O que é interseccionalidade?

O que é interseccionalidade?

As mobilizações para o 8 de março deste ano terão de se fazer diante do seguinte horizonte: pesquisas recentes posicionam o Brasil como o quinto país com maior número de homicídio de mulheres.[i] Há, também, estudos que seguem apontando que, quanto ao nível de renda, às horas de trabalho e à divisão de tarefas domésticas e reprodutivas, as mulheres brasileiras ainda se encontram numa posição altamente desigual e desvantajosa em comparação com os homens.[ii]

E quão mais triste e complexo tal quadro não se revela se notamos outros recortes para as mesmas questões. O Brasil aparece, por exemplo, no primeiro lugar no que toca à homicídios de pessoas trans no mundo[iii] e se os homicídios de mulheres cisgênero brancas diminuem em 9,8% num intervalo de dez anos, eles aumentam impressionantes 54,2% para as mulheres cisgênero negras.[iv]

Há, também, reiteradas indicações da precariedade das situações de trabalho, da renda e do bem estar geral de mulheres racializadas[v] e da população LGBTIQ.[vi] E nos é dado saber, há tempos, da complexidade das situações específicas que vivem meninas, idosas, deficientes, migrantes e tantas outras figuras que ocupam o sujeito aberto do feminismo atual, ou, no mínimo, que passam por ele.

A urgência em se pensar instrumentos de análise que sirvam ao trato da produtiva explosão de sentido que a mulher, o sexo, o gênero e o feminismo experimentam é, hoje, inegável e a interseccionalidade tem sido, sobretudo desde o começo anos 2000,[vii] o grande hit concept[viii] do feminismo acadêmico e político no Brasil e no Mundo[ix].

Em realidade, não é um ponto pacífico entre as autoras envolvidas na gênese e na divulgação dessa proposta a questão de se, ao falar de interseccionalidade, se está falando de um conceito, de uma abordagem teórica, de um método, de uma “sensibilidade analítica” ou do que quer que seja.[x] Opto, então, por referir-me, aqui, à interseccionalidade recorrendo ao termo frouxo “noção”.

O crucial sobre tal noção é que ela foi gestada na esteira de reações contrárias ao engessamento do sujeito do feminismo, capitaneadas sobretudo por feministas negras e terceiro-mundistas radicadas nos Estados Unidos a partir da década de 1970.[xi] Nesse contexto, consolidaram-se, primeiro, as críticas à ideia de que o ponto central do feminismo fosse a tematização do hiato de diferença entre homens de um ladoe mulheres de outro. No início dos anos 1980 entraria em voga, adicionalmente, a sugestão de que, diante de questões da desigualdade, a metáfora dos múltiplos centros e margens era mais útil ao feminismo que a da margem e do centro únicos. Em sequência, reconhecer-se-ia, em tal imagem de centros e margens, a limitação da questão da diferença a demandas por visibilidade e inclusão e, então, veríamos ensaiar-se, de um lado, a negação disso, e, de outro, a defesa da proposição positiva de se compreender a diferença como sendo radicalmente situacional e como sendo composta de marcações que não são separáveis umas das outras.

No início da década de 1990, a intenção comum desses debates encontraria, no artigo Mapping the Margins da jurista Kimberlé Crenshaw, uma formulação específica, a qual, nos anos seguintes, viria a conquistar enorme projeção.[xii] Hoje, se a noção de interseccionalidade segue sendo produtivamente plurívoca – e mesmo equívoca -, certamente o desenho que lhe emprestou Crenshaw ainda importa para compreendê-la, porém.

O traço inelidível, essencial, da proposta dessa autora é o reconhecimento do potencial revolucionário e emancipatório da teorização e da política na recusa à universalização ou à totalização. A despeito disso, por vezes se reconhece em sua produção uma defesa pouco radical dessa tese. Isso se deve ao fato de Crenshaw seguir mobilizando, em seus textos, a noção de identidade.

