido imediatamente, por meio de uma reação colérica que não permite posterior “envenenamento”. Os escravos, em suas condições de impotência, já agem de outro modo. Seus inimigos, que se autointitulam “bons”, são, justamente, seus maiores “maus”, de modo que a vingança escrava ocorre por meio da criação de um novo “bom”, que se delimita na negação do “mau” senhorial.

Se os patrícios, portanto, conheciam apenas “bom e ruim (schlecht)” – isto é, eles mesmos e os diferentes deles – os escravos já concebem o “bom e mau” (böse) em sentido religioso e espiritual, como o que, respectivamente, não é e é o “bom” senhorial. Consequentemente, na nova dicotomia, “bom e mau” se caracterizam, sobretudo, pela ausência ou presença de egoísmo, força e autoafirmação imediatos.

O que preocupa Nietzsche na rebelião escrava na moral não é, de modo algum, uma inexistente nostalgia nele da natureza primitiva e bestial humana, dominada pelo avanço democrático. Pelo contrário, o filósofo teme que “o verme homem”, com sua visão envenenada e retroativa, “ocupe o primeiro plano e se multiplique; que o ‘homem manso’, o incuravelmente medíocre e insosso, já tenha aprendido a se perceber como apogeu e meta”[9]. E que se perpetue, por meio disso, o “apequenamento e nivelamento do homem europeu”

Mas o que torna maior, para Nietzsche? O que perdura como algo inspirador e incansável? Em nome do que o filósofo polemiza contra a moral judaico-cristã? Não é fácil responder essas perguntas, mas na citação anterior tivemos algumas pistas: “Estamos cansados do homem”, por exemplo, foi repetido duas vezes. Ora, algo é mais cansativo do que a superficialidade espiritual das “aves de rapina” do passado? No aforismo dez, o filósofo reconhece que, no plano mental, muito foi ganho com a revolução escrava na moral: “Uma raça de (…) homens do ressentimento resultará necessariamente mais inteligente que qualquer raça nobre, e venerará a inteligência numa medida muito maior: a saber, como condição de existência de primeira ordem”[12]. De acordo com o pensador, os bárbaros originais eram fundamentalmente inconscientes. Se, por um lado, o ódio, em um nobre, sempre quando aparece, “se consome e se exaure numa reação imediata, e por isso não envenena”; por outro, em tempos pretéritos, as bestas eram as encarnações de toda a imprudência, cólera e parvidade. Um aristocrata “sacode de si, com um movimento, muitos vermes que em outros se enterrariam”[13] – descreve o autor – e nesse sentido, cabe-lhe certo alívio psicológico. No escravo ressentido, a desforra se internaliza, e com isso, “tudo se torna mais perigoso, (…) altivez, vingança, perspicácia, dissolução, amor, sede de domínio, virtude, doença”[14].

Sobretudo quando aparecem os sacerdotes ascéticos em nossa história, Nietzsche afirma que o homem experimenta uma fanática insurreição e se torna mais intoxicado, denso e atrativo. Nas antípodas da fixação nazista no império das bestas rasas, Nietzsche reconhece a superioridade mental do sacerdote sobre os últimos com as seguintes palavras:

“Somente no âmbito dessa forma essencialmente perigosa da existência humana, a sacerdotal, é que o homem se tornou um animal interessante, apenas então a alma humana ganhou profundidade num sentido superior, e tornou-se má – e estas são as duas formas fundamentais da superioridade até agora tida pelo homem sobre as outras bestas!”[15].

Desde a perspectiva de esquerda, Adorno também defende que o combate da frieza da “lonely crowd” (multidão solitária) moderna via a pregação universal do amor desanda fácil em “retórica idealista”[16]. Pior ainda, Adorno entende que o cristianismo fracassou, não apenas porque “não mexeu com a ordem social que produz e reproduz a frieza”, mas também porque “o incentivo ao amor – provavelmente na forma mais imperativa, de um dever – constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que é impositivo, opressor, que atua contrariamente à capacidade de amar. Por isso, o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pelas quais foi gerada”[17]. Nesse exercício de autoconhecimento, a genealogia nietzschiana da moral dominante na modernidade é de enorme socorro.

