Petição em favor da pesquisa básica

Uma petição (abaixo assinado) com 18.000 assinaturas de acadêmicos do Reino Unido foi encaminhado para o Conselho de Financiamento de Educação Superior da Inglaterra (Hefce, Higher Education Funding Council for England), solicitando a não-inclusão da avaliação do impacto econômico em pedidos de financiamento de projetos de pesquisas.

Em setembro último (2009), a Hefce revelou que 25% das solicitações de auxílio à pesquisa encaminhadas à Research Excellence Framework (REF) seriam avaliadas segundo critérios de impacto econômico e social das propostas apresentadas. O novo sistema, designado “Research Excellence Framework (REF)” para avaliação da qualidade de projetos de pesquisa em instituições de ensino superior, entrará em vigor em 2013. Tal mudança provocou tensão no meio acadêmico, preocupado com o impacto que tal medida resultará no desenvolvimento da pesquisa básica (de caráter fundamental).

Uma campanha encabeçada pela União de Universidades e Faculdades do Reino Unido (UK’s University and College Union, UCU) obteve 18.000 assinaturas para que as propostas da REF sejam retiradas e para que os conselhos de financiamento trabalhem em conjunto com pesquisadores, visando a elaboração de um novo modelo de avaliação de propostas de projetos, que estimule a pesquisa básica em vez de diminuir a importância desta.

Alex Rossiter, da UCU, diz que “a pesquisa acadêmica não deve estar sujeita às tendências do mercado”, e ainda que “a grandeza da pesquisa científica é a busca do conhecimento, sem que existam pressupostos ou idéias preconcebidas sobre os objetivos a serem atingidos”. Manifesta ainda sua preocupação sobre os “indicadores de impacto”, que podem levar à direção oposta do que preconizam.

Seis ganhadores de prêmios Nobel encontram-se entre os signatários da petição, dos quais quatro são químicos. Lee Cronin, professor de química da Universidade de Glasgow, acredita que a “ênfase na pesquisa de impacto” pode levar á uma falsa idéia do que constitui o real valor da ciência para o público em geral. Segundo Cronin, “estão dizendo ao público que nossa pesquisa é determinística – mas não é. Na verdade, esta é uma grande montanha russa de fracasso e de falta de inspiração, e o público não está sendo advertido sobre a perda da alma científica.” Diz ainda que “deve-se oferecer as melhores condições financeiras às melhores idéias para realizar descobertas, e não estabelecer restrições”. “Com o direcionamento objetivando o ‘impacto científico’, o público em geral passará a ver a ciência com objetivos pré-definidos, em vez de levar às fronteiras do conhecimento.”

Todavia, a Hefce nega que tais premissas sejam verdadeiras, e afirma que tais pressupostos não passam de mal-entendidos. Que as propostas não devem predizer como promoverão impacto para a sociedade, e sim esclarecer onde e quando houve impacto para a sociedade em decorrência do desenvolvimento científico. Atesta ainda que não se espera que projetos de pesquisa individuais promovam impacto social, mas sim o conjunto de programas investigativos realizados por uma determinada instituição acadêmica.

As avaliações da Hefce serão realizadas durante o verão (junho-agosto) de 2010, e, segundo o Conselho, serão baseadas em evidências e experiência. Todavia, os critérios de impacto não foram retirados. As 18.000 assinaturas da petição encaminhada à Hefce indicam a real preocupação dos acadêmicos ingleses sobre tais mudanças de critérios na avaliação de propostas de projetos científicos.

fonte: Chemistry World.

Nota: escrevi um texto sobre este assunto em 1998, no Jornal da Ciência, 13 (395), 7. Vejam a postagem seguinte.

Discussão - 2 comentários

  1. Igor Z disse:

    Esses burocratas precisam ler um conto do Robert Heinlein em que um filantropo morto determina em seu testamento que toda sua fortuna seja destinada à criação do “instituto das pesquisas inúteis”, que financia apenas projetos com utilidade prática comprovadamente zero. Anos depois, o instituto sobrevive, sem doações, dando lucros extraordinários. Todo conhecimento encontra sua utilidade no tempo certo. A escala de tempo em que isso acontece, porém, é longa demais para nossa apressada sociedade contemporânea apreciar.

  2. Rafael |RNAm| disse:

    Mas não podemos nos enganar que a ciência consegue ser imparcial na sua prática. Mesmo estes investigadores que assinaram a petição devem e têm sim q ter um comprometimento social. Por mais que não o percebamos ja estamos sob influências de diferentes forças que enviesam as pesquisas. Trazer estes fatores a tona e discutí-los é ótimo. Mas julgá-los é algo muito delicado mesmo.

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