Vejamos a esse respeito o seguinte trecho, em que a questão fica patente:

“Devo dizer, de partida, que a interseccionalidade aqui não está sendo oferecida como uma nova teoria totalizante da identidade. Também não quero sugerir que a violência contra a mulher de cor pode ser explicada apenas pelos moldes da raça e do gênero aqui considerados. De fato, fatores que abordo apenas parcialmente e que sequer abordo, tais como classe e sexualidade, são com frequência tão cruciais quanto aqueles na moldagem da experiência das mulheres racializadas.* Meu foco nas interseccionalidades de raça e de gênero só destaca a necessidade de uma abordagem das múltiplas bases da identidade, quando se considera como o mundo social é construído”.[xiii]

Tal impressão talvez se desfaça, porém, se consideramos outros momentos de sua obra em que Crenshaw é explícita quanto ao seguinte: sua real questão não é afirmar qualquer identidade, nem justapor de maneira quaisquer daquelas identidades acima mencionadas,[xiv] mas sim alcançar a compreensão da diferença que é significativa num determinado contexto – nos termos da própria autora, afirmar que diferença uma dada diferença faz.[xv]

Para garantir isso, ela defende que o caminho mais produtivo é o de conferir privilégio analítico e político às minorias mais marginalizadas, as quais são, por vezes, organizadas em termos identitários.[xvi] É tal estratégia o que está por traz e o que justifica a mobilização frequente da noção de identidade em suas proposições.

De todo modo, prenda-se a proposta de Crenshaw à ideia de identidade ou não, a “muito pouco elegante noção”[xvii]de interseccionalidade vem sendo, hoje, nas diversas conotações que assume dentro do feminismo, menos associada à discussão em torno dessa questão.

Ela tem funcionado acima de tudo“como símbolo para todas as formas possíveis de combinações e de entrelaçamentos de diversas formas de poder expressas por categoriasde diferença e de diversidade”[xviii]e entra na ordem do dia mais como um simples ponto nodal ou ponto de agregação para investigações abertas de dinâmicas interseccionais e conflitivas, em contraste com um sistema fechado de proposições[xix] O que é interseccionalidade, então, é menos importante do que aquilo que fazemos dela.

*No original, “mulheres de cor” (women of color)

Laura Luedy

Campinas, Março de 2018


[i] MAPA DA VIOLÊNCIA 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil. Flacso, OPAS-OMS, ONU Mulheres, SPM, 2015. Disponível em: https://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf Acesso 5 mar. 2018.

[ii] RETRATO DAS DESIGUALDADES de Raça e Gênero. Ipea, SPM, Onu Mulheres, 2015. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/retrato/ Acesso 5 mar. 2018. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2009, pp. 116-149

[iii] TMM ANNUAL REPORT. TvT Publication Series, v. 14, October 2016. Disponível em: http://transrespect.org/wp-content/uploads/2016/11/TvT-PS-Vol14-2016.pdf  Acesso 5 mar. 2018.

[iv] Cf. Mapa da Violência, opt. cit.

[v] Cf. RETRATO DAS DESIGUALDADES, opt. cit.; e MAXIMIANO, C. A. Mulheres Indígenas: Diálogo Sobre a Vida na Cidade. Ponto Urbe, 13, 2013, pp. 1-20.

[vi] GOMES, R. Mercado de trabalho brasileiro ainda é hostil à população LGBT. Rede Brasil Atual, 22  mai.  2015. Disponível em: http://www.redebrasilatual.com.br/trabalho/2015/05/mercado-de-trabalho-brasileiro-ainda-e-hostil-a-populacao-lgbt-indica-estudo-170.html Acesso 5 mar. 2018.

[vii]COLLINS, P. H. Intersectionality’s definitional dilemmas. Annual Review of Sociology, 41, pp.1–20, 2015, p. 6.

[viii] DORLIN, 2012 apud. HIRATA, H. Gênero, classe e raça Interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais . Tempo Social, Brasil, 26, 1, pp. 61-73, 2014., p. 62; Cf. também STOLCKE, V. ¿Qué tiene que ver el género con el parentesco? Cadernos de Pesquisa, 44, 151, pp.176-189, jan./mar. 2014., p. 183.

