Entendendo as técnicas de edição genética

Entendendo as técnicas de edição genética

História recente

A Revolução Genética tem na história recente uma série de acontecimentos fundamentais. Na segunda metade do Século XX a biologia molecular despontava. A técnica do DNA recombinante deu lugar à produção de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), transformando a agricultura e pecuária rapidamente. Na década dos 70, surgiu o primeiro animal transgênico; na dos 90, iniciou-se uma força-tarefa para mapear o genoma humano (Projeto Genoma). Em 2003, após um trabalho fantástico, a comunidade científica internacional anunciou que o sequenciamento fora concluído com sucesso. Poucas semanas atrás tornou-se público e “oficial”, finalmente, o nascimento de Abrahim Hassan: primeiro ser humano geneticamente projetado [1]. A velocidade das transformações é surpreendente – de fato, procedimentos utilizados há poucos anos são hoje considerados rudimentares e obsoletos. Organismos Geneticamente Editados (OGEs): eis a sigla do futuro.

“Fertilização tripla”

O procedimento que deu à luz a Abrahim Hassan é conhecido como “geração” ou “fertilização tripla”. Como o nome sugere, trata-se de um processo reprodutivo no qual existem três pais genéticos. A realidade é a seguinte: mais de 70% das doenças hereditárias têm sua origem em alterações no DNA mitocondrial. A mitocôndria é uma organela que flutua no citoplasma e, grosso modo, a técnica da fertilização tripla consiste em descartar o material corrompido, inserindo o núcleo do óvulo da mãe (que contém a informação mais decisiva) em uma base citoplasmática que não apresente deficiências, ou que as apresente minimamente. Abrahim Hassan nasceu no México de um procedimento liderado por fertility doctors norte-americanos, pois – atenção-  nos Estados Unidos não é permitido.

As reações da comunidade científica e da opinião pública têm sido díspares. Por um lado, os otimistas celebram o acontecimento como “apenas o começo” de uma nova era luminosa, na qual doenças degenerativas terríveis serão erradicadas para sempre. Os críticos, por outro lado, consideram a ação irresponsável e alertam que as provas das quais dispomos são ainda insuficientes para dar suporte ao uso indiscriminado, muito menos particular e de natureza lucrativa, da técnica.

Quanto à legislação vigente, nos Estados Unidos a prática é proibida. O parlamento britânico reconheceu como legal o pronuclear transferem 2015. No Brasil, a Lei de Biossegurança proíbe explicitamente a engenharia genética em células germinais humanas [2]. No resto dos países latino-americanos, provavelmente a legislação seja tão difusa quanto no México.

 “CRISPR-cas9”

Ainda mais polêmica é a segunda técnica de manipulação do genoma, conhecida como CRISPR-cas9.

Trata-se de uma técnica um tanto mais complexa e difícil de explicar. A descoberta do método resultou da observação do funcionamento do sistema de defesa das bactérias contra vírus. CRISPR atua como uma estratégia de guerra: ela “persegue” o DNA contaminante e utiliza uma proteína (cas9) e guias de RNA para ligar-se a ele, cortá-lo e assim excluir a informação genética perniciosa do vírus.

Essa “estratégia de guerra” das bactérias pode ser reproduzida em qualquer organismo vivo (o humano incluído). CRISPR é, assim, programada para extirpar certas sequências do DNA – sequências responsáveis, por exemplo, por doenças ou malformações; a seguir, tais informações são comutadas pelas “corretas”. Como explica Jennifer Doudna, a manobra é comparável à edição de texto mais simples (deletar uma palavra mal escrita e substituí-la pela correta) no processador de texto mais básico:

 

Mas as técnicas de manipulação genética não são novidade. Elas existem, como já vimos, desde o século passado. A novidade é que jamais tinham sido tão baratas e tão precisas. Com efeito, atualmente CRISPR-cas9 pode ser levada a laboratório sem gastos exorbitantes (“kits de edição do genoma” se encontram disponíveis na internet a custos acessíveis!). Ademais, esses softwares para a edição do genoma” contam com um certificado de garantia inédito: eles funcionam, comprovadamente, com mais de 99% de eficácia.

Perante o tamanho da descoberta, a própria comunidade científica tem expressado abertamente suas preocupações, realizando um chamado global para interromper a aplicação do método em embriões humanos [3].

Contudo, a moratória não parece estar surtindo os efeitos esperados.


[1] “Oficial” entre aspas, porque temos notícias de que procedimentos semelhantes foram realizados de modo privado no final dos anos 1990, e seguramente existam outros dos quais nada sabemos.

[2] Cfr. também a Resolução 466/2012.

[3] Na década 70, uma moratória similar foi realizada em relação à clonagem molecular. Alguns críticos defendem que tal pedido foi inútil, e se apoiam nisso para criticar a moratória atual.

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