Corpo da mulher: superheroínas e o controle dos poderes

Capitã Marvel / Copyright: Marvel Studios / Divulgação

Hoje eu vou falar um pouco sobre personagens femininas no cinema e em séries e o controle de seus corpos. Não vou, já adianto de antemão, me comprometer a narrar todas as personagens existentes “no universo e arredores”. Vou falar de algumas que, recentemente, me fizeram pensar sobre o lugar da mulher e seu corpo (temática que já venho abordando aqui no blog). Já adianto que vai ter spoiler sim.

Mas antes, um pouco de teoria…

Historicamente o controle do corpo das mulheres se dá em nossa sociedade através de inúmeras ações cotidianas. Ações? Como assim? Desde que nascemos, aprendemos sobre as características do ser mulher: a fragilidade e a docilidade feminina; o amor incondicional, instintivo e verdadeiro proporcionado pela maternidade; a aptidão para afazeres relacionados ao cuidado (alimentação, educação e zêlo da prole, idosos e doentes); recato e discrição dos atos; idealização da plenitude na conquista e manutenção de um par romântico, etc.

Tais discursos estão presentes em nossas vidas, de forma dispersa e constante, na escola, na família, em grupos sociais diversos, na literatura, música, cinema, programas de televisão… Enfim, nos espaços sociais e culturais que vivemos. 

Já discutimos em posts anteriores que nós temos e somos um corpo.  Assim, o controle do corpo se dá pelo modo como se encara e narra a mulher na minúcia. Isto é, tudo o que é nossa expressão e vivência identitária. Como assim? Nosso corpo, em tom, cor, tato, olfato e ação. Ou seja, o tom de nossa voz e ideias expressas em público, cor do esmalte e do batom, tamanho do decote, horário em que estamos circulando em vias públicas, decisão ou não de termos filhos ou companheiros/companheiras, dentre outras (e muitas) características. Mesmo com tantas conquistas, ainda hoje batalhamos para ocupar o espaço público, saindo do (dito) protegido espaço privado, para sermos protagonistas de nossa própria vida, corpo, existência!

E o cinema e a televisão?

Em filmes e séries, vários estudos apontam que as personagens femininas ainda ocupam espaço periférico na narrativa e, mais do que isso, têm sua narrativa vinculada ao mundo masculino. Um parâmetro simples disso foi estabelecido por Allison Bechdel, cartunista americana, em 1985. O conhecido “Teste Bechdel”, faz três perguntas para o filme (que a autora dizia serem premissas para assistir a qualquer filme):

(a) há mais do que duas personagens femininas no filme?;

(b) as mulheres dialogam entre si?

(c) o diálogo entre elas é sobre qualquer tema que não seja ‘homens’?

Pode parecer meio bobo, até… Mas observe os filmes e seriados que vemos usualmente… Este teste indica o quê para ti? Faria sentido fazer estas perguntas a personagens homens?

Mais do que um teste técnico-científico de precisão, e/ou de qualidade do filme analisado, estas perguntas apresentam possibilidades de se pensar acerca da representação das mulheres nas telas e sua relação com a nossa cultura…

Enquanto isso, nas histórias fantásticas

Voltando ao mundo do fantástico, as mulheres também costumam ocupar lugares mais periféricos nas narrativas. No entanto, há heroínas poderosas que têm sido construídas ao longo das décadas. A questão que vou abordar aqui é sobre como este poder, algumas vezes, associa-se a um risco e ao medo de quem acompanha estas mulheres. Mais do que isso, há uma busca pelo controle do corpo destas mulheres…

No universo Marvel, falarei da Capitã Marvel e de Jean Grey (que esperamos ansiosas pelo desfecho no filme da Fênix Negra). Talvez menos conhecida, na série Umbrella Academy (Netflix), abordarei um pouco sobre a Vanya, uma jovem mulher que, também, é coagida a se desacreditar desde tenra infância sobre si mesma.

Todas estas mulheres passam por situações de intensa opressão, incluindo o apagamento de suas memórias e identidades, por seus tutores. Estes as ensinam a controlar seus poderes ou mesmo as criam de modo a não saberem que tais poderes existem! Seus poderes emergem como grandiosos, via de regra, como desestabilidade emocional e/ou são usados em momentos de desequilíbrio (como raiva e tristeza).