Precursor de Adorno, Nietzsche também defendeu que a pregação universal do amor, do modo como o faz o cristianismo, é falsa, oca e fruto do ressentimento (que perpetua a frieza). Por outro lado, não é com o retorno ao “bom e ruim (schlecht)” primitivo que se conseguirá nada. Conforme o pensador, “hoje não há talvez sinal mais decisivo de uma ‘natureza elevada’, de uma natureza espiritual, do que estar dividida neste sentido [entre o “bom e ruim (schlecht)”, e o “bom e mau (böse)”] e ser um verdadeiro campo de batalha para esses dois opostos”[18].

No último aforismo da Primeira Dissertação, Nietzsche previu que o “bom e ruim (schlecht)” bestial tentaria ser ressuscitado, no futuro, em um experimento ainda mais horrível do que foi no passado. Caso seus leitores não compreendam as consequências desse retrocesso, Nietzsche se apura com a definição de que sua pretensão e desejo não são o endossamento do mesmo, mas a superação de ambas as dicotomias: “bom e mau (böse)” e “bom e ruim (schlecht)”. Com as seguintes palavras o autor apresenta esse delineamento de seu projeto, nas últimas linhas da Primeira Dissertação:

“Não deveria o antigo fogo se reacender um dia [o “bom e ruim (schlecht)” primitivo], ainda mais terrível, após um período ainda mais longo de preparação? Mais: não seria isto algo a se esperar? Mesmo a se querer? A se promover?… Quem neste ponto começa a refletir, a reconsiderar, como meus leitores, tão cedo não chegará ao fim – razão para que eu mesmo chegue ao fim, supondo que há muito tenha ficado claro o que pretendo, o que desejo com a perigosa senha inscrita na fronte do meu último livro: ‘Além do bem e do mal (Böse)’… Ao menos isto não significa ‘Além do bom e do ruim (schlecht)’”[19].

As duas perguntas anteriores de Nietzsche foram respondidas com um assertivo “Sim” por Hitler. Mas, com isso, Hitler evidenciou não possuir a “natureza elevadaque, conforme Nietzsche, existe apenas naquele que se divide entre ambas as morais, na modernidade: “Bom e ruim (schlecht)”, “bom e mau (böse)”.

Em outro artigo, defendemos, com base em Nietzsche e Adorno, que Hitler foi o mais ressentido dos ressentidos, cuja obsessão pelas aves de rapina do pretérito era tamanha que consumiu todo seu ser. No avesso dessa superficialidade, Nietzsche propõe superar, ir além de ambas as dicotomias; atravessá-las por inteiro, sublimá-las; criar novos valores, tresvalorar. Sendo assim, se a moral do “bom e ruim (schlecht)” foi superada pela moral dominante do “bom e mau (böse)”, cabe ao homem vindouro sublimar, precisamente, essa última, e por isso, o autor afirma que a senha de seu projeto é: “Além do bem e do mal’ (Böse)”. O que significa “senha” senão chave de resposta, que abre caminhos e revela os desejos mais íntimos?

Graças à expectativa do filósofo do que aguardava a Europa no século XX, a derradeira frase do texto foi: “Dies heißt zum mindesten nicht [grifo nietzschiano] »Jenseits von Gut und Schlecht« (Ao menos isto não significa ‘Além do bom e do ruim [schlecht]”[20]). Tradução do grifo: sua proposta não é retornar à moral bestial do “bom e ruim (schlecht)”, até porque essa moral já foi superada e, além de indesejável, talvez seja impossível trazê-la de volta. Pelo contrário, Nietzsche propõe sublimar a moral dominante, ascética e ressentida, embora superior, espiritualmente, à moral primitiva. Com base nisso, estamos seguros de que se Nietzsche tivesse conhecido o nazismo, teria se oposto a ele ainda com mais engajamento.

 

 

 


[1] ADORNO, T.. Educação e emancipação. Trad.: W. L. Maar. São Paulo: Ed. Paz Terra, 2000, p. 119

[2] NIETZSCHE, F.. Genealogia da Moral. Trad.: P. C. de Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2004, p. 19

