Ensino de ciências descolonizado: espaço de todos os saberes

Imagem da Capa: Jogar capoera ou danse de la guerre, J. M. Rugendas, ost, 1835.

texto escrito por Gildo Girotto Junior, Mariana Bercht e Gian Carlo Guadagnin

“É necessário estarmos sempre abertos a novos enfoques, novas metodologias, a novas visões do que é ciência e da sua evolução, o que resulta de uma historiografia dinâmica”. (Ubiratan D’Ambrósio, 2002)

Os conhecimentos desenvolvidos por povos antigos sobre o uso do solo, ou sobre a produção de sabão ou ainda sobre a utilidade de plantas no tratamento de doenças podem ser considerados científicos? Dentro da amplitude de conceitos da história que nos são ensinados, estudamos aspectos da cultura afro, indígena ou quilombola, que, no caso do Brasil, são comunidades que nos dão origem? Neste texto, buscamos trazer um pouco de como algumas destas questões têm sido tratadas como construções de conhecimento. Além disso, falaremos no texto de hoje, sobre a forma como pensamos o seu ensino.  

Conhecimentos daqui e de lá

Como professor universitário, costumo participar de inúmeras bancas de defesas de tese. Recentemente, em uma bancas, ouvi um relato de que um pesquisador (homem e branco) chegou à aldeia indígena para fazer um trabalho de preservação ambiental. Pareceu-me estranho. Como alguém que viveu em uma metrópole quer ensinar alguém que se utiliza dos recursos naturais de modo sustentável, sobre como preservar o ambiente? Mas, tudo bem, sigamos no relato. Uma das ações sugeridas pelo pesquisador era que os índios não queimassem o bagaço dos alimentos na área de plantio, após a realização da colheita. Prontamente a comunidade indígena indignou-se e explicou ao pesquisador sobre a necessidade daquele processo para a continuidade das próximas safras.

Começo o texto com este pequeno relato para ilustrar um pouco de como aquilo que conhecemos possui limitações. Isto é, nem sempre compreende aquilo que culturalmente se desenvolve nos mais variados meios sociais. A prática dos indígenas envolve um conhecimento da experiência, construído ao longo de muitos anos. Provavelmente os moradores da aldeia não iriam explicar que a queimada faz com que elementos e substâncias químicas essenciais ao solo sejam liberados. Tampouco explicariam que os produtos da combustão geram óxidos básicos que controlam o pH que, para aquela determinada planta, apresenta-se como ideal. Mas a ação da tribo nos diz muito.

Definir o que é ciência e o que ela estuda não são tarefas fáceis.

No entanto, podemos aqui considerar que existe um conjunto de conhecimentos produzidos ao longo da história. Tais produções se dão por diferentes sujeitos e em diferentes culturas, utilizando-se de metodologias diferentes. São, portanto, conhecimentos contextualizados. Tal produção é importante para as sociedades pois permitem o seu desenvolvimento tecnológico, cultural, social e carregam características específicas das localidades. 

No entanto, se pensarmos o conhecimento que nos é ensinado na escola, notamos que ele se restringe àquele produzido por algumas sociedades. Sociedades estas que, em geral, são as dominantes. A química escolar, por exemplo, ainda não considera (de modo geral) os conhecimentos de comunidades tradicionais (como as indígenas, por exemplo). E isso ocorre porque tais comunidades não se utilizam de um método reconhecido por uma comunidade científica e assim, não podem ser considerados ciência.  

Todavia, retornemos à ideia de que “conhecimentos são produzidos ao longo da história por diferentes sujeitos”. Neste caso, haveria espaço para pensarmos em conhecimentos químicos produzidos por comunidades tradicionais e, como consequência, que estes também poderiam fazer parte do ensino escolar?