Jean Grey

Vou iniciar com a história de Jean Grey, a mutante com poderes telepatas e telecinéticos da equipe X-men. Ao longo da trilogia inicial, ela desponta como uma heroína que vive dilemas morais – incluindo vincular-se a um complicado e competitivo triângulo amoroso – e apresenta-se como uma mulher empática e complacente. Dedicada à equipe, compreensiva com a dor alheia, compreende a si mesma como inapta em vários momentos nos filmes.

Fênix Negra – JeanGrey / Copyright: Marvel Studios / Divulgação

Ao morrer, em prol da equipe, volta confusa e com perturbações que a fazem emergir com poderes que estavam escondidos em seu subconsciente. A narrativa apresenta, desde então, a mais poderosa dos mutantes e sua história de controle, pelo zeloso professor Xavier. Este, ao passo que a ensina sobre os poderes, também executa o cerceamento da sua mente para contê-la, a partir da premissa do perigo – dela consigo e com os outros -, em decorrência do desequilíbrio e da instabilidade emocional que emergem conjuntamente com sua força*.

Vanya, a número 7

Outra narrativa interessante é da Vanya, violinista e “filha” número sete, do seriado Umbrella Academy, recentemente lançado na plataforma Netflix. Vanya é a única entre os irmãos (todos adotados) que cresce com a marca de não possuir poderes. A filha “extremamente ordinária” é altamente medicada, apresenta traços de fragilidade, depressão e sente-se constantemente inferiorizada na família. Ela não é especial, como aparece na narrativa constantemente. Acaba sendo foco de preocupação conforme os enfrentamentos ocorrem, exatamente por não ter defesas extraordinárias.

Vanya – Violino Branco / Copyright: Netflix / Divulgação

Com o desenrolar da história, torna-se perceptível que Vanya teve uma educação restritiva que bloqueou seus poderes, exatamente por todo seu potencial. É exatamente a ideia de que uma menina não terá condições de aprender a lidar com tamanho poder que faz com que seu tutor legal – seu pai adotivo – decida por apagar os registros de excepcionalidade e reprimir Vanya, utilizando-se de diagnósticos psiquiátricos e aparatos prisionais dentro de casa, até que todos esqueçam das manifestações de seu poder.

Uma personagem com mais poderes que os demais, coagida a se desacreditar, construindo sua identidade como “uma menina normal” no meio de uma família extraordinária. Visivelmente infeliz, submissa aos caprichos do pai, superprotegida pelos irmãos (que acabam por criar uma imagem de fardo familiar), Vanya irrompe através do desequilíbrio emocional e canaliza, pela música, todo o seu apocalíptico potencial.

Capitã Marvel

Por fim, Capitã Marvel talvez seja a narrativa mais recente que trouxe uma mulher como forte protagonista no cinema de heróis. Forte não apenas pelos seus poderes extraordinariamente maiores do aqueles usualmente vistos em homens. Todo o elenco é composto por mulheres fortes. Mulheres que tem como foco não estabelecer pares românticos, mas criar uma filha como mulher solteira, serem as melhores pilotas, as melhores cientistas… Enfim, força: intelectualidade e destreza para lidar com vilões de todas as partes.

Capitã Marvel / Copyright: Marvel Studios / Divulgação

As frases “Você deve controlar suas emoções” e “você é melhor do que isso”, proferidas pelo seu tutor, Yon-Rogg, traduzem uma falsa ideia de cuidado e zêlo com a protagonista. Com um ar de hierarquia que pende ao abuso, a fala apresenta o desmerecimento da personagem – “você é melhor que isso” – ao mesmo tempo que condena as atitudes e “descontrole”. A busca pela luta sem o uso dos poderes, a ideia de conter as emoções, pelo risco apresentado (a si e aos outros), no decorrer da trama mostra-se claramente como uma busca de cercear e controlar o que é, de fato, um poder que se teme**.