[3] Idem, p. 19

[4] Ibidem

[5] Idem, p. 19

[6] Idem, p. 26

[7] Idem, p. 29

[8] A respeito da literatura em análise, Nietzsche afirma preferir o Antigo Testamento ao Novo – vale lembrar, dois livros que estão na base, respectivamente, do judaísmo e cristianismo. Conforme o autor, o Antigo Testamento simboliza o coração “forte de um povo”, ao passo que o Novo possui sentimentalismo, vulgaridade e heterogeneidade em excesso. Com as seguintes palavras essa comparação é apresentada pelo autor: “Todo respeito perante o Antigo Testamento! Nele encontro grandes homens, uma paisagem heroica, e algo raríssimo sobre a terra, a incomparável ingenuidade do coração forte; mais ainda encontro um povo. No Novo, porém, nada senão pequeninas manobras de seitas, (…) rococó da alma, (…) volutas, tortuosidade e bazarrias, mero ar de conventículo, não esquecendo ainda um ocasional sopro de doçura bucólica, próprio da época (e da província romana) e não tanto judeu quanto helenístico” (NIETZSCHE, F.. Op. Cit., 2004, p. 133). A preferência do pensador pela bibliografia judaica à cristã pode ser vista como símbolo de sua carência de antissemitismo.

[9] idem, p. 34

[10] Idem, p. 36

[11] ibidem

[12] Idem, p. 30

[13] Ibidem

[14] Idem, p. 25

[15] Idem, p. 25

[16] ADORNO, T.. Op. Cit., 2000, p. 120 e 134

[17] ADORNO, T.. Idem, p. 136

[18] NIETZSCHE, F.. Op. Cit.. 2004, p. 43

[19] Idem, p. 45

[20] NIETZSCHE, F.. Gesammelte Werke. German Edition. Kindle Locations 47767-47768. Kindle Edition

3 thoughts on “Nietzsche e o nazismo

  1. Se bem Nietzsche se serve recorrentemente de expressões fortes e ambíguas (“tudo se torna mais ralo… medíocre, chinês, cristão”!), construir com elas um ideário da barbárie só pode caber a uma inteligência pervertida. É verdade: os escritos de Nietzsche, se considerados fragmentária e tendenciosamente, podem conduzir a conclusões bizarras. Se além do mais o contexto “ajuda”, a ideologia pode facilmente se apropriar dos insights mais esclarecidos e construir com eles um dogma para justificar o genocídio. É um fenômeno preocupante. Como no caso de Platão, no entanto, essa derivação depravada ecoa demasiado remotamente a mensagem de Nietzsche.

    1. Você entendeu bem o esforço geral do artigo, mas discordo da última frase de seu comentário. Tentei mostrar que não há nenhum nexo concreto, por mais “remoto” que seja, entre a “mensagem” de Nietzsche e as deturpações totalitaristas de seu texto. A meu ver, ambas as coisas são como duas retas que nunca se encontram no espaço. Por um lado, a filosofia de Nietzsche desaprova qualquer fenômeno tão superficial e anticultural, como veio a ser o nazismo posteriormente. E por outro, a perversão do pensamento nietzschiano foi resultado de uma cegueira que nunca leu uma única linha de filosofia a sério. A propósito, cabe ressaltar que o título de nossa coluna no Blog, “Perversões da filosofia”, tem a filosofia apenas como objeto passivo da perversão; pois afinal, por definição, quem comete perversões ideológicas é sempre antifilosófico e misóssofo.

      1. A leitura tendenciosa do nazismo, no caso, tem a filosofia de Nietzsche como objeto passivo da sua perversão. Isto significa que os escritos nietzschianos em si mesmos, isto é, imediata e “ativamente”, não defendem as posições extratadas pela inteligência pervertida.

        Isto parece ser correto. Contudo, não podemos evitar reconhecer que nesse Frankenstein que o nazismo constrói há “resquícios”, por exemplo, das feições do super-homem. Quando esse Frankenstein fala, ele declama de cor, perfeitamente, famosas proposições nietzschianas. É nesse sentido que cabe a palavra “remoto”.

        É evidente que não podemos responsabilizar Nietzsche “ativamente” pelo monstro: ele não participou da macabra cirurgia. Mas eis a questão: até que ponto do espectro hermenêutico das suas teorias o filósofo pode (deve?) navegar? Após Auschwitz, talvez devamos exigir do intelectual contemporâneo maior consideração da estupidez humana ao escrever, pois ela tem consequências terríveis que devem ser cuidadosamente evitadas. Mas isto não derivaria em uma perda de liberdade, em uma castração da potencia especulativa e criativa, tão essencial à verdadeira Filosofia?
        Talvez essa seja uma das principais questões a que o tópico nos conduz.

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