Precisamos de cidades mais preparadas para os riscos climáticos

As cidades representam o palco principal dos efeitos das mudanças climáticas. Neste início de 2022, as já conhecidas notícias sobre enchentes se tornaram mais frequentes e trágicas, com milhares de desalojados em Minas Gerais e Bahia. A onda de calor no sul do Brasil e a queda de rocha em Capitólio com vítimas fatais provam que as mudanças climáticas são cada vez mais visíveis e impactantes. Para tornar o cenário mais cinzento, a nova variante da Covid, a ômicron, tem acelerado como nunca o número de contaminados depois de quase dois anos de pandemia.

Nesse ambiente, as decisões políticas que deverão ser tomadas neste ano se somam a um cenário de instabilidade democrática em que o negacionismo climático é usado como estratégia anticiência e que já se tornou parte da atual prática eleitoreira. Portanto, são esperadas discussões ainda mais acaloradas, ideológicas e polarizadas, e que não contribuem para um consenso em torno da emergência do tema.

O mundo precisa reduzir pela metade suas emissões até 2030 paraatingir a meta carbono zero líquido até meados deste século. Este é o mínimo para que fiquemos dentro dos limites de segurança climática acordado na Conferência das Partes de Paris, em 2015. A ciência mostra claramente que, se as temperaturas globais ultrapassarem 1,5° e 2°C, os efeitos produzidos pelo aquecimento global podem ser muito piores do que os da pandemia.

O protagonismo dos governos subnacionais e locais

O coronavírus pode ter sido responsável pela migração de um grande número de pessoas que optaram por sair dos centros urbanos para residir na praia ou no campo, mas as metrópoles continuam crescendo exponencialmente em todo o mundo. O resultado é previsível: mais prédios, num processo de verticalização urbana sem precedentes, e mais emissões de gases de efeito estufa.

Para avançarmos com sucesso nessa batalha contra o aumento de emissões, as cidades precisam estar melhor preparadas por concentrarem múltiplas fontes poluidoras, entre as principais, transporte e resíduos sólidos. O excesso de asfalto e vidro e a escassez de áreas verdes também não contribuem para arrefecer os efeitos das ilhas de calor.

Por serem responsáveis pelo planejamento do uso da terra, pelo licenciamento ambiental, espaços verdes, mobilidade, abastecimento de água e energia, e pela gestão de resíduos, entre outros serviços básicos, os governos locais tendem a gerar impactos positivos tangíveis e imediatos. Por serem menos permeados pela polarização partidária, as cidades têm a vantagem de poder testar, como um laboratório vivo, inovações transformadoras cocriadas com as partes interessadas.

A recente Conferência da UNFCCC (COP26), em Glasgow, reafirmou que o tempo para negociações acabou e que a situação exige ações efetivas e imediatas. Uma proposta apresentada no evento foi a iniciativa Net Zero Carbon Cities do Fórum Econômico Mundial com mais de 200 soluções com potencial de reverter a atual crise climática. Dentro desta iniciativa, o Toolbox of Solutions for Urban Transformations reúne exemplos de 110 cidades ao redor do mundo que adotaram soluções pioneiras para descarbonizar suas cidades, o que prova que há soluções possíveis e viáveis a serem adotadas. Metas de consumo de energia e sistemas inteligentes de aquecimento e resfriamento são exemplos de soluções de tecnologia limpa que geram economia e empregos verdes, além de uma infraestrutura urbana favorável ao bem-estar dos cidadãos.

Para isso, governos locais devem incentivar a inovação digital, o planejamento urbano inteligente e compacto e um transporte público sustentável orientados por metas baseadas na ciência. É hora de os gestores públicos assumirem a liderança das cidades com compromissos e planos climáticos que se materializem em ações para proteger a população dos desastres ambientais.

 


Jaqueline Nichi é jornalista e cientista social com mestrado em Sustentabilidade pela EACH-USP. Atualmente, é doutoranda no Programa Ambiente e Sociedade do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM-UNICAMP). Sua área de pesquisa é centrada nas dimensões sociais e políticas das mudanças climáticas nas cidades e governança multinível e multiatores.

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