O caborteiro rio Camaquã (“Icabaquã”) e as linguagens da proteção ao bioma Pampa

"Seio da terra" e flores de Tuna (cacto) - Fragmentos do bioma Pampa e o rio Camaquã / Imagem por Felipe de Almeida Borges.

Para quem chega ao Pampa gaúcho ou sul-rio-grandense pela rodovia BR-153, aos 80 km antes da cidade de Bagé (RS) – região onde o Brasil faz fronteira com o Uruguai –, é possível acessar uma das praias do rio Camaquã e passar o dia, pernoitar, acampar, aproveitar a sombra das árvores, ver borboletas… e ainda se refrescar nas águas rápidas do Camaquã. Este pico reserva várias espécies típicas da fauna e flora do bioma Pampa, como a Carqueja (Baccharis trimera), popularmente utilizada na região por suas propriedades medicinais, e animais como tatus, mulitas e alguns peixes. O local é um convite ao exercício das sensibilidades, à contemplação, com seus cheiros, cores e sonoridades. O rio oferece tantos outros lugares similares, ao deleite, ao longo dos aproximados 430 km de extensão, e que tem sua nascente localizada nos arredores das cidades de Lavras do Sul, Bagé e Dom Pedrito, culminando seu curso na Lagoa dos Patos, na porção centro-sul do estado do Rio Grande do Sul (RS), Brasil.

Mapa do Estado do Rio Grande do Sul, Bacia Hidrográfica do Rio Camaquã. Fonte/Reprodução: Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) do estado do Rio Grande do Sul.

Essa região, habitada historicamente por indígenas das etnias Guarani e Charrua, tem em seus nomes as marcas de conhecimentos fundamentais sobre a natureza adquiridos numa relação muito particular destes povos e o agora denominado bioma Pampa ao longo do tempo. Tratado hoje oficialmente e popularmente por rio Camaquã, a origem desta nomenclatura remete aos nomes tupi-guarani “icabaquã” ou “yacuã”. Segundo o professor Hemerson Vargas Catão, da Faculdade Intercultural Indígena (FAIND) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), essas letras admitem várias interpretações, mas que podem se referir a “água que sai e corre no seio da terra”, ou então à característica “brava” das águas desse rio, que é a sua velocidade de forte correnteza (capaz de carregar pedras), no planalto da campanha.

Leito do rio Camaquã entre os municípios de Bagé e Caçapava do Sul, estado do Rio Grande do Sul / Imagem por Felipe de Almeida Borges.

É muito comum serem registrados afogamentos de banhistas que buscam este rio durante o cada vez mais ardente verão no sul do Rio Grande do Sul, portanto, uma mirada atenta aos nomes e apelidos do Camaquã pode significar um veraneio saudável e mais responsável. Por isso mesmo, no título deste texto está a palavra “caborteiro”, expressão peculiar do vocabulário sul-rio-grandense, que se refere àquele que é tido como não confiável, como um cavalo que é arisco ou manhoso. Ao entrar no rio Camaquã, praticantes do candomblé ou da umbanda, costumam pedir licença à Oxum (Orixá protetora das águas doces, dos rios e das cachoeiras – na mitologia Iorubá e Afro-brasileira), também como uma forma humana e espiritual de relacionamento com a natureza e consideração de suas características e seu valor por si só.

A eclosão de pandemias, como a da COVID-19 (Organização Mundial da Saúde-OMS/março de 2020), está ligada, sobretudo com a forma gananciosa e, portanto danosa, com que as sociedades atuam sobre o meio-ambiente e em seus contatos com outros seres humanos e culturas distintas.

Ocorre que diversos grupos de pesquisadores e pesquisadoras vinculades à instituições de pesquisa brasileiras (INPE, UFPR…), dentre elas àquelas localizadas na região do bioma Pampa no Rio Grande do Sul (Unipampa, UERGS, IFSul, UFPel, FURG, UFSM) têm alertado, há algum tempo, sobre as ameaças à natureza nessa região – algo que também já é perceptível aos veranistas assíduos do rio Camaquã. Uma destas pessoas que esteve no rio em dezembro de 2022 relata que o leito “nunca esteve assim”, tão baixo, evidenciando a crise hídrica que já assola a região, ainda que os racionamentos de água não sejam novidade para os moradores de Bagé. Fortes ondas de calor também atingiram a região sul da América do Sul em janeiro de 2022: cidades como Montevidéu (Uruguai), Buenos Aires (Argentina), Uruguaiana (RS) e Bagé (RS) têm registrado temperaturas recordes acima dos 40 graus célsius e, por outro lado, ainda enfrentam temporais e alagamentos nas “virações”, ou quando o tempo (meteorológico) muda e a chuva se faz presente.

