Na postagem anterior “A tragédia da talidomida – a importância da segurança e regulamentação de medicamentos”, nós vimos que um efeito colateral da talidomida (Figura 1) provocou má formação em mais de 10.000 pessoas em todo o mundo. E, que depois desse evento inesperado provocado por um fármaco que era inclusive utilizado sem prescrição médica, houve mudanças na regulamentação para a liberação do uso do medicamento com o objetivo de garantir eficácia do medicamento e segurança do paciente.

Claramente, a talidomida é um fármaco muito útil, afinal esse medicamento ainda é utilizado atualmente. Além de já ter seu uso aprovada para o mieloma múltiplo [1] e o eritema nodoso hansênico, [2] há a esperança de que suas potentes atividades biológicas antiinflamatórias, imunomoduladoras, antiangiogênicas e anti-Alzheimer ainda possam ser explorada na medicina moderna. [3, 4]  Sabendo de tudo isso, você já parou para pensar como é possível administrar o uso da talidomida com segurança?

Bom, como tem dois compostos isoméricos, uma proposta inicial seria separar o isômero bom (R – sedativo) do isômero ruim (S – teratogênico) e, dessa forma separar os efeitos farmacológicos usando apenas um enantiômero puro (R -Talidomida). No entanto, hoje se sabe que ambos os enantiômeros da talidomida, R e S, podem rapidamente se interconverter (racemizar) nos fluidos corporais e tecidos e formar concentrações iguais de cada forma. [5] Portanto, separar os isômeros não é uma forma eficaz para gerenciar o uso da talidomida. Assim, a talidomida é disponibilizada para uso na sua forma racêmica. Em outras palavras, tem-se no comprimindo uma mistura das talidomidas (Estruturas R e S-talidomida –  Figura 1).

Figura 1. Reação de interconversão da talidomida em meio fisiológico.

O que há em todo mundo são regulamentações severas para garantir segurança do paciente. De uma forma geral, o uso é liberado para os homens e restrito para mulheres, especialmente em idade fértil. O uso de talidomida é cuidadosamente monitorado usando estratégias de sucesso como o “Sistema para a Educação da Talidomida e Programa de Segurança” que acompanha os pacientes para instruir e garantir que elas não estejam grávidas durante o tratamento. [5] No Brasil, por exemplo, permite-se o uso da talidomida, inclusive por mulheres em idade fértil, desde que esteja sob rigoroso acompanhamento médico e utilizando dois métodos contraceptivos para evitar a gravidez . [7]

Atualmente, na embalagem da talidomida é obrigatória à imagem de uma criança vítima da talidomida como meio de informação visual ao paciente que fará uso do medicamento (Figura 2). Mais informações sobre regulamentação e uso da talidomida no Brasil encontra-se no site da Agência Nacional de VIgilância SAnitária – ANVISA.

 

Embalagem da talidomida aprovada pela ANVISA.

Na época em que foi tirada do mercado, a talidomida continha dados incompletos e insuficientes sobre sua segurança e eficácia. No entanto, novos estudos científicos foram feitos de forma que haja garantias quanto à segurança. Sua alta eficácia no tratamento de várias doenças tem justificado o seu uso e pesquisa cientifica até os dias de hoje.

Uma abordagem usada hoje na pesquisa cientifica é o preparo de diferentes análogos da talidomida. A ideia é encontrar compostos estruturalmente semelhantes à talidomida com alta eficácia, contudo em que seja possível suprimir os efeitos adversos [8]. E, assim é a paradoxal talidomida – antes temida, hoje promissora no tratamento de várias doenças. Parece que a história da talidomida ainda não acabou!

Até a próxima!

Quimikinha!

Ciência para todos!

 

Referência Bibliográfica

[1] Thalidomide | Cancer in general | Cancer Research UK. Available at: http://www.cancerresearchuk.org/about-cancer/cancer-in-general/treatment/cancer-drugs/drugs/thalidomide . (Accessed: 7th June 2018)

[2]  Wishart, D. S. et al. DrugBank 5.0: a major update to the DrugBank database for 2018. Nucleic Acids Res. 46, D1074–D1082 (2018).

[3] Thalidomide | ALZFORUM. Available at: https://www.alzforum.org/therapeutics/thalidomide (Accessed: 7th June 2018)

[4] Knobloch, J., Jungck, D. & Koch, A. The Molecular Mechanisms of Thalidomide Teratogenicity and Implications for Modern Medicine. Curr. Mol. Med. 17, (2017).

[5] Vargesson, N. (2015). Thalidomide-induced teratogenesis: history and mechanisms. Birth Defects Research. Part C, Embryo Today : Reviews, 105(2), 140–156. https://doi.org/10.1002/bdrc.21096

[7] Talidomida – Anvisa. Available at: http://portal.anvisa.gov.br/talidomida. (Accessed: 7th June 2018)

[8] Sales Luiz Vianna, F., Dra Lavínia Schüler-Faccini Co-orientadora, P., & Maria Teresa Vieira Sanseverino, D. (2013). Universidade federal do rio grande do sul. Talidomida no Brasil: vigilância epidemiológica, teratogênese e farmacogenética. Retrieved from https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/142682/000876932.pdf?sequence=1

 


Gisele Silvestre

Atualmente, sou pesquisadora na área de inovação tecnológica no Laboratório Multiusuário de Química e Produtos Naturais sediado na Embrapa - CE (Postdoc). Doutora em Química pela Unicamp (2017). Bacharel em química pela Universidade Federal do Ceará (2011). Interessada na popularização da ciência, parcerias, trocas de conhecimentos científicos e culturais. Tenho como hobby o ato de "aprender" . O conhecimento sempre me surpreende e fascina. Minha missão é compartilhar conhecimento e descobertas científicas. Ciência para todos! Carpe Diem!

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