Etnociência

Tal questionamento nos leva a estudos diversos que têm considerado a denominada etnociência (da qual fazem parte a etnoquímica, etnomatemática, etnobiologia, etc). Ela se pauta no estudo dos conhecimentos tradicionais construídos por populações humanas, que se relacionam aos processos naturais e a cooperação entre ser humano e ambiente. Tratamos aqui, portanto, de conhecimentos produzidos pelos seres humanos de modo geral. Isto é, não apenas aqueles produzidos por europeus, brancos, com laboratórios em grandes centros de pesquisa e universidades. 

Obviamente, não se trata de desconsiderar a produção humana proveniente de ciências como a química, a física e a biologia. Mas compreender que para além delas outras formas de desenvolvimento de saberes, relacionadas diretamente à atividade humana, são possíveis. O ensino dessa “outra parte” faz-se necessário para que aspectos culturais sejam preservados e sua importância seja ressaltada. Trata-se aqui de descolonizar saberes e pensar o trabalho considerando uma perspectiva intercultural.

Legalmente falando

Em termos do ensino escolar, a Lei no 11.645/08, de 10 de março de 2008 estabeleceu a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena em todo o currículo escolar. Apesar do foco nas áreas de artes, história e literatura, podemos considerar esse marco expansível às demais áreas. Portanto, trabalhar a produção de conhecimentos dentro da perspectiva da etnoquímica em sala de aula é não apenas necessário como legalmente instituído. 

Apesar de a aprovação da lei ter ocorrido há mais de uma década, notamos pouca inserção de conhecimentos tradicionais em espaços de sala de aula. Sobre isso, muitas questões podem ser apontadas. Tais como a ausência de materiais didáticos e formação dos profissionais da educação para que atuem dentro desse cenário específico. Afinal, pelo longo tempo que passamos aprendendo apenas “conhecimentos colonizados” nossa formação pessoal mesma nos torna incapaz de atuar, como professores, frente a esse contexto. Nesse sentido, precisamos de auxílio.

Entre o falar e o fazer

    Provavelmente as nossas primeiras tentativas de integrar conhecimentos tradicionais ao currículo escolar serão falhas. Não se trata de pessimismo, mas de compreender que o processo de descolonização dos saberes e práticas é também um processo de aprendizado. No entanto, é possível olhar trabalhos que já foram desenvolvidos, compreender seus erros e repensar propostas. Afinal, é esse o trabalho com educação. 

  Tenho tido acesso, na área da química às mais diversas produções. Isso inclui relatos de experiências que discutem aspectos mais gerais, como preservação ambiental e uso sustentável da terra. Ou ainda aos diferentes métodos de produção de alimentos em comunidades indígenas e quilombolas. Bem como, questões mais específicas da química como o estudo de propriedades físico-químicas do urucum no uso como protetor solar. Destaco, aqui, os trabalhos da professora Anita Canavarro Benite. Esta pesquisadora, junto ao seu grupo de pesquisa vem desenvolvendo e publicando pesquisas e relatos de experiências em sala de aula.

Nesses caminhos difíceis, de reestruturações necessárias, o importante é reconhecermos, como destaca a primeira frase deste texto, a necessidade de revisitarmos os sentidos da ciência e as diferentes historiografias que a constrói.

Para saber mais: 

ALVINO, ACB; MOREIRA, MB; LIMA, GLM; SILVA, AG; MOURA, AR; Benite, Anna Maria Canavarro (2020) Química Experimental e a Lei 10.639/2003: a inserção da história e cultura africana e afro-brasileira no ensino de Química. QUÍMICA NOVA NA ESCOLA (IMPRESSO), v42, p136-146.

SILVA, JP, ASSIS, GAF, ALVINO, ACBATISTA, BENITE, CRM, BENITE, AMC (2020) Leite em -mama- África e a Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) no Ensino de Química. QUÍMICA NOVA NA ESCOLA (IMPRESSO), v42, p4-12.

KUNDLATSCH, A, SILVEIRA, C (2018) Interculturalidade e ensino de química: considerações sobre uma atividade didática envolvendo a cultura indígena. Revista Eletrônica Científica Ensino Interdisciplinar. Mossoró, v4, n12.

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