O regime de chuvas do Pampa depende sobremaneira dos chamados “rios voadores” (nuvens) que descem da Amazônia até o sul da América do Sul, num processo que começa na África! No rio Camaquã, os peixes estão cada vez mais escassos: alguns animais, como o lagarto, já não são mais vistos tão facilmente, o que preocupa os amantes do Camaquã e habitantes da região da Bacia Hidrográfica do Camaquã, que segundo dados da Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do RS possui 245.646 habitantes entre áreas urbanas e rurais (2020).

As ameaças que rondam o Camaquã e o bioma Pampa não são poucas, e estão associadas ao avanço dos interesses dos grandes capitalistas nacionais e internacionais nessa região, que até outros tempos permaneceu esquecida. Avançam iniciativas que buscam a legalização de megaprojetos de mineração do solo do Pampa, além do cultivo da soja, commodities, nos campos do sul do Brasil, em detrimento da produção de alimentos, por exemplo. Entre os anos 2000 e 2015, a área plantada com soja no Pampa aumentou 188,5%, sendo que nos municípios de Bagé (RS) e Aceguá (RS), os números chegam a 191,7% e 1.150%, respectivamente. Às margens do Camaquã em Caçapava do Sul (RS) estão inseridos projetos de exploração de cobre, chumbo e zinco, numa região que congrega um dos mais valiosos sítios geológicos do país.

Pedras e areia do leito do rio Camaquã / Imagem por Felipe de Almeida Borges.

No entanto, diversas ações de resistência a esses projetos estão sendo empreendidas através da organização da comunidade local, além da ação de órgãos como o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e as iniciativas em projetos de pesquisa e extensão empreendidas através das universidades e institutos já citados. Além de reuniões, audiências públicas e iniciativas como a tradicional “Descida do Rio Camaquã” (por grupos de remadores) buscam conscientizar e divulgar a necessidade de proteção deste fabuloso ambiente brasileiro. Cabe aos habitantes da região do Pampa e demais brasileiros e sul-americanos perceberem a importância desses movimentos para que continuem a desfrutar das belezas da natureza neste pedaço de chão crucial para suas vidas.

Estive em Bagé (RS) em dezembro/janeiro do ano de 2022, e ao conversar com um caminhoneiro sobre os encantos do rio Camaquã ele me disse que no passado, em algumas viagens, ao atravessar a ponte sobre o rio entre Bagé e Caçapava do Sul (quando havia enchentes e as águas se aproximavam da pista da rodovia), era possível inclusive se assustar com o ronco forte dessas águas. Lembro então do músico missioneiro Noel Guarany (1941-1998), que cantou outros rios do Rio Grande, e da canção Eu e o Rio, para que o bioma Pampa e o caborteiro Camaquã continuem vertendo e “mateando a sede do pago”.*

Carqueja (Baccharis trimera) / Imagem por Felipe de Almeida Borges.

Referências e páginas consultadas:

* O abastecimento de água para o consumo humano nas áreas urbanas de Bagé-RS é feito através de represas/barragens, não vinculadas ao rio Camaquã, mas dependentes de água da chuva. Este rio adquire maior importância neste sentido para alguns municípios da bacia hidrográfica do Camaquã, áreas rurais e territórios dos povos indígenas nesta região. Os racionamentos de água em Bagé tem presença histórica na rotina da população (https://www.bage.rs.gov.br/index.php/2022/02/21/racionamento-e-ampliado-para-12-horas-em-bage/). Informação adicionada ao artigo original em 19/03/2022.


Felipe de Almeida Borges tem interesse e formação acadêmica em História e Divulgação Científica e Cultural.

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