Tópicos de Gênero: leituras recomendadas (I)

Tópicos de Gênero: leituras recomendadas (I)

Dando continuidade à divulgação relativa aos tópicos de gênero e ainda no ambiente de celebração da figura feminina, segue uma rápida recomendação de obras filosóficas que têm mulheres como autoras e constituem leituras fundamentais para se iniciar nos estudos de gênero. A seleção foi realizada com base nas indicações da professora Susana de Castro (UFRJ), coordenadora do Grupo de Trabalho Filosofia e Gênero da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia do Brasil (ANPOF); da doutora em Filosofia Ilze Zirbel (UFSC), participante ativa do mesmo grupo e da professora Izilda Johanson, coordenadora do curso de Filosofia da Unifesp.

Johanson sugere a leitura do “Segundo sexo”, célebre obra publicada em 1949 pela filósofa francesa Simone de Beauvoir. O “Segundo sexo” é, resumidamente, um projeto ético que mobiliza valores tais como a liberdade, a autonomia em relação à ação nos mais diversos âmbitos da existência pública e privada, etc. – valores que constituem uma plataforma para o pensamento se efetivar e a ação feminista se exercer eficientemente.

Embora faça uso do vocabulário técnico e o instrumental teórico da tradição na qual se insere (a do existencialismo), a obra constitui em si mesma um exemplo de autonomia, de produção inteiramente diferente e original que não prolonga reflexões alheias nem delega a tarefa de pensar a condição própria, isto é: a feminina.

O texto é, assim, uma ferramenta que contribui para desenvolver a habilidade de objetivar questões, de olhar o mundo social com olhos críticos em lugar de dar prioridade à condição particular; situando as diferenças, ele suscita a aptidão para se libertar da interiorização dos problemas ao compreender que a circunstância individual forma parte de um fenômeno que transcende em muito os limites do privado. Em poucas palavras, Beauvoir retrata de que modo a situação de cada mulher é a situação de muitas, senão de todas as demais.

Para além do conteúdo, que consiste fundamentalmente na consideração crítica da condição feminina ao longo da história e que parte da constatação de que a mulher é, no geral, considerada não em si mesma mas relativamente ao homem como um “outro” que “vem depois” – ou seja, como “algo segundo”, a leitura do “Segundo sexo” é fértil na medida em que constitui um convite à autonomia do pensamento e à liberdade de ação e que contribui, com isso, à formação de uma consciência esclarecida do que significa ser mulher, base de qualquer ação, em especial da ação política.

 

 

De Castro sugere a leitura da obra “A banalidade do mal”, de Hannah Arendt. Publicada em 1963 com base no trabalho jornalístico desempenhado por Arednt como correspondente do The New Yorker no julgamento de Adolf Eichmann, condenado à forca por ter liderado durante a Segunda Guerra o que, em vez de “genocídio”, Arendt prefere chamar de “massacre administrativo”. De Castro destaca a pertinência da leitura no contexto atual do Brasil no que diz respeito à politização, espetaculização e “relação promíscua” do poder judiciário – o qual, a rigor, deveria se manter como uma instância de poder separada e imparcial – com a mídia, os setores empresariais e os interesses políticos.

Como jornalista, Hannah Arendt percebeu a qualidade teatral do julgamento de Eichmann, no qual, a seu ver, tanto a defesa como a promotoria agiram tendenciosa e sofisticamente com claros fins propagandísticos. Desde a perspectiva de Arendt, Eichmann não era tanto a “encarnação absoluta do mal” quanto um burocrata interessado apenas na sua própria ascensão profissional que serviu para dar vazão a interesses e sentimentos que transcendiam em muito a sua pessoa.

Com a expressão “banalidade do mal”, Arendt de maneira alguma está a defender que as atrocidades do regime nazista foram insignificantes, mas a mostrar como a mentalidade burocrata é capaz de produzir figuras como o Eichmann: indivíduos que, completamente consumidos pelas ambições pessoais no contexto da administração da qual participam, se tornam incapazes de emitir um juízo moral sobre seus atos e inclusive privados de modo absoluto de consciência moral.