[ix] Para uma crítica afiada dessa circulação de textos feministas acordante com a hegemonia euro- americana, ver MOHANTY, C. T. Transnational feminist crossings: on neoliberalismo and radical critique. Signs, 38 (4): 967-91, 2013.

[x] CHO, S; CRENSHAW, K. W.; MCCALL, L. Toward a field of intersectionality studies: theory, applications and practice. Signs, 38(4), pp.785-810, 2013, p. 795

[xi] Cf. COLLINS, 2015, p. 10; HANCOCK, A. Interseccionality: an intelectual history. New York: Oxford University Press, 2016, p. 32, 81, 95, 100, 102, 110; MOUTINHO, L. Diferenção e desigualdades negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas recentes. Cadernos Pagu, 42, jan-jul, pp.201-248, 2014, p. 208; PISCITELLI, A. “Gênero: a história de um conceito”. In: ALMEIDA, H. B.; SWANKO, J. E. Diferenças, igualdade. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, pp. 161-149, 2009, p. 141.

[xii]CRENSHAW, K. Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence Against Women of Color, 43 Stanford Law Review 1241-99, 1991.

[xiii] CRENSHAW, opt. cit., p.1245

[xiv] Opt. cit., p. 1283

[xv] Opt. cit., p. 1298.

[xvi]CRENSHAW, K. Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics. The University of Chicago Legal Forum [S.l.: s.n.] 139, pp.139–167, 1989, p. 167.

[xvii] STOLCKE, opt. cit., p. 181.

[xviii] KERNER, I.  Tudo é interseccional? Sobre a relação entre racismo e sexismo, in: Novos Estudos CEBRAP, 93, julho, pp. 45-58, 2012, p. 51.

[xix]Cf. CHO, CRENSHAW, MCCALL, 2013, p. 788.

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4 thoughts on “O que é interseccionalidade?

  1. Muito útil o conceito de interseccionalidade. Ao que entendo, existem grandes fluxos de discriminação que se erguem ao redor de preconceitos-base: o racismo é um deles, o sexismo outro, a religião outro e etc. Essas “vias expressas” da marginalização se entrecruzam e superpõem, e em tais entrecruzamentos o risco de injustiça se potencia.
    O conceito serve para compreender melhor as desigualdades e o grau de vulnerabilidade de cada indivíduo segundo a sua circunstância: uma mulher, negra, pobre, analfabeta etc., por exemplo, se encontra em uma interseção que a coloca em perigo iminente e a desfavorece.

    No caso da condição feminina, o posicionamento interseccional ajuda a compreender a “desvantagem originária” que a afeta: já desde o início, toda mulher é permeável ao menosprezo.

    Existe um “mapa interseccional” da situação atual da mulher brasileira? Caso não, acredito que desenhá-lo e disponibilizá-lo seria de utilidade.

    1. Seu comentário levanta pontos muito centrais que movem o debate sobre a noção de interseccionalidade hoje! Muito obrigada. A imagem das “vias que se cruzam e se superpõem” é interessante, porque é afinada com interpretações que defendem que, embora grandes chaves da desvalorização (raça, gênero, classe, por. ex.) operem juntas em determinados contextos, tais grandes chaves guardam, em si, algo de singular, de autônomo, de modo que seria preciso que a análise desse conta, também, de suas especificidades e as reconheça em separado. Há, no entanto, questões que se levantam contra essa imagem da interseccionalidade. Sobretudo a partir de autoras francesas que preferem a ideia de consubstancialidade, ganhou vulto a crítica de que a interseccionalidade, assim entendida, era um modelo problematicamente estanque, por que, de um lado, poderia dar vazão a interpretações a partir de uma lógica aditiva ou multiplicatória simplista (por exemplo, uma mulher negra é, em comparação com um homem branco, duplamente desvalorizada) e, de outro, falharia em reconhecer o poder formativo que cada combinação específica e contextual das “marcas de desvalor” tem sobre as supostas grandes chaves que as informam, como se tais grandes chaves fossem impermeáveis aos caminhos da sócio-história. Entre as diversas maneiras como a noção é hoje usada, certamente aparecem abordagens muito situacionalistas que começam por discriminar os marcadores relevantes para a análise a partir de entrevistas e outras técnicas bastante direcionadas ao contexto mais imediato. Com isso, elas nem de longe incorrem naquele erro que o debate francês apontou. Por esses e outros motivos, não é uma tarefa simples pensar numa representação gráfica para a noção – mas é certamente uma tarefa interessante para pensar as potencialidades e os pontos cegos de cada interpretação.