Difícil ser mulher, que aprecia filmes de super heróis, e não se emocionar com a potência da Capitã Marvel, seu enfrentamento da subserviência e, também, a valorização da amizade e amor entre mulheres, com diálogos que não remetem a amores românticos – mas problemáticas cotidianas. Além, claro, da necessidade de salvar o universo (e ter êxito na função!).

Finalizando

Nestes três filmes, as mulheres por um lado, sim, apresentam sua potência e força, embora ainda dentro de um embate interno entre a submissão e assumir-se e romper com este lugar. Ainda dentro de um sistema de controle de si e de seus corpos, que configura suas identidades dentro de um estereótipo ligado à fragilidade e ao desequilíbrio das emoções. Tal desequilíbrio é o que coloca em risco o que está ao seu redor. É temido e, por isso, desestimulado, bloqueado, cerceado. Identidades constituídas dentro de uma cultura de silenciamento, ainda, das mulheres.

Na trama, a construção dessa identidade, especialmente com Jean Grey e Vanya, ainda se dá dentro de um embate pela mudança de uma conduta socialmente normatizada e culturalmente aceita, apontando para uma força destrutiva que acaba por justificar os receios previamente estabelecidos. Embora tenha sido constitutiva da própria destruição –  com sentimentos confusos, em função da traição por aqueles em quem confiaram suas vidas e aprendizados.

Esterótipos, identidade e representação social

Dehnion Lopes, ao discutir a presença de protagonistas em papéis significativos à trama, aponta que:

A representação social possibilita uma política identitária de confronto e marcação das diferenças que, num primeiro momento, enfatiza uma luta política e teórica contra a repetição de imagens negativas em favor da necessidade de imagens positivas. Essa estratégia desempenhou o papel de enfatizar a relação entre estereótipo, estigma e cultura, porém, conduziu a um outro extremo, ao criar novos estereótipos (p.382)

Que venham mais filmes, mais protagonistas. Que as mulheres ganhem espaços em identidades cada vez mais seguras de si, ocupando os espaços públicos que nos foram (e são) negados por tanto tempo.

Com a força tão belamente descrita por nossa poeta (que encerra este post), Cora Coralina:

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
( Cora Coralina )

Goose / Copyright: Marvel Studios / Divulgação

* Sim, sim, nas HQs a Fênix Negra é uma entidade cósmica com poderes ilimitados, eu sei, eu sei. No novo filme isso será apresentado. Mas na trilogia do X-Men não é abordado com essa ênfase (e foi a partir da trilogia que fiz os apontamentos…).

** Me desculpem os anti-gatistas, mas a Capitã Marvel ter a gata Goose MARAVILHOSAMENTE PODEROSA TAMBÉM só torna o filme mais fantástico.

Para saber mais:

CARVALHO, Debora (2019). Capitã Marvel é sobre a força de uma mulher, não exatamente seu empoderamento. Garotas Geeks.

___. (2019) Como Capitã Marvel quebra o molde dos filmes de super-heróis. Garotas Geeks.

LOPES, Dehnion (2006) Cinema e Gênero. In: MASCARELLO, Fernando (org.) História do cinema mundial (org.). Editora Papirus. 379-394.

MAGALDI, Carolina Alves; Machado, Carla Silva (2016). Os testes que tratam da representatividade de gênero no cinema e na literatura: uma proposta didática para pensar o feminino nas narrativas. TEXTURA – Revista de Educação e Letras, vol.18, n.36.

POLISTCHUCK, Lídia (2019). Capitã Marvel não é para homens, entenda. Garotas Geeks.

SIQUEIRA, Vera (2006) Sexualidade, gênero e educação: a subjetivação de mulheres pelo cinema. Educação e Realidade, vol.31, n.1, 127-144.

WESCHENFELDER, Gelson Vanderlei; COLLING, Ana (2011) Histórias em quadrinhos de super-heroínas: do movimento feminista às questões de gênero. Interthesis, vol.8, n.1. DOI:10.5007/1807-1384.2011v8n2p200

Sobre a série corpo da mulher:

https://www.blogs.unicamp.br/pemcie/category/corpo-da-mulher/

Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! 😉

Sobre Ana Arnt 30 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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