Após a publicação do trabalho, Arendt foi tão mal-interpretada quanto criticada. Em particular, foi acusada de trair as próprias raízes (ela era alemã e judia, mas naturalizada norte-americana) ao trazer à mesa o fato, por todos conhecidos mas, não obstante, por todos abafado, de que as listas dos judeus a serem transportados eram fornecidas pelos próprios líderes da comunidade judaica. Este apontamento de Arendt, evidência da sua coragem e da sua qualidade filosófica e que nada mais era do que uma observação objetiva com o fim de trazer à consciência as engrenagens profundas do aparelho totalitário em vigor, foi porém tachado como uma ofensa e alimentou o entendimento equivocado da sua mensagem.

De Castro conclui que a atualidade da obra de Arendt está fundamentalmente no apelo a manter a honestidade intelectual e a coragem de “denunciar o uso da máquina estatal para fins políticos”. Nada, de fato, mais pertinente no momento atual.

Por sua parte, Zirbel sugere a leitura da obra “Uma voz diferente”, publicada em 1982 e que rendeu à sua autora, Carol Gilligan, notoriedade internacional. Psicóloga e pesquisadora estado-unidense, Gilligan tem desenvolvido nos últimos 40 anos uma investigação destacada e especialmente influente no campo da psicologia moral e da ética. No livro em questão a autora, interessada nas pesquisas sobre o desenvolvimento moral humano, reage ao fato dos  estudos no tópico serem usualmente baseados na experiência masculina, criando um programa de investigação próprio.

Contra a corrente, Gilligan parte da consideração de dilemas cotidianos reais (e não hipotéticos, como era práxis corriqueira) enfrentados por homens e mulheres e identifica o ponto de vista feminino como a “voz diferente” que, por perceber-se divergente do discurso dominante, permanece no geral silenciosa e inexpressada. Essa voz destoante afirma que, no que toca a questões morais, é necessário prestar atenção às teias de relações nas quais os agentes se encontram envolvidos, assumindo a complexidade e se organizando cuidadosamente para dar conta dela.

“A ideia de indivíduos isolados procurando princípios gerais não parecia funcionar ou fazer sentido para as relações concretas. A pergunta mais importante encontrada por Gilligan foi: qual é a maneira mais adequada de agir, sabendo-se parte de uma teia de relações?”

A resposta mais relevante foi: a maneira mais adequada de agir é a que não causa danos ou que causa o menor dano possível. Assim, Gilligan propõe uma “ética do cuidado e da responsabilidade”. Desde a década dos 90 a nova teoria se estende para além do âmbito psicológico e filosófico, encarando desafios como os relacionados aos processos sociais pelos quais o indivíduo consolida a sua identidade e negocia responsabilidades no conjunto humano ao qual pertence. Surge assim uma intersecção entre democracia e teoria do cuidado: o cuidado passa a ser uma necessidade humana básica e geral a ser assumida pelo conjunto da sociedade, e não por um gênero particular, trazendo à tona tópicos como o da justiça, da autonomia e das políticas públicas.

A autora questiona ainda os motivos que subjazem ao desterro do ponto de vista feminino e constata que a força exercida pelo meio social, familiar, etc., contra a expressão de posições divergentes constitui uma das fontes de silenciamento mais poderosa. O androcentrismo da perspectiva dominante, que descreve os homens como seres “racionais” e, em contraste, as mulheres como sujeitos “emocionais”, incapazes de autonomia, de discernir princípios universais e assim por diante, é apresentado por Gilligan como a grande fonte de problemas da teoria moral tradicional.

Debruçando-se sobre a disparidade originária entre as perspectivas masculina e feminina, a autora sugere que tal fenômeno não se deve a fatores biológicos, mas psicológicos, vinculados ao processo de individuação e de formação do “self”, questionando os estereótipos estabelecidos e fornecendo argumentos de peso à causa feminista.

O impacto da obra de Gilligan foi imediato e inesperado. Traduzido a mais de dezesseis línguas, In a different voice: Psychological Theory and Women´s Development (tal é o título original em inglês), é um referencial paradigmático da análise da realidade contemporânea.

Parte do primeiro volume do “Segundo sexo” (edição de 1970) está disponível em pdf aqui.

“A Banalidade do Mal” está disponível na íntegra em pdf aqui

Trechos de “uma voz diferente” disponíveis aqui (em inglês)


Este texto foi redigido a partir dos vídeos disponibilizados no canal da ANPOF no Youtube nos quais as professoras, respondendo ao convite da associação, recomendam obras de referência nos estudos de gênero.

Para a indicação de Izilda Johanson, veja aqui. Para a de Susana de Castro, veja aqui. Para a de Ilze Zirbel, veja aqui.

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