      Quanto ao “mapa interseccional”, creio que todas as analises que mostram os efeitos de se considerar recortes diferentes para um mesma situação já são algo próximo disso. No entanto, como a “interseccionalidade” é um termo plurívoco, o que é ou não, e o que poderia ser um mapa interseccional é uma questão difícil. Se nos alinhamos às correntes altamente situacionalistas, por exemplo, imagino que um mapa (algo que requer alguma generalidade nos critérios considerados) sequer seria possível.

  2. O caso de Marielle Franco, a respeito do qual não podemos evitar expressar a nossa tristeza e indignação, desafia uma compreensão leviana da interseccionalidade.

    Mulher, negra e jovem. Porém, muito bem qualificada: “Marielle era socióloga […] formada pela PUC-Rio e fez mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense”.
    A marginalização por causa do baixo nível cultural/educativo deveria ter sido, no caso, um diferencial que levasse a uma encruzilhada menos perigosa. Mas os fatos demostram o contrário: que sendo mulher, jovem e negra, mas também inteligente, crítica e politicamente ativa (de esquerda), Marielle se transformou em uma vítima fatal.
    Marielle “foi eleita vereadora da Câmara do Rio com 46.502 votos, sendo a quinta vereadora mais votada nas eleições de 2016”.

    Ficamos, por fim, atentos à apuração da execução de Marielle.

    citações aqui: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/03/14/marielle-franco-vereadora-do-psol-e-assassinada-no-rio.htm?cmpid=copiaecola

    1. De fato, o caso de Marielle é impressionante. Seu assassinato provocou, em mim e em tantos outros colegas, uma duradoura e sombria impressão. É duro saber que a pessoa singular foi perdida em circunstâncias mais violentas e criminosas do que um mero efeito-coleteral do “pequeno crime” no país. E é duro também olhar para o quadro tenebroso que o assassinato de Marielle apresenta a todos os militantes de esquerda na atual conjuntura.
      Não acho, porém, que tal perigo se ponha com a mesma intensidade para qualquer militante de esquerda que conquiste evidência. A história de Marielle enquanto negra, mulher, jovem, LGBT e periférica, senão fez dela um alvo mais fácil, porque menos escandaloso – a morte violenta é um destino mais comum para pessoas marcadas dessa maneira, afinal -; faz dela um alvo mais simbólico, se entendemos que o enunciado da ação foi: ordem!
      O caso de Marielle justamente foge da ordem, como você sugeriu em seu comentário. Se, por um lado, ela era marcada por todas aqueles elementos que, sabemos, em geral trazem consigo a desvalorização social nos mais diversos âmbitos da vida, por outro lado, a despeito disso ou justamente por um agenciamento desses marcadores e das circunstâncias em que se encontrou, Marielle se pôs na situação de ser, também, uma mulher letrada e politicamente bem posicionada. Se isso pôs ela em maior perigo do que aquele que enfrentam as negras LGBT faveladas cujas vidas desviam menos das estatísticas, não saberia dizer – afinal, a violência que estas sofrem também é constante, acachapante e, por fim, mortal. De todo modo, abordagens (interseccionais ou não) que são capazes de dar conta de configurações complexas como essa devem mostrar que o que está por detrás de certos marcadores como gênero ou raça é algo muito mais complexo do que um simples signo da impotência, bem como devem dar conta dos diversos elementos da experiência de figuras como Marielle que contribuem para formar essa situação peculiar e que nem sempre são os marcadores tradicionalmente considerados pela sociologia e pelos seus discursos afins.

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